Futebol, um espelho

Foto: AFP
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O amigo, por certo, me  conhece como o velho palpiteiro sobre as coisas do futebol. Mas, não por exibição ou vã vaidade, quero dizer que já frequentei outras áreas de jornalismo nesta longa caminhada, inclusive a política.

Basta dizer que, no programa de entrevistas Show da Noite, na TV Record, dirigido e apresentado por este infeliz na virada dos anos 70 para os 80, promovi o primeiro debate político deste país desde a deflagração do golpe militar em 64, com Mário Covas, Malulli Neto, Almino Afonso e outros.

Aliás, nesse mesmo programa, ao entrevistar os rapazes responsáveis pela comunicação do governo Montoro, sob minha sugestão, nasceu a ideia das Diretas Já, enfeitada pela cor amarela da Seleção Brasileira.

E, anos depois, aqui na TV Gazeta, no programa Nosso Jornal, que ia ao ar de manhã, produzi o único debate na história da tv brasileira sobre Capitalismo X Comunismo, justamente quando o Muro de Berlim começava a derruir, com dois filósofos da mais alta estirpe acadêmica – Leandro Konder, defendendo o comunismo, e José Guilherme Merquior, a favor do capitalismo.

Ainda menino, ouvia os ecos da Guerra Mundial no velho Brás dos italianos, o desfile pelas ruas das donas de casa carregando latas d’água na cabeça, as filas pra comprar pão e carne, a carestia, que provocava greves, bondes sendo derrubados, ônibus incendiados, corre-corre e discursos, muitos discursos de homens inflamados sobre caixotes. E um slogan que encerrava bem a história política da época e de sempre: Rouba, mas Faz.

Já adolescente, lembro como se fosse hoje o dia em que Getúlio Vargas se matou, comoção que virou o Brasil de cabeça pra baixo: o que era pedido de renúncia se transformou numa reação popular tal que botou a moçada de São Francisco a se esconder nas Arcadas.

Veio, então, Juscelino, insuflado pelos ventos da modernização, indústria automobilística, Brasília, todas as vitórias inimagináveis nos esportes – Maria Esther Bueno, Eder Jofre, Adhemar Ferreira da Silva, o basquete de Amaury e Vlamir, a conquista da Suécia, por Didi, Garrincha e Pelé, como no frevo ufanista cantado por Jackson do Pandeiro. Nas artes plásticas, Portinari e Di Cavalcanti; na música, Villa-Lobos e a Bossa Nova nascente; no teatro, Nélson Rodrigues e o Teatro de Arena; nas letras, Jorge Amado, Drummond e Guimarães Rosa; no cinema, a Palma de Ouro para Anselmo Duarte, e assim ia.

Apesar disso, as casernas rugiam. Houve Aragarças, houve Jacareacanga, duas infrutíferas tentativas de golpe militar, barradas pelo Marechal Lott, que perderia as eleições para Jânio, o Homem Providencial, aquele que nossa alma luso-hispânica vive acalentando: o Messias, o Salvador da Pátria, o Caudilho acima de qualquer suspeita.

Jânio tomou um pileque, fez as malas e partiu, à espera de que o povo o reconduzisse num andor como um pequeno ditador.

Mas, o encanto se acabara, e o jeito era barrar o vice João Goulart, que estava na China. O plácido estancieiro do Sul cujo único passo em falso era ter sido afilhado de Getúlio e pretender distribuir entre os miseráveis do país um pouquinho da riqueza nacional, foi barrado na volta pelo Parlamentarismo, que durou pouco, o tempo exato de um plebiscito que o conduziu à chefia do Estado e do Governo de fato e à deposição pelas armas, logo em seguida, sob o som dos panelaços nas ruas tomadas por algumas centenas de senhoras de cabelos tingidos e colar de pérolas cingindo os pescoços delicados, mas já se enrugando. Panelas também tocadas por boa parte da imprensa, que, mais tarde viria a utilizá-las para as receitas culinárias que era obrigada a publicar no lugar de notícias e artigos que ferissem as suscetibilidades dos ditadores de plantão.

Foram vinte e tantos anos de trevas, em que a chamada inteligência nacional foi varrida do país. O ensino público, que era uma excelência em cidades como São Paulo, foi sucateado, enquanto jovens e velhos eram torturados e mortos nos porões da ditadura.

Veio, então, a restauração da democracia, no instante em que o regime militar se exauria. Justamente quando o mundo se fundia numa só ideologia: a de ter e não a de ser. Estabelece-se, então, definitivamente, a sociedade de consumo, um sistema de vida voltado exclusivamente para isso – o consumo, ainda mais incrementado pela súbita evolução das novas tecnologias e produtos dela derivados.

Pra consumir é preciso ter dinheiro. Pra ter dinheiro, vale, portanto, qualquer esforço, honesto ou não. E, a partir daí, não há mais freios.

O povão segue mergulhado nas trevas da ignorância e vai na conversa de qualquer um. As elites, que outrora refinavam suas sutilezas mandando seus filhos estudarem em Paris ou em Coimbra, passaram a ter olhos apenas para os carrões da moda, os apartamentos em Miami, em contas nos paraísos fiscais e coisas do gênero. Nunca antes este país teve tantos bilionários listados pela revista Forbes, como agora, verdadeira indecência numa nação tão carente do mínimo.

Nunca antes o Brasil foi tão pobre em artes, literatura, música e teatro.

E aqui me permita o amigo voltar ao nosso tema diário: nunca antes nosso futebol foi tão pobre do ponto de vista do espetáculo e de resultados, o rei das sociedades competitivas e de consumo. Assim como nunca antes foi mote pra tanta violência nos estádios, nas ruas, nos metrôs etc.

Costumo repetir que o futebol é a dramatização, o reflexo, do cotidiano de um povo, com seus heróis, vilões e figurantes metidos em enredos regidos ora pela inteligência, ora pelo acaso.

Depois de passear os olhos na tv pelas avenidas, o Congresso e os campos de futebol, num clique, volto a rever a obra-prima de Lucchino Visconti, Il Gattopardo, baseado no livro de Lampedusa, justamente no momento em que Tancredi (Alain Delon) justifica-se para o tio, o Príncipe de Salina (Burt Lancaster), por que iria se juntar às tropas de Garibaldi que acabavam de invadir a Sicília: é preciso que algo mude pra tudo ficar como está.

2 comentários

  1. Pois é seu Alberto.
    As facções politicas disputam o “direito” de receber propina, assim como as facções criminosas disputam pontos de distribuição de droga.
    A diferença é que os criminosos resolvem na violência física e os políticos na base da violência moral.

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