
Não há, no futebol, lance mais solitário do que a cobrança de pênalti. É o cobrador, a bola e o goleiro. Ponto final. Um chute e quatro alternativas: bola na rede, na trave, pra fora, ou nas mãos do goleiro. O tiro fatal ganhou várias modalidades desde que a bola foi colocada pela primeira vez na marca da cal: o petardo disparado no alto, no canto ou até mesmo em cima do goleiro, contando com sua movimentação para um dos lados, o chute certeiro rasteiro no ângulo ou junto ao pé do poste, e até mesmo a cavadinha em que Djalminha foi mestre e Pato, recentemente, vítima atroz.
Mas, sempre é um gesto solitário e linear.
Eis, porém, que neste fim de semana o mundo foi surpreendido com um genial desvio de rumo, mais uma subversão do óbvio com que esse Barça maravilhoso costuma nos oferecer a cada jogo. Messi, em vez de bater o pênalti direto pra gol, como todos o fazem de hábito, desde que o mundo é mundo, com uma ou duas exceções ao longo do centenário jogo, rolou para a chegada de Suárez, que guardou.
Dizem que um belga, lá nos anos 50, já havia se beneficiado dessa brecha na regra. E que Cruyjff repetiu o lance décadas depois, com a camisa do Ajax – tocou para um companheiro que devolveu ao craque para marcar.
Mas, se não é inédita a ação de Messi, convenhamos, é inusitada, raríssima. E tão surpreendente, nestes tempos de exacerbado pragmatismo, que espantou até o próprio técnico do Barça, Luis Enrique, embora Messi e Neymar vinham havia dias ensaiando essa jogada, embora Suárez fosse mais rápido do que o brasileiro na hora da conclusão.
Aliás, suponho que, se Neymar tivesse chegado antes na bola, ela acabaria sendo devolvida a Messi para o argentino concluir a gol, a exemplo do lance histórico de Cruyjff. Mas, isso é irrelevante.
O que realmente me encanta é que essa jogada resume a própria essência do Barça, um time composto por várias estrelas cintilantes do futebol mundial mas que pratica um jogo coletivo como nenhum outro no planeta, tendo a troca de passes como princípio básico de tudo.
Esse princípio está de tal forma entranhado na alma catalã que até mesmo o super craque do time, cara que briga por uma artilharia mítica no seu clube, abre mão do chute direto, praticamente gol, em favor, ao mesmo tempo, da quebra do estabelecido e da junção com o companheiro, leia-se, o coletivo. Até mesmo na hora do tiro final, o Barça opta pelo passe, pela surpresa, pelo encanto do jogo que é exatamente esse: romper com o esperado.
Tudo isso é completado pelo entendimento, dentro e fora do campo, soldado por uma alegria flagrante entre esses três craques de futebol mágico e eficiente, individual e coletivamente, que surpreende até mesmo quando transformam uma natural rivalidade em íntima e divertida solidariedade, dentro e fora do campo.
Show de bola.