
A palavra de ordem de Tite sempre foi – equilíbrio. Se somarmos todas as vezes em que ele a empregou teríamos um compêndio do tamanho da Enciclopédia Britânica.
Não é uma palavrinha exclusiva de seu dicionário particular. Ela anda de boca em boca entre nossos treinadores, muitas das vezes como um eufemismo para a retranca mais deslavada.
Aliás, o próprio Tite já lhe deu esse sentido, em momentos transitórios, quando era obrigado a refazer seu time, depois da perda de alguns jogadores essenciais em seu elenco, como mais recentemente, quando se viu, de súbito, sem Sheik, Guerrero e Fábio Santos.
Arrecua os arfos!, bradava o velho técnico caipira do time de fazenda, quando a coisa ficava preta. E a linha média, os três alfos (halves, plural de half em inglês), volantes de hoje, recuavam pra salvar a pele de todos.
E Tite arrecuava os arfos enquanto procurava o tal equilíbrio de fato. Aos poucos, foi chegando lá.
Em primeiro lugar, porque tanto Renato Augusto quanto Jadson, os dois meias vitais, finalmente acertaram o pé. Não o pé na bola, que ambos sempre souberam jogar o jogo.
Mas, Jadson padecia de inconstância, talvez, psicológica. E Renato Augusto era vítima recorrente de lesões que o impediam de entrar na toada do jogo definitivamente. Pois, Jadson, com a permanência na equipe e a escolha do melhor lugar para produzir no time, virou um aço, nos passes e nas finalizações. E Renato Augusto, nem se fala: vai e vem, organiza, ataca, faz tudo nesse conjunto, sem mancar nem dar sinais de cansaço.
E muito contribuiu para isso a dinâmica de Elias, que chega sempre para auxiliar ambos nesse processo de armação e passagem em direção à área inimiga. O mesmo Elias que capengava na sua volta ao Timão.
E lá na frente, onde o silêncio era ensurdecedor depois das saídas de Sheik e de Guerrero?
Tite apostou em Malcom e Vagner Love, depois da decepção com Luciano, que entrara tão bem no time e acabou sendo expulso por grave lesão. Insistência que acabou dando certo justamente pela insistência.
Dessa forma, o Timão foi se equilibrando no justo sentido do termo: defende-se bem, arma bem e ataca, agora, com mais constância e eficiência do que antes.
Não é ainda um time que chega a encantar, deslumbrar os amantes do futebol jogado num patamar que beira a arte. Mas, está caminhando nesse sentido, passo a passo, naturalmente, embora Tite seja refém do bom-senso, sua maior virtude e, nesse caso, um leve entrave. A propósito, acho até que ele próprio flerta com a possibilidade de dar um passo em direção àquela faísca de irresponsabilidade que toca o gênio.
Sim, porque você espia Tite nesses anos todos e percebe que, embora atado à sobriedade de gestos, palavras, pensamentos e postura, algo sempre está mudando, imperceptivelmente. Espie só o amigo os cabelos de Tite. Eram negros e emplastrados de gel, fio a fio no lugar exato. Aos poucos, encaneceram e ganharam ondas insuspeitadas.
Quem sabe, hora dessas, Tite, como um Toscanini extasiado diante de sua orquestra, não se descabele e se solte de vez, sem, contudo, perder o senso de regência?
Era só o que faltava.
Alberto Helena sou Corinthians e sou seu fã. Suas palavras são formidáveis. Sempre acompanhando seus comentários
Olá Alberto.
Essa história dos halfes que viraram arfos foi deliciosa. Obrigado por compartilhar esse tipo de conhecimento e experiência. Pouquíssimos jornalistas, ainda mais dos esportivos, tem essa capacidade!
Quanto ao time, acho que F. Santos e Sheik não fazem falta. Apenas o Guerrero certamente estaria cansado de fazer gols, já que assistências não faltariam.
Grande abraço!
Alberto Helena, há muitos anos atrás, eu comprava o Jornal da Tarde só pra ler a sua coluna. Parabéns, você continua ótimo !!
Sr. Alberto,
Amei esse texto! O Sr. escreve maravilhosamente! Parabéns!
E eu amei seu comentário, Lindalva. Pois esse é o sal da vida do cronista: saber que tocou a sensibilidade do leitor (no caso, leitora).
Obrigado