Seleção: mistério sobre o óbvio.

(Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)
(Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press)

Essa história de que a Seleção Brasileira só resgatará a paixão do torcedor se for armada apenas com jogadores daqui é papo furado. Mesmo porque basta o cara vestir a canarinho e no dia seguinte já estará fazendo as malas para mudar de continente.

O que a Seleção precisa, para voltar a seduzir o brasileiro, é jogar um futebol compatível com sua história, isso sim.

Não é à toa que o mito da Seleção de 82, perdedora, se sobrepõe às vencedoras de 94 e 2002 no imaginário popular, até mesmo das gerações que nem chegaram a vê-la em ação na sua plenitude.

O resultado, já disse aqui inúmeras vezes, é resultado, fruto, consequência, não princípio. O princípio, entendido como conceito, proposta, é jogar bem. Pois, jogando bem maiores serão as chances de se obter o melhor resultado. Óbvio, acaciano, elementar.

Mas, o diabo é que uns poucos – tipos como Felipão e Dunga, pra citar apenas os dois últimos treinadores da nossa Seleção – conseguiram inverter essa equação, e o princípio de tudo passou a ser o resultado: a carroça atrás dos bois. É aquele atalho que, geralmente por acidente ou soma de circunstâncias, pode levar ao Eldorado da vitória. Vitória de Pirro, diria, já que a grande batalha está sendo perdida pelo futebol brasileiro como um todo há pelo menos duas décadas, desde que esse princípio se estabeleceu entre nós, tanto na Seleção quanto nos clubes.

Resultado: o que se vê, às vésperas de um jogo importantíssimo para a classificação do Brasil à Copa do Mundo, contra o Peru, na Bahia, é um imenso silêncio na mídia, quebrado aqui e ali por uma declaração deste jogador ou daquele, ou algumas curiosidades absolutamente dispensáveis.

Nos últimos quarenta anos, acompanhei as atividades da Seleção, aqui e lá fora, dezenas de vezes. E sempre era aquele frenesi: os jornais abriam cadernos especiais com a Seleção sendo esmiuçada de cima a baixo; as rádios cobriam cada passo do time e até mesmo a tv transmitia os treinamentos e cousa e lousa, enquanto o torcedor nos bares, nas padarias, nas ruas, nas oficinas, nos escritórios, discutia todos os detalhes da preparação, quem merecia estar lá e não estava, quem deveria jogar no lugar de quem e assim por diante.

Hoje, um dia antes do embate com o Peru, busco na Internet – um espaço sem os limites dos jornais, das rádios e da tv, por sinal -, e cadê a Seleção? Fico sabendo que Neymar tem dor de dente e que Daniel Alves está feliz por jogar pela Seleção na sua Bahia de Todos os Santos.

E che me ne frega isso?, como diria o velho italiano do Brás da minha infância.

Quero saber o que estamos fazendo, nas entranhas da Seleção, para partir sobre o Peru, velho freguês, e destrinchá-lo como se a Fonte Nova fosse uma mesa enfeitada de Natal, com estilo e esmero, em fatias fininhas e rosadas.

Como são os treinamentos realizados por Dunga para chegar a isso? Quem joga, quem sai? Enfim, essas coisinhas básicas pra se criar uma expectativa, favorável ou não, em relação às nossas possibilidades no jogo de amanhã.

Jacaré sabe? Nem eu, nem você, amigo de fé. Pois a Seleção se esconde da luz como o diabo da cruz. Em nome do quê? Do tal resultado. Afinal, o segredo é de ouro, não podemos dar chances ao adversário, mesmo às vésperas do jogo, pois o futebol é, além de um sutil jogo de xadrez, uma caixinha de surpresas. Não diga!

Aí, o juiz apita o início do jogo e o que se vê? É nosso time aqui atrás, fechadinho, e quando tenta sair sem ser através de chutões é aquela sucessão de passes errados. E dá-lhe Neymar correndo, da cadeira do dentista para a maca do ortopedista,

Bem, não sejamos tão pessimistas, vá. Quem sabe, diante do frágil Peru, apesar de eles terem lá uma linha de frente respeitável, com Farfan, Guerrero e Pizarro (acho que não joga), Dunga resolva abrir mão de um volante para dar lugar a mais um meia, capaz de compor um trio de qualidade no passe, tipo Renato Augusto, Lucas Lima e Willian, abastecendo devidamente Neymar, Douglas Costa e Ricardo Oliveira, por exemplo?

Mas, mesmo que mantenha o esquema com dois volantes, pelo menos, solte Elias para chegar à frente com muito mais frequência do que vem fazendo na Seleção.

É possível, por que não? Mas, improvável, desconfio.

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