Marcação e esquemas, uma zona!

A turma da latinha transformou esse negócio de esquema e tática em uma verdadeira zona.

Escala-se um time sob fórmulas que mais se assemelham a números de telefone ou CPF, quando de fato, no campo de jogo, a história é bem outra. Tudo em nome da tal modernidade, termo tão envelhecido no tempo que décadas atrás já havia sido substituído pelo pós-moderno, pra não lembrar que muito antes adotou-se o futurismo, mais longo e abrangente.

Como decupar, por exemplo, o esquema utlilizado pelo atual Bayern ou o Barça de Guardiola, que ainda sobrevive na memória do time catalão?

Se os dois zagueiros de área atuam no meio de campo, feito volantes; os laterais viram pontas e os meias atuam próximo dos três atacantes (dois pontas fixos – Robben e Ribéry ou Douglas Costa – e um centroavante – Lewandowiski), como distribuir no papel ou no vídeo esse time sob o estigma dos 4-2-3-1, como habitualmente o fazem nossos bravos comentaristas?

Por exemplo, na última partida do Bayern, no rigor da análise, o time jogou num autêntico 4-2-4, se levarmos em conta as características dos jogadores que estavam em campo: Xabi Alonso e Kimich faziam o meio campo enquanto a linha de frente era formada por quatro atacantes: Robben, Muller, Lewandowiski e Ribéry.

Mas, na ânsia de precisar as funções de cada um, eles misturam tudo – o cara que é meia vira volante, que por sua vez vira meia, assim como o ponta, chamado de jogador de lado, coisas assim. Claro, porque o mais difícil é perceber a sutil diferença de características e estilo de cada um; e mais fácil é enfiar todo mundo no mesmo saco.

Por falar em zona, ainda no domingo, no Mesa Redonda do Flavinho, um telespectador, induzido, claro, por tais comentários, perguntou ao técnico Eduardo Baptista como ele iria mudar o sistema de marcação individual, adotado por Cuca, para a zona, da qual o atual treinador seria adepto.

A resposta de Eduardo Baptista foi a de que preferia combinar as duas, com seus jogadores marcando homem-a-homem o cara que caísse na sua zona respectiva.

Tenho por Eduardo admiração e respeito pra não retrucar no ar que a marcação híbrida só é possível em casos especiais. Ou seja: quero que meu volante marque homem-a-homem aquele meia específico do adversário. Mas, o resto, marca por zona.

Marcar o homem que cai na sua zona não é marcação individual nem aqui nem na China. É simplesmente a marcação por zona.

Além do mais, quem disse que o Palmeiras de Cuca marcava homem-a-homem?

Não é verdade, a não ser em casos específicos, como o citado acima. De resto, seus times sempre marcaram por zona.

É que se criam essas coisas na mídia, e o torcedor vai na onda.

A propósito, a marcação homem-a-homem, no futebol brasileiro, foi abolida desde o final dos anos 40 do século passado, quando Zezé Moreira inventou a marcação por zona no Botafogo, depois no Flu e por fim na Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 54 na Suíça.

O sistema, o único criado por um brasileiro, diga-se, tomou conta do resto do mundo e só resistiu na Itália até aquele célebre gol de Carlos Alberto Torres, o quarto do Brasil, na decisão da Copa de 70. Isso, porque esse lance foi exemplar, um golpe de morte na marcação individual, pois o lateral-esquerdo Fachetti, mito italiano, acompanhou o ponta-direita Jairiznho até a lateral-direita, de onde nasceu o passe para Pelé rolar a Carlos Alberto, entrando no espaço vazio deixado por Fachetti na lateral-esquerda.

A Itália ainda tentou compensar essa falha criando a figura do líbero (livre, em português, da marcação indivual), um zagueiro que atuava atrás da linha dos quatro beques para fazer a cobertura dos espaços criados pela movimentação dos atacantes adversários, marcados ainda homem-a-homem. E, mais adiante criou outro líbero (Trappatoni), à frente dos quatro zagueiros, para barrar as tabelinhas infernais entre Pelé e Coutinho à entrada da área. Esse, esquecia a bola e ia na direção do atacante que receberia o segundo passe.

Passou a ser a quintessência do Catenaccio (cadeadão, o Ferrolho criado pelos suíços no inicio da década de 50) elevado ao extremo.

Enfim, o brasileiro, sobretudo nossa mídia, gosta de uma zona e a bagunça segue seu destino.

 

5 comentários

  1. Essa coisa de esquema, isso e aquilo, nada disso adianta sem jogadores de qualidade. A verdade é que o futebol moderno exige em primeiro lugar,se defender, fechar a casinha mesmo, depois se preocupar com a parte ofensiva. Isso não é ser retranqueiro ! Aquele romantismo dos anos 60 e 7o acabou, como tudo acaba na vida.E eu defendo um time ter cães de caça, volantes que marcam mesmo ! O meu São Paulão de 2005, tinha dois pequeninos cães de caça, Mineiro e Josué, que marcavam bem demais e davam sustentação ás vitórias do time ! Por isso, cada um na sua ! Apesar que eu gostava mais também do futebol com um volante , dois meais e pontas abertos ! Só que infelizmente isso acabou !

  2. Não foi só o Zezé Moreira que criou um sistema de marcação no Brasil não, o povo lá de São Bernardo quando rola uma pelada, um joguinho qualquer (menos casado e solteiro, acabou o referido clássico). Joga no famoso ¨6 – 3. Seis três ai atrás tentando marcar e nós seis aqui na frente tentando marcar. A sobra é sempre um mais cansado que procura a sombra.
    De vez em quando a gente arrecua os arfes.

  3. Alberto Helena os comentaristas de hoje com raríssimas exceções entendem de futebol. PVC despontou como uma grande promessa, porém, foi engolfado pela estatística e hoje é um laptop ambulante com memória de 5 GB. Essa sua aula de quem já frequentou verdadeiras universidades da bola(times que fizeram história) só é possível entende-la partindo da premissa que os sistemas de jogo que você descreve só se sustentam com jogadores fora de série. Como você poderá jogar num 4-2-4 com Fernandinho e o ídolo de Ivan Moysés fazendo parte do meio de campo?
    Ivan Moysés tem a mesma filosofia do Hélio Rubens do Basket. “A defesa é a chave para a vitória” Primeiro você se defende bem depois você ataca. Até ai tudo bem. Só que Hélio se esquecia que no time dele não tinha nenhum Michael Jordan, larry Bird, Stephan Curry, Oscar. Pô os caras deixavam passar o tempo todo com a bola e no segundo final Casemiro errava o chute. Resultado é que o time perdia invariavelmente. Ari Vidal fazia o contrário pedia como fazem os americanos para atacar e arremessar sempre. Resultado foi que ganhamos o pan de 87 dos USA em Indianápolis e invariavelmente com Ari o Brasil ficava entre os 5 melhores do mundo. Portanto, essa teoria Moyseslítica de ficar na defesa esperando a morte chegar com todo desrespeito, é papo pra boi dormir.

  4. Sabe Helena, pela primeira vez vejo alguem com a coragem de desmentir esses enganadores do futebol. Vejo como João Sardinha nossa imprensa sem conhecimento de futebol ,é uma vergonha certas verdades que eles pregam.

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