Tá difícil, meu…

Foto: Mowa Press
Foto: Mowa Press

Não é apenas trocando o técnico da Seleção que resolveremos o problema do atraso do nosso futebol, embora isso seja necessário e emergencial, desde que Dunga não possui as credenciais básicas pra dirigir a Seleção Brasileira. Não as possuía em 2010, quando fomos à Copa da África do Sul, e não as acumulou de lá pra cá, ainda que tenha tentado agora dar um novo sentido tático à equipe, de forma canhestra.

O técnico da Seleção, seja ele qual for, no modelo atual, sempre estará fadado a apoiar os fracassos numa base verossímil: não temos um time de clube nacional que possa servir de sustento à Seleção, tampouco o treinador dispõe de tempo suficiente para treinar e armar uma equipe formada com egressos da diáspora europeia. Além do mais, a atual safra de jogadores não é aquela maravilha toda, composta de jogadores de alto nível técnico e de personalidade forte o bastante para superar em campo a falta de sintonia.

Por isso mesmo, impõe-se a presença de um treinador, pelo menos, confiável à maioria do torcedor e da mídia esportiva.  Um cara com títulos que o respaldam como profissional e dono de carisma que o permita conversar com os jogadores e com o público de forma mais adequada. Afinal, vivemos numa sociedade em que a imagem predomina sobre outros atributos.

Por tudo que se ouve e lê, Tite é o cara, neste momento. Qualquer outra solução será um balde de água fria na opinião pública. Atual campeão brasileiro, campeão da Libertadores e do mundo outro dia, articulado, sereno, experiente, bom no trato com os jogadores e com a mídia, íntegro, sobre o qual jamais recaiu qualquer suspeita de favorecimento a este ou aquele jogador por interesses escusos e tudo o mais.

Foto: Acervo/Gazeta Press
Rubens Minelli (Foto: Acervo/Gazeta Press)

Algo parecido com o que aconteceu em 1979, quando Minelli era o nome certo, com seus três títulos brasileiros seguidos, pelo Inter e pelo São Paulo, mas que acabou sendo preterido por Cláudio Coutinho, que sequer havia sido técnico de um time brasileiro na época, embora fosse um sujeito extremamente honesto, inteligente e bem preparado e com quem tive o prazer de conviver mais proximamente.

Mas, a questão não é só essa.

Na verdade, o Brasil carece de uma profunda e radical mudança estrutural.

A começar pelo sistema federativo, criado e justificado durante décadas, no passado, pelo tamanho deste país gigante, quando ainda nem havia campeonatos nacionais, e tantas competições internacionais de clubes e de seleções.

O futebol brasileiro se resumia aos torneios estaduais, em que os grandes do eixo Rio-São Paulo se abasteciam dos craques vindos dos clubes do interior, de Minas, Rio Grande e Nordeste em geral. Esses grandes de Rio e São Paulo serviam de base para a Seleção Brasileira, facilitando o trabalho do seu técnico, que, ainda por cima, dispunha de um a dois meses de preparação, seja para os Sul-Americanos (a Copa América da época), seja para a Copa do Mundo, ou excursões ao Exterior.

Hoje, isso é um anacronismo, um freio ao desenvolvimento de nosso futebol.

Com o advento do Campeonato Nacional, transformado em Brasileirão nos anos 80, e o aumento constante de clubes participantes desse torneio, que chegou a quase cem nos tempos da gestão de Heleno Nunes, à frente da CBD (CBF), os campeonatos estaduais, nos grandes centros, passou a ser um estorvo, pois toma muito espaço no calendário nacional, reduzindo tanto a capacidade de os clubes grandes manterem-se num nível alto quanto a Seleção de dispor de tempo mínimo de preparação com vistas aos torneios de que participa.

Por causa dos campeonatos estaduais, na forma em que são disputadas nos grandes centros, não há a devida pré-temporada, tampouco espaço para o intercâmbio com outras escolas, por meio dos antigos torneios de verão ou excursões dos nossos times.

Além do mais, por força dessas circunstâncias, os chamados clubes do interior deixaram de ser os provedores de futuros craques, assim como Minas e o Rio Grande puderam conservar seus valores e construir grandes esquadrões, como o Cruzeiro de Tostão e o Inter de Falcão, como exemplos. E, todos eles, incluindo os paulistas e cariocas, passaram a investir em seus centros de treinamentos de base para formar novos jogadores. Se o fazem bem ou mal é outra história.

O fato é que não adianta olhar pra trás, a não ser pra colher os ensinamentos que o passado nos oferece.

E o que está adiante do Brasil é uma reformulação estrutural, em que caibam todas as nossas demandas.

Qual, basicamente?

Acabar com as tais federações estaduais, um cabide de emprego político que nada contribui para os clubes, muito menos para o torcedor, transformando-as em meros escritórios burocráticos da CBF, que, por sua vez, cederia à uma eventual Liga de Clubes a elaboração do calendário nacional e sua regras.

Os estaduais, pra que haja espaço no calendário de olho na boa preparação das equipes, período de treinamento da Seleção etc., devem ser reduzidos a um mês, se tanto, em forma de copa ou coisa que o valha, a critério de cada unidade do Estado brasileiro. E que o Brasileirão tenha, sei lá, dez divisões ou mais, o suficiente para abrigar todos os clubes pequenos, aqueles tais celeiros do futebol brasileiro, pra que eles possam viver sua realidade o ano todo e não apenas nos dois, três meses, das disputas dos estaduais, como ocorre hoje.

Ao mesmo tempo, trocar esses tribunais desportivos de fancaria, uma organização gigante e imprestável, por comissões disciplinares de cinco membros, no máximo, que decidiriam sobre um simples, reto e entendível código de penas: o cara fez isso, paga assim; fez aquilo, paga assado, e ponto final. Não são tantas as situações de jogo e da burocracia do futebol que dependam de profundos estudos de juristas renomados (que não é o caso), convenhamos. Tampouco para justificar um Código Disciplinar expresso naquele juridicês bem tupiniquim que permite uma infinidade de saídas e mutretas.

Ah, mas a quem caberá promover tão radicais mudanças no nosso futebol?, haverá de perguntar o amigo.

Pois, é. Aqui é que a porca torce o rabo, como diria vovó.

Você senta na varanda de casa e espia o panorama desse Brasil gentil, e cai num profundo desânimo ao observar a brava gente brasileira em ação. De cima a baixo. Tá difícil, meu, tá difícil…

 

 

 

 

 

 

 

 

12 comentários

  1. Você conhece se um técnico entende de futebol na sua primeira convocação. Tite se for o escolhido(eu prefiro o Cuca) que não me venha com Elias, Willian, Casemiro, Jonas e outros enganadores manjados. Tite precisa entender acima de tudo que a Seleção não é o Corinthians e esquecer os fracassados de 2014.

    1. Não entendi o Casemiro, pelo o que li mundo a fora, foi ele a peça que faltava para fez o Real Madrid ter a excelência que tem hoje.

      1. Caro Nilton eu entendi. Hipoteticamente coloque Casemiro por exemplo no meio de campo da Portuguesa e pense no que vai acontecer ao time. Passará a vencer os jogos? Aumentará o número de gols? Será um time rápido e ofensivo? Se você responder que sim , terei injustiçado o jogador ao relegá-lo a um jogador comum, como foram o fabuloso Paulinho, Sandro, que jogaram em times europeus e hoje estão sumidos.

  2. Obrigado caro Alberto Helena Jr.,

    Sempre com palavras sabias e bem colacadas!! Acredito que essa reformulacao que sugere possa ser elevada para muitas outras areas nesses imenso pais. Seria muito bom que nossas estruturas politicas e governamentais fossem simplificadas e realistas, com o simples proposito de melhorar as condicoes para todos e nao somente para alguns!!

    Grande abraco

  3. A Argentina tem um campeonato nacional inferior ao campeonato brasileiro, mas consegue manter sua seleção sempre jogando em alto nível.
    É questão de organização e melhoria do nosso calendário. A mudança de técnico é necessária, porém não irá resolver todos os problemas.
    O que está faltando é comprometimento e raça dos jogadores com a camisa canarinha como existia antigamente.
    A seleção brasileira, deveria ser a prioridade desses jogadores e não os clubes europeus.

  4. Vejo que você considerou o que escrevi na postagem de ontem e tachou como anacrônico o abastecimento dos grandes clubes e das Seleções junto aos clubes do interior.

    É óbvio que, da mesma forma, tachou-me nas entrelinhas de superado (não estou zangado por isso pois faz parte do debate) e de portador de ideias anacrônicas.

    Da mesma forma e na mesma medida eu o chamo de visionário, sonhador e quimérico ainda que as suas ideias expostas na postagem sejam brilhantes e tenham cabimento e atualidade,

    Ocorre que para que esse mundo moderno reivindicado por você, isto é, a tal mudança estrutural venha a se instalar, com a extinção das federações, mudanças de tribunais e etc vai demandar tempo.

    Infelizmente você e a maior parte da mídia se esquecem de que, até que os sonhos colimados se realizem e se materializem, há uma dura realidade a ser vivida.

    Essa realidade, -acorde- do ponto de vista estrutural não é aquela que pode dar vazão aos seus projetos e materializar as suas ideias futuristas lógicas, brilhante e que têm o meu apoio.

    O momento não é propício para que se fale de futuro mas é tempestivo para que se tome atitudes visando a salvar o futebol brasileiro.

    Quando se diz em futebol que só Tite salva, como se fosse ele uma espécie de Jesus Cristo, é um sinal evidente de que chegamos ao fundo do poço conduzidos pela modernidade e pelos “cronistas de vanguarda” que querem estabelecer paradigmas funcionais yankees às estruturas tupiniquins.

    É por isso que teremos de disputar a eliminatória com atletas exportados que só estão na Seleção por diletantismo, promoção ou interesses pessoais, noves fora um ou outro mais profissional.

    Nunca se importou (por absoluta necessidade) tantos jogadores como agora (desnecessária evasão de divisas) de tantos países muitos dos quais tidos como futebolisticamente subdesenvolvidos.

    Em relação ao que você informa de promoção de jogadores a partir da base, lamento informar-lhe que os times mineiros, hoje, são os maiores importadores de pé de obra (royalties para JK) e até de boca de obra pois exceção feita ao Galo, Cruzeiro e América abrigam comissões técnicas portuguesas.

    Cruzeiro e Atlético, da mesma forma, se endividaram de uma tal forma que um diretor atleticano me disse há alguns dias que ele não tem medo de que o clube se endivide cada vez mais (a contratação de Fred é uma prova) porque na hora H o governo (já aconteceu) subvencionará novamente os clubes.

    Perdoa-me pela insistência no tema. Se achar melhor não publicar, respeito e não guardarei mágoas! Afinal, sou do ramo!

    1. Infelizmente as mudanças mais estruturantes são de médio longo prazos. Precisamos resolver esse nó do técnico pra já pois já estamos nas eliminatórias. Para se montar um bom time há que ter um técnico. O técnico da seleção brasileira tem que ter no seu DNA a essência do futebol brasileiro. Então deve-se procurar quem tem essa essência aliada à experiencia. Tite é carbon copy de Mano, Dunga, Felipão, Celso Roth todos da escola gaúcha cujo estilo de jogo e perfil de jogadores sabemos quais valorizam e os resultados derivados desse estilo e desse perfil de jogadores. Portanto, se queremos algo novo, com um futebol mais moldado nas tradições há que se chamar por exemplo Cuca, Dorival Jr. esse rapaz novo Fernando Diniz embora ainda sem experiencia como técnico.

    2. Meu caro Drummond:
      Já fui vítima da censura o suficiente para não praticá-la nesta área, a não ser quando o leitor exagera em palavrões e ofensas, sobretudo a outras pessoas.
      Quanto às suas proposições, devo repetir o que venho dizendo há mais de quarenta anos: os clubes pequenos do interior deixaram de ser celeiro pelo simples fato de que resumem suas atividades a dois, três meses por ano. A saída é fazê-los jogar o ano inteiro, estimulando as rivalidades regionais, cidade contra cidade, num campeonato nacional dividido em quantas séries sejam necessárias pra isso. Além disso, boa parte deles está nas mãos dos empresários, que só desejam usar os campeonatos estaduais como vitrine.
      Por isso mesmo, vários clubes do interior paulista desapareceram, reapareceram e sumiram em seguida. Tampouco resolve você dar um espaço por três meses nos estaduais a dez, doze pequenos, deixando oitocentos aos relento.
      E, mais: os campeonatos estaduais são altamente deficitários para todos, sobretudo os grandes, pois a presença de público nos estádios e na audiência de tv é baixíssima.
      O tempo passa e o relógio marca…, como cantava Edson Leite nos microfones da Band.
      Ninguém curte mais as tradições brasileiras do que este seu amigo. Mas, tradição quer dizer passagem, uma informação que avança de gerações a gerações. Adoraria andar pela minha São Paulo, de madrugada, como o fazia nos anos 50/60, certo de que não seria emboscado por um garoto de 12 anos de idade, munido de um trezoitão e disposto a me dar um tiro. com ou sem motivo. Ficaria extasiado em ver em campo o Ypiranga de Liminha, Rubens, Silas, Bibe e Valter. O passado já passou, meu, como no samba interpretado pelos Anjos do Inferno.
      Agora, é hora de pensar no futuro, já que o presente é um mix do nada com uma falsa modernidade.

      1. Prezado Alberto

        Apenas hoje, segunda-feira, 21, estou lendo a sua resposta, porquanto estou em viagem e devidamente integrado à minha bucólica Pederneiras onde posso andar a pé de ,madrugada e, até, caso deseje, dar uma volta pelas barrancas do Rio Tietê.

        Em relação à censura do que escrevi, apenas o deixei à vontade,

        De fato, até em outros endereços -reconheço- você jamais me censurou, ainda que eu, na maioria das vezes, divergisse de suas ideias.

        Agora, objetivamente

        Não defendi e nem defendo os estaduais estanques, isolados jogados por todo um semestre e à base dos pontos corridos, à moda antiga.

        Defendo-os estilizados tipo Copa do Mundo com apenas mais quinze dias em relação às datas do calendário atual, de janeiro ao final de maio, e jogos apenas aos sábados e domingos, cumprindo-se nos meios de semana a Copa do Brasil e a Libertadores.

        Os regionais (no caso o Paulista) serviriam como trampolins à outras divisões e competições que proporcionassem, a um só tempo, sobrevida dos clubes do interior (só possível se adstrita aos confrontos deles com os grandes) tanto e quanto servindo de um “start” de menor exigência -principalmente aos grandes- para cada temporada.

        Estaduais por pontos corridos, de fato, poderiam até ser suicídio em face do interesse menor do público, acostumado aos grandes eventos como o Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores e outros.

        Porém, com as equipes distribuídas em grupos, para um torneio tipo Copa do Mundo, mas um pouco mais encorpado e jogado nos fins de semana (paralelamente à Copa do Brasil e à Libertadores) cada ano em uma região do estado “arrebentaria” em termos de motivação, de frequência aos estádios e como espetáculo para a TV.

        Os quatro grandes teriam cadeira cativa na Copa, tanto e quanto qualquer clube que estivesse jogando a série A do Brasileiro.

        Os demais seriam os que compõem a Série A do Paulistão, mais o(s) clube(s) da(s) Cidade(s) Sede(s).

        A ordem classificatória valeria a habilitação para os Brasileiros, séries D, C e B do mesmo ano e da Copa do Brasil do ano seguinte.

        Pronto.

        Os clubes interioranos como que por encanto, ressurgiriam e ressuscitariam diante da perspectiva de jogar contra os grandes de seus estados e do televisamento direto de seus eventos.

        A partir daí o futebol brasileiro voltaria a ter jogadores em quantidade para poder depurar a qualidade, como de há muito não vem ocorrendo, sendo esse o seu problema basilar e a razão determinante de tantos e seguidos fracassos, Tudo o mais, simplesmente, é consequência. O futebol brasileiro “europeizado”, perdeu, completamente, a sua personalidade e a sua identidade.

        De minha parte dou como fechada a discussão, deixando para os leitores as conclusões finais!

        Valeu! (AD)

  5. Tem um calendário em mente:
    Libertadores e Sul Americanas correndo juntas como na Europa com final em 05/11;
    Serie A com 16 times, com jogos de 15 Fevereiro 20 de Novembro ponto corrido jogos somente final de semana;
    Serie B com 16 times com jogos de 15 Fevereiro 20 de Novembro ponto corrido;
    Serie C com 40 times com jogos de 15 Fevereiro 20 de Novembro 4 grupos de 10;
    Serie D com 80 times com jogos de 15 Fevereiro 20 de Novembro ;8 grupos de 10;
    Copa do Brasil de 15/02 a 05/12;
    Estaduais de 15/02 a 05/12;
    Em jogos da Seleção Série A e Copa do Brasil para e cede espaço para os demais competições;
    Uma parada de 20 dias para que os times da Serie A possam participar dos torneios “de verão” mundo a fora.

  6. Helena, o que esta bem visivel a todos nos torcedores e que estas gerações de jogadores que estão surgindo são fracas tecnicamente é uma geração que so sabem fazer firula com a bola, me lembro que antigamente tinha uma pessoa que ficava fazendo shows com a bola no pé sem deixar ela cair não importando o tamanho da bola….mas ele mesmo falava que não sabia jogar ….então nossos jogadores são assim petecam mais não jogam…..não conseguem dar passes simples de 2 metros…….perdemos a escola do futebol que eram os campos de varzea. Hoje temos um monte de escolinhas de futebol aonde quem joga são os filinhos de papai que ficam trancados dentro de apartamento ai vão para as escolinhas para que, uma pessoa que nunca jogou futebol, as ensine…..Esta e a realidade de nosso futebol

  7. Helena, pergunto-lhe:
    qual prejudica a pré-temporada, o Paulistão com 19 rodadas ou o Brasileirão, com 38 rodadas?
    Solução: disputar os Estaduais no 1º semestre e o Nacional do 2º semestre, cada qual com seu tamanho.

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