Kruschner, Guardiola e Don Osorio

Guardiola recorreu no sábado à tática WM (Foto: Christof Stache/AFP)
Guardiola recorreu no sábado à tática WM (Foto: Christof Stache/AFP)

Seria como se Dunga escalasse a Seleção que joga esta semana nos EUA assim, ó: Jefferson ou qualquer outro goleiro; Danilo, Luiz Gustavo e Marcelo; William, P. Coutinho ou Kaká, Lucas Lima e Douglas Costa; Lucas, Firmino e Neymar. Caiu da cadeira? Claro, nem daqui mil anos se poderia esperar isso de Dunga ou qualquer outro treinador do Brasil, quiçá do mundo.

Com exceção, claro, de Guardiola, que, sábado, exumou do fundo do baú uma fórmula gravada em pergaminho, a verdadeira pedra de toque da alquimia futebolística, na vitória do seu Bayern contra o Leverkusen, que nã0 é nenhuma galinha morta, não: o WM do escocês Herbert Chapman, base de todas as variações táticas que vieram depois dele.

São três zagueiros, não zagueiros de fato, mas dois laterais de traços ofensivos e um volante no centro dessa linha mais recuada. À frente, uma pequena alteração: em vez do quadrado mágico (dois médios apoiadores ou volantes, como queiram, e dois meias), uma linha de quatro meio-campistas, todos meias autênticos, nenhum volante. E, na frente, três atacantes genuínos – dois pontas e um centroavante.

Vale lembrar que o recuo para a zaga central de um volante clássico, de passe exato, como Xabi Alonso (um cover do próprio Guardiola quando jogador, diga-se) me remete a um passado longínquo, quando o WM, tardiamente, desembarcou no Brasil, na bagagem do austro-húngaro Dori Kruschner (na verdade, Kürschner).

Corria o ano de 1937, e Kruschner, fugindo da guerra que se desenhava nos céus da Europa, acabou, quem diria, na Gávea, onde Fausto, A Maravilha Negra, reinava absoluto no meio de campo do Flamengo. Naquele tempo, jogava-se no sistema clássico – 2-3-5 -, em que o centromédio era o chamado Eixo do time, por quem a bola devia passar obrigatoriamente na sua sina em direção ao ataque.

E lá vai o incauto gringo tentar convencer Fausto de que, a partir do novo modelo, ele seria o zagueiro central. Explica-se: antes de Domingos da Guia, beque era muito raça e pouca técnica. No novo sistema, a bola deveria sair redonda desde lá detrás para quem a coisa toda funcionasse a contento. E, Fausto, além de raçudo, tinha um passe magistral.

Pra quê? Fausto incorporou o Satanás de Goethe e Dori Kruschner saiu escorraçado da Gávea. Mais tarde, assumiria a direção técnica do Fla o auxiliar de Kruschner, Flávio Costa, que inventaria a Diagonal, pequena variação do WM.

Estou dando essas voltas no espaço e no tempo pra chegar no aqui e agora, onde e quando se debate o trabalho polêmico de Don Osorio no São Paulo.

Tirando-se esse pachequismo primário de muitos, todos concordam que o futebol brasileiro precisa mudar de rumo, e Don Osorio, com seu discurso inovador e seus métodos de treinamentos que encantam os jogadores tricolores, surge como o grande agente dessa mudança. O Kruschner de hoje; o Guardiola colombiano em ação na Paulicéia desvairada.

Sucede que mudar por mudar não significa. Até parece coisa do aristocrata de Lampedusa, que pregava mudanças superficiais pra evitar as mudanças estruturais. É preciso que a mudança tenha um norte, um objetivo claro para alcançar um outro patamar.

Então, caímos aqui no que escrevi dias atrás sobre os caminhos até então escolhidos por Don Osorio para chegar a um novo estágio.

Disse que, se ele deseja um time que tenha a posse de bola, como um Bayern ou um Barça, ambos de Guardiola, ao mesmo tempo em que afia a versatilidade de seus jogadores, melhor seria tentar adaptar volantes no lugar de zagueiros e meias no lugar dos volantes, do que o inverso – encher o time de zagueiros e volantes e esperar que eles confiram o toque de bola e o envolvimento por ele pretendido, como vinha fazendo.

Essa, sim, seria a inestimável contribuição que Don Osorio daria ao futebol brasileiro, assim como Guardiola vem dando ao mundo.

 

 

 

3 comentários

  1. E pensar que Josep Guardiola i Sala considera a seleção do Brasil de 1970 c0mo a melhor da história(ele nasceu em 1971),
    e que aquela equipe e o futebol brasileiro da época foi a base de sua inspiração como treinador.
    Atualmente alguns técnicos brasileiros saem daqui para se aperfeiçoarem com aqueles que no passado nos tiveram como exemplos,mas ao retornarem,enfrentam a dura realidade do nosso futebol,com jovens despreparados técnica,emocional e
    intelectualmente.
    As escolinhas de futebol não praticam mais o futebol dos moleques de rua,e estão repletas de agentes,empresários e dirigentes
    de clubes.Há tempos que nossas safras de craques se escassearam,e de tempos em tempos surgem alguns como
    Neymar,talvez Ganso e quem sabe Gabriel Jesus e “c’est fini”.

  2. Helena, Juan Carlos eh inquieto, trabalhador, inteligente.
    Tem duas outras qualidades raras no Brasil de hoje, qualidades que Tele Santana tambem tinha.
    1 – Juan Carlos gosta de jogar pra frente, buscando o gol — e por isso o SPFC hoje joga FUTEBOL — o oposto do Muricybol, das Parreirices, das Dunguices, das Abeladas, das Felipadas.
    2 – Juan Carlos gosta de futebol, e por isso seus times ganham JOGANDO BOLA — o contrario do ANTIJOGO praticado por 9 entre dez tecnicos brasileiros
    O unico tecnico brasileiro da atualidade que vai na mesma direcao de Tele e Juan Carlos chama-se Dorival Genior, ops, Dorival Junior

    1. De fato, Luciano. Mas há outros técnicos bons no Brasil, sim, fazendo times jogar futebol. O Tite, por exemplo, super tático, ainda que o futebol do Corinthians não seja vistoso — mas eficiente.

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