Ali, o Maior de Todos!

Foto: AFP
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Lá pelos anos 70, quando Muhammad Ali ainda estava em atividade, a Editora 3 me encomendou um livro sobre o pugilista que faria parte de uma série de pockets-books com as grandes personalidades mundiais, tipo Gandhi, Churchill, Kennedy, Einstein etc.

Lembro isso para dar a dimensão de Muhammad Ali na história do século XX.

O título do livro era uma frase que ele gostava de repetir à exaustão: Eu sou o maior de todos!

Sim, porque Ali transcendeu os limites das cordas de um ringue de boxe, onde se pode restringir outros talvez ainda mais bem dotados como pugilistas, a exemplo de Joe Louis e Ray Sugar Robinson.

Seu parâmetro era Jack Johnson, o primeiro grande e lendário campeão negro dos pesados do início do século, que resistiu bravamente a todas as investidas do odiento racismo americano, muito mais expresso – até por lei -na sua época a ponto de criar no imaginário popular o fantasma da Esperança Branca, aquele branquelo saído das nuvens para finalmente  derrotar o negro imbatível.

Essa figura da Esperança Branca ainda hoje ronda as ringues norte-americanos plenos de campeões cucarachos ou negros.

Foto: AFP
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Desde menino nascido no Kentucky há exatos 74 anos, Ali via na figura de Johnson o exemplo a ser seguido, fosse no estilo econômico de lutar, fosse na postura diante de tantos preconceitos e soberba dos brancos americanos.

Tanto, que, depois de ser recebido em carro aberto na sua cidade por ter conquistado a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos, mais tarde, já campeão do mundo, atirou-a no lixo, juntamente com seu nome de batismo – Cassius Marcelus Clay Jr., marca herdada de seus antepassados escravos -, ao se negar a lutar a guerra infame no Vietnã e ao adotar o nome árabe de Muhammad Ali, assumindo o islamismo como religião, em torno da qual grande parte dos negros americanos se juntou para combater o racismo em sua pátria. Por causa disso, tiraram-lhe o cinturão de campeão e o meteram na prisão. Hoje, talvez, estivesse encerrado num calabouço de Guatánamo.

Como pugilista, Ali desenvolveu uma técnica única, feita de vertiginoso bailado sobre o ringue, jabs rápidos e precisos, uns sobre os outros, até disparar a direita letal.

Jab, jab, jab, o nome veio do som, e era na velocidade do som que Ali executava esse golpe básico do boxe bem jogado, que, muitas vezes, valiam por um direto.

Quando a guerra do Vietnã revelou-se uma catástrofe para os americanos, Ali foi solto e saiu à cata do direito de reaver seu título. Como Joe Frazier, o campeão, se negava a colocá-lo em jogo, Ali perseguiu-o por todos os cantos, disparando sobre ele o verbo que fluía tão facilmente de sua boca nervosa, até que Frazier se rendesse à frase final.

-Joe, somos os últimos dinossauros, cara! Só um de nós pode ainda caminhar sobre a Terra por mais algum tempo.

E, no fim das contas, foi Ali quem seguiu caminhando sobre a Terra e os ringues.

Mas, certa vez, já veterano e disputando pela terceira vez o título mundial, no então Zaire (atual República Democrática do Congo), contra o gigante George Foreman, Ali mudou radicalmente seus movimentos. A vespa que zunia em torno do adversário enquanto injetava suas picadas mortais, plantou-se nas cordas, e ali ficou resistindo ao assédio de Foreman, cansando o inimigo, até que, de repente, soltou dois contragolpes e uma direita definitiva no queijo do oponente, que foi caindo em câmera lenta, como se derruído por dentro.

Essa era a diferença entre Muhammad Ali e os grandes campeões que deixaram seus nomes na história. Ele pensava e era capaz de se transformar, de abelha a dinossauro, mas sempre mantendo a figura de um homem íntegro e consciente de sua humanidade.

 

2 comentários

  1. Rocky Marciano aposentou-se invicto,Venceu a simulação do computador contra Ali e é pouco lembrado.Uma injustiça,a mesma injustiça que o Brasil faz com o tetracampeão do mundo Popó,que foi maior do que Éder Jofre.Porém nada disso diminui o tamanho da carreira desta lenda chamada Muhammad Ali

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