Palavras virando fumaça

Foto: Reprodução
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As palavras o vento leva, dizia-se. Pois, agora, estão virando fumaça tóxica. E o incêndio do Museu da Palavra, naquele prédio magnífico da Estação da Luz, soa como um sinal dos tempos.

O axioma antigo merecia duas interpretações: a primeira é a de que e as palavras são vãs, não dizem nada, não se fixam na memória, nem levam a pensar; a segunda, que elas se espalham por aí, semeando informação e e reflexão.

Já diz o velho livro que o Verbo deu início a tudo: Fiat Lux! E a luz se fez.

E a palavra foi tecendo as relações entre os seres humanos, ainda que com pronúncias e signos distintos, até que chegássemos à globalização atual.

É quando as palavras começam a se esfumaçar, o poder de reflexão passa a se intoxicar, levando as pessoas a serem guiadas pelas emoções, pelos instintos mais primários, gado tocado por clichês da hora.

Há pouco tempo, quando J. Hawilla comprou o Diário Popular, onde eu publicava a coluna Bola de Papel, ele me chamou em seu escritório pra dizer que eu deveria reduzir meu vocabulário às cinquenta palavras usuais hoje em dia. Não preciso dizer qual foi minha resposta.

Agora mesmo rola nas redes sociais o debate entre o Chico Buarque e alguns rapazes à frente de um restaurante no Rio.

Em outros tempos, isso não teria passado de um papo da noite, tantos quantos vivemos na juventude, sem nenhuma repercussão. Mas, hoje, na era dos celulares que tudo gravam e do facebook e do tuíter que tudo aceitam, o papo ganha dimensões de acontecimento.

Não falo, nem vejo o Chico há décadas. Mas, nos anos 60 fomos muito próximos, a ponto de ele ter sido um dos meus padrinhos de casamento, num lance muito divertido que um dia eu conto.

E fico imaginando o Chico, criado em torno dos mais lúcidos intelectuais, sob os ensinamentos de seu pai Sérgio Buarque de Holanda, um ícone no estudo da alma brasileira, ter que discutir com meia dúzia de meninos que nem imaginam quem ele seja realmente, o reinventor das palavras na poética-popular de nossa gente desde Noel Rosa. Logo ele, autor de Construção, um jogo de palavras e conceitos geniais, jamais produzido na música popular brasileira.

Na idade desses meninos, Chico já havia devorado Céline, autor que eles jamais ouvirão falar.

Não leram nada significativo, não se instruíram devidamente, pois desde a ditadura militar nosso ensino se transformou numa sucata, mas se acham habilitados a participar desse Fla-Flu político em que se transformou o embate político no Brasil: a Classe Média contra o PT.

Claro, membros ilustres do PT, assim como do PMDB, do PP e outros partidos subjacentes, estiveram envolvidos em falcatruas com grandes corporações, sobretudo na área da construção civil.

Falcatruas que só os ingênuos, desinformados ou mal-intencionados não sabem que vêm desde os tempos de Cabral.

A diferença é que, agora, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário do Paraná não tiveram suas pernas quebradas pelo governo central antes de começar a caminhada em direção à transparência dos malfeitos. E tudo está vindo à luz.

Quem conhece um tiquinho da história universal, expressas em palavras que produzem reflexão, sabe que o projeto de conquista do poder pelas forças que estão à margem do governo é exatamente produzir o caos econômico, aquele que toca o bolso do cidadão comum e, como consequência, sua visão da realidade.

É o que está acontecendo neste exato momento.

Até agora não surgiu nenhum indício de que Dona Dilma meteu a mão em dinheiro alheio, ao contrário do que ocorre com todos os seus possíveis sucessores, de Temer a Renan, passando por Eduardo Cunha. Mentiu na campanha eleitoral? Deu pedaladas fiscais, transportando dinheiro de bancos oficiais destinados ao povão miserável deste país a outros itens do balanço? E vale lembrar que, pela primeira vez na nossa historia, bem ou mal, esse governo que vem desde Lula, este, sim, implicado em maracutaias,  os miseráveis e pobres deste país tiveram um respiro. Não é pouco, em quinhentos anos de existência.

Pense, meu amigo. Construa as palavras em sua mente, e me responda, depois da devida reflexão, se isso basta para toda essa bulha  criada, capaz de paralisar o Brasil?

Encerro este papo dizendo que não pertenço, nunca pertenci, sequer votei no PT estes anos todos, assim como a qualquer outra agremiação política, em setenta e quatro anos de vida.

Mas, ainda consigo pensar, com as palavras, o dom maior da raça humana.

 

 

5 comentários

  1. Meus parabéns, meu senhor ainda apegado ás velhas ideologias esquerdistas do passado. Conseguiu juntar em poucas palavras todas as mentiras repetidas por 13 anos por esses demagogos populistas que levaram esse país ao precipício. Pergunte aos milhões de desempregados se eles sabem quem foi o burguês Céline? Chico Buarque não entendeu Raízes do Brasil. Afinal seu pai não foi comunista. Ele sim continua o que sempre foi, excelente musico e poeta mas péssimo cantor.

  2. Também não voto em ninguém desde Collor de Melo candidato em 1989. Não perco meu juízo com isso. Mas o Sr. errou ao dizer, no eixo principal do seu texto: “…que o projeto de conquista do poder pelas forças que estão à margem do governo é exatamente produzir o caos econômico” Então, na sua visão, a anarquia com contas públicas, pedaladas, investimentos errados em pré-sal, Pasadena, refinarias em Pernambuco, Ceará, caso Petrobrás, dinheiro do FAT, do FGTS de cidadãos comuns, pedreiros, carpinteiros e de donas de casa do povo brasileiro usados e abusados por empreiteiras em obras em ditaduras amigas deste governo, repito, quer dizer que isso e outras coisas são obra da oposição? E olha, o Chico de Holanda, não o François Hollande, nem é tão bom assim.

  3. A elite do Brasil não conhece o Brasil. O Brasil para as elites se resume aos “jardins” e à orla marítima desse país afora.Portanto, qualquer esforço para tentar diminuir as desigualdades sociais nas regiões mais pobres são inaceitáveis para essa gente. A partir do momento que perceberam que muito recursos estavam sendo aplicados nesses lugares secularmente abandonados, foi a partir daí que começou essa reação de intolerância, preconceito e ódio.. Os escândalos de corrupção são apenas uma desculpa esfarrapada que suportam as atitudes criminosas dessa turba.

  4. A partir de 2003 começou a nascer o primeiro dicionário da língua brasileira,ainda não editado e muito longe de estar completo e concluído.As novas palavras não se encaixam em quaisquer dicionários da língua portuguesa,e parece que já em 1935 Noel Rosa previa tal fenômeno,ao dizer “que tudo aquilo que o malandro pronuncía com voz macia é brasileiro e já passou de português.”A deterioração do português falado e escrito no Brasil alcançou progressão geométrica à partir do discurso de posse do presidente,que declarou que “não pricisava tê diproma i neim falá ingréis pra sê presidenti”.O têrmo “as Zeliti” foi o primogênito da nova série,e até agora não está claro de que lado está o novo poder,se na camada das elites que encomendam ternos de estilistas Top 10(por exemplo Lula),que levam cabeleireiros em viagens(por exemplo Dona Marisa),que consomem vinhos franceses e uísque 18 anos(Lula de novo),se dos filhos que se transformam em empresários milionários em um piscar de olhos(olha o Lula novamente),ou do lado “das Zeliti” que trabalharam durante o dia e estudaram à noite,e durante muitos anos com muito suor honestidade,dignidade e persistência conseguiram chegar onde estão.O conhecer e saber não se perdem, mas no Brasil de hoje o ter e poder é que ditam as cartas.Proliferam delinqüentes como J.Hawilla e está diminuindo assustadoramente os brasileiros com o mínimo de caráter e vergonha na cara.O Museu vítima do recente incêndio,está instalado na região central da maior e mais importante cidade do país,e não possuía alvará de vistoría do Corpo de Bombeiros!!!

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