O Brasil perdeu o compasso

(Foto: lyn Kirk/AFP)

Sabe por que os europeus e os americanos, mesmo com suas big bands maravilhosas dos anos 30,40,50 e seus arranjadores notáveis, tocavam samba como se fosse rumba?

Simplesmente porque, embora regido pelo compasso simples de 2 por 4, o samba tem uma batida intermediária absolutamente intuitiva, incapaz de ser inserida em qualquer pauta escrita. É algo que vem do fundo do inconsciente do brasileiro, com origens africanas, nem por isso reproduzível por misturas étnicas similares.

Como dizia Noel, o gênio da raça, o samba, a prontidão e outras bossas são coisas nossas.

A Bossa Nova, que aproximou nossa música ao jazz, eliminou essa impossibilidade, muitos anos depois.

Mas, o que quero aqui é transportar essa questão aos nossos campos de futebol, jogo que o brasileiro, lá atrás, retirou da pauta comum para introduzir algo diferente, uma batida intermediária intuitiva que os europeus só recentemente assimilaram e passaram a praticar em seus gramados, graças à maciça importação de negros africanos e assimilando seus descendentes nascidos na Europa.

No sentido contrário, aqui, passamos a adotar o bate-estaca dos ritmos globalizados, sobretudo no trato com a bola.

Tudo em nome do resultado, esse princípio adotado pelos ingleses lá no século 19, época da industrialização. O que interessa é produzir, a fim de obter os resultados, os lucros projetados.

Para tanto, é preciso organizar, colocar em pranchetas os números da produção, o que, aos poucos, transforma os homens em máquinas, como bem descreve Chaplin em seu antológico Tempos Modernos, filme da época ainda do cinema mudo.

Hoje, em plena era da tecnologia da informática, em que a criatividade criou uma elite de bilionários inventores de fazer inveja aos velhos barões da indústria de então, nosso futebol continua seguindo os passos do passado.

Nossos treinadores usam as telas de seus laptops como as velhas pranchetas do capataz de dois séculos atrás.

O que interessa a eles é o resultado que lhes garantirá o salário ao fim do mês por quanto tempo isso for possível.

Ao contrário dos atuais inventores de máquinas de comunicação cada vez mais atraentes, que resvalam a magia, pois o que buscam é o espetáculo da comunicação entre as pessoas e o mundo, liberando a informação e a imaginação de cada um, nossos treinadores procuram comprimir esse jogo a um par ou ímpar disputado entre soldadinhos de chumbo, sem a menor inventividade.

Traduzindo: em vez do espetáculo, do prazer de se ver um jogo jogado livre e imaginativo, só vale o resultado semeado na mediocridade das ações coletivas voltadas basicamente a evitar o pior. Ou seja: a derrota.

O que salva a pátria de morrer de inanição é esse sortilégio de o jogador brasileiro ainda guardar em sua memória celular aquela batida intermediária, intuitiva, irreproduzível na pauta da produção dos resultados, como os Neymares da vida espalham por esse mundo afora.

 

 

 

5 comentários

  1. De certo, é verdade!
    Mas, o que seria de um futebol bem jogado se ao fim do espetáculo, a derrota prevalecesse?
    E, o que seria de um futebol mau jogado, de dar sono até no pequeno anão “soneca”…mas prevalecesse a vitória?
    Simples assim, não é?…creio que não.
    Veja você que o motivo maior da paixão em ver seu clube vencer está bem além de qualquer espetáculo produzido em campo….fato!
    O mero torcedor apenas torce por vitória, não importando como isso há de ser….outro ponto pacífico!
    Vivemos um mundo diferente, como em “dois mundos” ou até mais….estamos à deriva do final ou apenas o mercado que é exigente?
    Vamos ver o que nos reserva o futuro não distante, quem está certo ou errado……se é possível fazer tal medição.
    Grande abraço.

    1. Comentário data vênia simplista demais meu caro Gilberto. No futebol assim como em qualquer esporte não há perdedores. Só ganhadores. Tudo se resume a uma questão de tempo. Perco hoje ganho amanhã. Se todos fossem vencedores não haveria a competição e em consequência não haveria o esporte. Simples.
      O que o Helena diz é a pura verdade. Só gostaria de acrescentar que aqui no Brasil o que conspira contra a nossa tradição qual seja de um futebol plástico, de espetáculo é em parte aquilo que ele falou. A formação dos jogadores brasileiros que antes era na sua imensa maioria nas ruas, nos campinhos de terrenos baldios e na várzea passou a ser feita nos famigerados campos de grama sintética de futebol soçaite e o que é pior trocou os treinadores que incentivavam o jogador hábil a evoluir, usar a sua criatividade como uma arma, pelos “professores” com suas pranchetas cheias de números e traçados que priorizam a força física, a pegada e a tal da intensidade como fatores preponderantes para o sucesso do jogador. O menino de hoje está proibido de criar um jogada de efeito de arriscar um dribling, de sonhar com uma bola improvável. tudo é previsível e objetivo demais.

      1. Caro João,
        Eu entendi perfeitamente o comentário do Alberto e o seu.
        Mas, como tudo no mundo, muda-se idéias e conceitos com a vinda da tecnologia e, com isso, a tendência de campos de terra, terrenos baldios, espaços enfim…torna-se praticamente impossível de ser.
        Ao contrário de tudo isso, existem prédios, academias, negócios…etc!
        Então, diga-se, como é possível desenvolver e/ou criar como no passado?
        O fato é que a realidade, infelizmente, constata no futebol empresa (caso do esporte citado) e a grana “rola” solta na lei de “quem paga mais” por um punhado de futebol apresentado nos dias atuais.
        Grande abraço.

  2. Sou treinador a 40 anos a maior parte nos USA, trabalhei na consultoria de produtividade e treinamento de habilidades. Como domino a técnica de treinamento de habilidades resolvi aplicar meus conhecimentos no futebol começando por mim mesmo, se vc não sabe fazer como espera ensinar alguém, este é o ponto no qual os PROFESSORES inventaram que futebol não se ensina. Bem futebol ou qualquer outro esporte se não for uma habilidade eu não sei o significado desta palavra. Nos USA treinei bater falta nas proximidade da grande área no qual a maioria dos jogadores são 20% no máximo, eu conseguia 70% por ter descoberto o caminho mental a ser percorrido e o % de acertos em seus diversos ângulos no qual podemos atuar. Ensinei um jogador meu mexicano a folha seca do Didi, ganhamos três jogos com a folha seca do garoto. Na final do campeonato ele simplesmente acerto a trave 4 vezes todas elas com a folha seca um verdadeiro mestre. Defender tiros penais ou bater os mesmo com 100% de aproveitamento e 60% de bolas defendidas.
    Eu sei treinar qualquer fundamento do futebol inclusive o drible, chute a 150 KM hora montar um sistema defensivo, coisa que o Rogério Ceni nunca ouviu falar o que ele tem é defesa e não um sistema defensivo se querem saber a diferença assistam A rocha um filme do HBO com Robert Redford e John Godolfino (Sopramo) e vc entenderá a diferença. Pergunte a um GAL qual a diferença entre os dois. Tenho 69 anos e moro em Tubarão SC faço demostração a quem estiver interessado. Já corri o Brasil de norte a sul e ninguém até o momento, nem sequer quis ver uma demostração grátis. Sabem por que? Pela ideia de Jerico que futebol não se ensina o cara nasce sabendo eita jumentice aguda.

    1. Dorival, é claro que o treinamento aprimora o futebol principalmente no que se refere às jogadas ensaiadas e aquelas em que o jogador tem tempo para raciocinar, quando a bola está parada. Conheci um palhaço num circo mambembe no interior que fazia maravilhas com a bola. Um dia um desses diretores de time o convidou para fazer um teste no time.dele, sabe o que aconteceu? O circo perdeu o palhaço e o coitado nunca se firmou como jogador. Não há treinador que ensine fazer o que Pelé fez contra o Uruguai naquele corta-luz maravilhoso sobre Mazurkievski. Nenhum treinador ensina a fazer o gol que Dudu fez no SPFC domingo passado. Isso se aprende nos campos, nas brincadeiras à beira mar, nas peladas, onde você foi treinado a fazer as coisas livres, sem pressão sem receio de ser criticado por errar, sem professores com jogadas pré-determinadas. criatividade é irmã da inovação, os gênios fazem coisas fora do contexto, imprevisíveis e não treinadas. Ninguém ensinou Garrincha driblar seus adversários, aquilo era pura invenção. O seu modelo pode ter sem dúvidas boas coisas a serem copiadas mais está anos luz de distância em transformar um pena de pau num craque de verdade. O Brasil foi penta campeão mundial e encantou o mundo sem nunca ter ido a uma escolinha de futebol

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