Em campo, uma curiosa rivalidade

Foto: CBF

Brasil e Argentina, no futebol, nutrem uma rivalidade histórica curiosa: enquanto o brasileiro aprende desde pequeno a odiar o argentino, ainda que esse ódio não venha imbuído de rancor profundo (afinal, o brasileiro não odeia nem ama profundamente ninguém, além de si mesmo), o argentino leva meio que na flauta essa questão.

Talvez, porque durante décadas os argentinos nos dominaram nos campos de futebol, na bola e no pau, que tenha restado por lá um certo sentimento de superioridade, o que se revela em parte quando nos chamam de macaquitos. Claro que há nisso um tom racista de um povo predominantemente branco em relação a outro de maioria negra e mestiça. Mas, há, sobretudo, um forte sarcasmo acerca de nossa mania de imitação.

Durante séculos, imitamos os portugueses, os ingleses, os franceses, como agora o fazemos com os americanos do Império. Assim como, nas primeiras décadas do século passado, imitávamos os próprios argentinos, dos quais herdamos um vasto glossário de palavras tiradas do Lunfardo, a gíria portenha, que ainda percorrem nosso cotidiano.

O amigo sabe, por acaso, qual o significado original da palavra mina, tão utilizada no nosso dia-a-dia para se referir a uma garota qualquer? Como? Supõe que seja corruptela de menina? Ledo engano, meu caro. Vem mesmo da gíria argentina mina de oro ou de plata, como o malandrinho de Buenos Aires se referia à dama da noite que lhe dava boa vida. Aliás, malandro, assim como otário, vêm de lá. E bote bronca nisso, vento, grana, prata, mano-a-mano e uma infinidade de outras expressões correntes na nossa charla diária.

Mas, vá dizer ao argentino do lado que o tango, o hino nacional deles lá, é brasileiro de origem, e que Le Pera, o genial parceiro de Gardel, nasceu aqui mesmo no velho Bixiga. Pois, leva uma chapoletada na cara, meu!

Bem, mas adentrando a cancha da peleja deste fim de semana, espero que as chancas (outra) de nossos craques estejam afiadas, pois suponho que vem chumbo grosso.

Afinal, os hermanos estão em baixa, enquanto nós, sob o timoneiro Tite, navegamos em mares calmos.

Mas, pra sair dessa, eles resolveram, enfim, desfazer o malfeito e trocar Bauza por Sampaoli. É da água pro vinho (de Mendoza).

Afinal, Sampaoli, ao contrário do tosco retranqueiro Bauza, cultiva um futebol ofensivo que vem bem a calhar com os jogadores de que dispõe. Sim, porque, se a Argentina tão pródiga em fabricar goleiros e zagueiros de alto nível no passado e hoje sofre nesse quesito, no ataque, conta com um grupo de primeira linha, a começar por ninguém menos do que Messi, que dispensa apresentações.

Em contrapartida, nosso time está nos trinques, nos três setores, cheio de moral.

Pena que o jogo chegará aqui pelo raiar da manhã, o que não nos permitirá botar o champanhe no gelo. Mas, é pra ser visto de olhos e coração abertos, sem ódio, nem rancor. E, sim, com prazer.

2 comentários

  1. Apesar desse time da Argentina ser muito fraco comparado com os times do passado, mesmo tendo Messi, será muito bom para observarmos alguns jogadores fracassados e a sua volta à seleção brasileira graças às lentes biônicas do Tite. Só Tite mesmo para achar que Fagner, Gil, Fernandinho, Willian, Thiago Silva são jogadores que numa copa do mundo podem levar o Brasil a ser protagonista, pelo menos 3 desses ai já deram chabú feio em 2014. Mas, vamos fingir que ele tem razão e assistir ao jogo observando particularmente esses jogadores.

  2. Concordo com você, senhor Sardinha! Independentemente do que acontecer contra a Argentina, sou de opinião que chegamos ao fim da picada no que diz respeito ao desempenho da seleção brasileira. Naturalmente o Tite pode ainda engatar uma segunda marca, chamar novos jogadores e prolongar o voo, entretanto o mais lógico, como sempre acontece ao fim de um voo, é a aterrissagem na realidade da posição do futebol brasileiro.
    Temos que reconhecer (sem tirar o mérito do Tite) que o Brasil subiu na ponta da tabela contra times que nem nas chaves da Ásia e Oceania se classificariam. Na Europa o Brasil não conseguiria nem chegar à repescagem, e se chegasse afundaria lá.
    Portanto concordo também com o Alberto Helena, que o melhor agora é saborear o jogo (acho também que a Argentina vai tentar colocar a casa em dia), sem pensar muito no resultado, e esperar que novos ventos continuem empurrando o barco para metas desejadas.

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