
Deixemos de tergiversações, era a palavra de ordem nas mesas do Redondo, Ferro´s, Riviera, os bares da moda nos anos 60/70 – algo similar ao atual não percamos o foco. O foco, na época, era estabelecer uma estratégia conjunta na luta contra a ditadura militar, que ia desde a insurreição armada até à resistência pacífica.
Claro que nunca deixamos de tergiversar, ainda mais sob aquela enxurrada de chope, conhaque e uísque, capaz de tirar o foco a qualquer um, a não ser na morena da mesa ao lado.
Hoje, aqui e agora (nome de jornal da época), quando o foco é mais embaixo, não cabe tergiversar sobre a saída de Eduardo Baptista. Era inevitável, seja nos padrões habituais do nosso futebol, algemado pelo império do resultado, seja pelo aconselhamento do bom senso.
Sim, é preciso dar tempo ao treinador para que ele imponha seu trabalho. Pelo menos, mais tempo do que nossos cartolas lhe concedem habitualmente.
Sobretudo, se esse treinador surge com propostas audazes e arriscadas, que sugerem uma quebra da rotina e a promessa de um salto do time para um patamar superior. Nesse processo de readaptação de estilo e ideias, claro, o tempo deveria ser sempre mais longo do que o de hábito no nosso futebol tão tacanho em estilos e ideias, em geral.
Digamos assim: o Palmeiras contrata Fernando Diniz porque está convencido que de esse treinador aplicará no poderoso Verdão os conceitos que vem desenvolvendo no modesto Ajax, pois é isso que os cartolas verdes querem – investiram os tubos num elenco rico e variado, e, por isso mesmo, exigem um futebol em que o resultado e o espetáculo se harmonizem num jogo coletivo que explore ao máximo as suas individualidades.
Mas, esse não é o caso de Eduardo Baptista, um excelente profissional, gente fina, mas que jamais fugiu às propostas de treinamentos e encaixe do time em campo muito diferentes do que campeia por aí afora.
Podia ter dado certo, por que não? O fato é que não deu: depois de cinco meses de preparação, o Palmeiras não tem um time titular definido, daqueles que o amigo sai por aí recitando de cor e salteado, tampouco um jeito de jogar compatível com a excelência de seu elenco.
E, embora as estatísticas apontem um aproveitamento de quase 70 por cento durante sua gestão, o Palmeiras está fora da final do Paulistão, um torneio, cá entre nós, de baixo nível técnico, como a maioria dos campeonatos estaduais do Brasil.
Isso, sem falar em duas ou três humilhações sofridas, como nos jogos contra a Ponte, lá, e a recente derrota na Libertadores.
Para o Palmeiras dos tempos de estio, Eduardo Baptista seria um nome adequado, aquele treinador competente, sério, íntegro, capaz de equilibrar o time e alcançar uma performance digna, embora não espetacular.
Mas, o atual Palmeiras exige mais do que isso, porque já foi além disso na temporada passada, ainda mais com todos os reforços que chegaram outro dia.
Ganhar ou perder, assim como empatar, é do jogo, e essa não é a questão. A questão é que o Palmeiras, com o elenco de que dispõe, é obrigado a jogar um futebol organizado nas três linhas, fluente e agressivo. E assim não foi, a não ser ocasionalmente, nas mãos de Eduardo Baptista.
É mais provável que o venha a ser sob o comando de Cuca.
Caso contrário, vamos tergiversar um bocado, meu.
NA LINHA DO GOL
É outro querido amigo que se vai, sambista de fato, como se dizia antigamente, o nosso Almir Guineto, fundador do Grupo Fundo de Quintal e autor de sambas memoráveis, como, por exemplo, Coisinha do Pai, imortalizado por Beth Carvalho. Mas, a grande interpretação de Almir foi protagonizando a figura mítica de Paulo da Portela no filme de Paulo César Sarraceni Natal da Portela. Almir incorporou fantasticamente a figura de Paulo da Portela, fundador da escola do pedaço que lhe valeu o apodo, autor de belíssimos sambas, que militou no Partido Comunista clandestino da época e mais tarde se filiou ao PTN (não confundir com isso que anda por aí com a mesma sigla), a cisão ideológica do fisiológico PTB de Getúlio Vargas, organizada pelo político gaúcho, Alberto Pasqualini.