
Outro dia me ligou o Carlinhos Vergueiro. Queria saber de uma eventual entrevista que eu teria feito (não fiz) com o Chico Buarque no Pacaembu, séculos atrás.
Conversa vai, conversa vem, lembramos do Fernando Faro, que, na sua última ligação pra mim, queria detalhes sobre uma noite muito louca por nós vivida lá pelos meados dos anos 60.
Foi uma espécie da minha despedida de solteiro, improvisada, que começou no apartamento do crítico musical e publicitário Franco Paulino.
A turma foi chegando ali sem avisar, e se acomodando naturalmente: as mulheres na sala, os homens na cozinha.
Depois de alguns litros entornados, alguém começou a controlar uma laranja travestida de bola de futebol. A coisa pegou fogo, até que decidimos partir para uma pelada de rua de fato.
No lugar da laranja, uma bola de verdade, colhida do barracão de música e brinquedos da escolinha da minha mãe instalada ali na avenida Brasil, esquina com a David Campista, pertinho do Ibirapuera, onde hoje é o Laboratório Fleury.
Já alta madrugada, lá estávamos, um bando de arruaceiros correndo atrás de uma bola tendo os postes e o muro da escola como metas indevassáveis. Se bem me lembro, o Faro, o Carlinhos Vergueiro, o Chico Buarque, o Renato Teixeira, o Franco Paulino, o Toquinho, o Arley Pereira, e aqui a memória começa a a virar névoa.
Lá pelas tantas, o Chico, incorporando seu ídolo Pagão, chuta a gol, bola que vai alta, além do alcance do goleiro. Gooolll! Gol, o catso! Passou por cima! Não passou!
Como decidir a questão? Ora, pra isso lá estava o juiz, o poeta Torquato Neto, inventor do Tropicalismo, encostado no muro com uma garrafa de Drury’s já quase finda à guisa de apito.
-Foi por cima, sentencia o magistrado que àquela altura deveria ter visto três bolas passando por dois postes e oito muros.
No auge da discussão, estaciona um carrinho da Rádio-Patrulha, de onde descem dois guardinhas atraídos pela zoeira na madrugada silenciosa dos Jardins.
-O que é isso?, surpreende-se o guarda.
Chico, o mais exaltado de todos, então, dirige-se a ele, os olhos saltando das órbitas:
-Isso, seu guarda é um roubo! Ainda bem que o senhor está aqui pra levar preso aquele juiz ladrão lá!, apontando o Torquato.
Reconhecendo o artista genial, o guarda riu, confiscou a bola e se foi.
Esse foi o fim da farra. E o começo de nossas vidas.
Senhor Alberto Helena Jr.
Se antes já me causavas a habitual empatia com teu texto lúcido, sempre bem tecido – como se nele as costuras que deram lugar a fusão sei lá o que destes agora oito gomos das bolas adidas da vida, os rizomas do gramado, o aço tramado que sustenta os refletores do pacaembu e o poropopó da torcida formasse uma rede visível – esta crônica sobre outros tempos trouxe-me ainda mais sorrisos. Ou meio-sorrisos.
Um outro jeito de dizer de uma época, uma experiência urbana, uma vivência fraterna (que não tive tempo de viver desta forma, mas ainda pude experimentar do futebol noturno nas ruas da vila aricanduva), onde não só ainda se podia bater uma bolinha de madrugada como ainda cabia cometer uma ou outra extravagância juvenil (imagine um futebol destes hoje, não nos jardins, mas nas quebradas de Itaquaquecetuba e a simpatia que a polícia poderia ter tido com os praticantes, fossem eles quem são ou seriam,,,)
Na era da assepsia forjada, do café descafeinado, das torcidas mais elitizadas do que etilizadas, do proto (ou já nada proto) fascismo, dos muitos que morrem na contramão atrapalhando o sábado, sua história comove mais pelo entorno e desfecho da partida do que pela escalação dos times.
Crônica das tantas juventudes que mal podem passar por suas Copas São Paulo e definham sem tempo para extravagâncias pueris.
Superou, meu! Gracias a la vida.
Caro Helena,
Sou mais um entre tantos seguidores da seu competente e lúcido texto, seja especificamente sobre futebol ou temas correlatos.
Paranbés,
Helena voce é pai do Flavio Prado e irmão do Chico??? comentário infeliz!!! já disse isso quando?? é proibido falar a verdade ??