
Neste sábado pude me deliciar com três dos meus encantos europeus: o Barça, o Bayern e o Arsenal.
Bem cedo, o Barça, sem Neymar, bateu o Osasuna por 3 a 0, com um de Suárez e dois de Messi. E que dois! No primeiro, um radioso reflexo no desvio com a face externa do pé direito para as redes; no segundo, uma sucessão de dribles, daqueles em que a bola não descola de seu pé esquerdo nem a pau.
Em seguida, veio o Bayern, que meteu 5 a 0 no Wolfsburg, com um show particular de Robben, autor do gol de abertura bem ao seu estilo, descaindo da direita para o meio e batendo de canhoto no ângulo oposto do goleiro. Que jogador, esse! Há muito tempo merecia uma Bola de Ouro entre Cristiano e Messi.
A propósito do Bayern… Êi, psiu!… Você aí, meu jovem especialista que adora decupar os esquemas táticos das equipes em números que se assemelham a CPFs ou de telefones, como se futebol real fosse pebolim ou jogo virtual de botões. Preste atenção nesse Bayern.
Se quiser estabelecer um esquema básico, terá de reduzir essa profusão de números em apenas três: o velho e superado 4-2-4. Sim, porque Ancelotti armou seu time com quatro zagueiros (Lahm, Javi Martinez, Alaba, descolado para o meio da zaga, e Bernat), dois homens de meio-campo (Vidal, depois substituído por Xabi Alonso, e Thiago Alcântara); no frente, quatro atacantes típicos, por estilo, vocação e função – Robben, Muller, Lewandowski e Ribéry, depois Douglas Costa. Dois pontas abertos, um meia-ofensivo e um centroavante de ofício.
Claro que, como os bávaros de Ancelotti, a exemplo do de Guardiola e do Barça. se debruçam sobre o adversário, reduzindo o campo de jogo a partir da intermediária alheia, todas essas divisões passam a ser irrelevantes. Isso é futebol moderno. Ou eterno, se preferirem.
Bem, em seguida, veio o Arsenal, que meteu 3 a 1 no Stoke City, com direito a um caminhão de gols perdidos, posto que também é adepto do jogo jogado – sucessão de passes, dribles e chegadas à área inimiga constantes. Foi assim que, mesmo saindo com 1 a 0 no placar, gol de pênalti, virou, em grande atuação de Ozil, seguido de Theo Walcott, o Lucas dos melhores momentos do brasileiro, que quase fez um gol antológico, comendo meio time adversário antes de disparar para defesa do goleiro.
E o City de Guardiola, hein? Meu Deus! Que desastre! Em cinco minutos de bola rolando, o Leicester, que vai mal no campeonato mas muito bem, obrigado, na Liga dos Campeões, já vencia por 2 a 0, Aos 20, o placar estava em 3 a 0, e atingiu os 4 a 0 no início do segundo tempo. O City só conseguiu reduzir para dois gols de desvantagem no fim, quando a vaquinha do Guardiola já se embrenhava no pântano.
É verdade que o City, antes da goleada estabelecida, teve surtos de lucidez, o que lhe teria permitido reequilibrar o placar, mas por isto ou aquilo, não conseguiu. O fato é que Guardiola, depois de um aceno inicial, não está conseguindo aplicar seus conceitos ao City, e deve muito isso à teimosia em deixar no banco Yayá Touré, o mais completo jogador de futebol do planeta, por mera picuinha pessoal.
Já Zidane, de olho no Mundial de Clubes, resolveu poupar vários de seus titulares no Real que pegava o La Coruña em casa. E por isso pagou um preço alto, quitado com aquele cabeceio de Sérgio Ramos (sempre ele!) já nos descontos, pois saiu na frente, mas levou a virada para 2 a 1 e teve de sangrar para revirar o placar.
Por falar em Zidane, me lembro daquela declaração retrógrada de Renato Gaúcho a respeito da dispensa de aprendizado teórico para quem conhece futebol na prática.
Na prática, Zidane foi um dos mais lúcidos, técnicos e hábeis meias de quantos vi em mais de seis décadas. Campeão do mundo e muito mais. Pois, bem. Treinando o Real B, ao precisando tirar a licença de treinador, tinha diante de si duas escolhas: um curso de três meses na Espanha ou outro, de dois anos na França. Zidane preferiu o de dois anos.
Diplomou-se, cumpriu os estágios devidos como auxiliar dos treinadores efetivos do Real, até assumir o time principal de vez este ano. Resultado: neste sábado, acaba de obter um recorde histórico no centenário clube merengue – nenhum outro treinador do Real antes dele havia conseguido a façanha de alcançar 35 jogos consecutivos invictos. Ele conseguiu.
A humildade diante do conhecimento é a mais nobre sabedoria, meu.
O Renato tem uma grande estrela e uma língua afiada, mas dizer que futebol não se estuda, falou uma grande bobagem. Hoje os europeus estão na nossa frente, justamente buscarem conhecimento, e assimilar e tirar o melhor aprendizado do futebol sulamericano, como o toque de bola refinado.