Memórias, o Véio, Moles e R10

 

Nelson Perez/FFC
Nelson Perez/FFC

Foi um sábado puxado, mas divertido. Logo de manhã (Deus me livre e guarde desse mal, amém!), no auditório do Museu do Futebol, no Pacaembu, tive um papo agradável com uma turma especial, que se autodenomina Memofut -grupo literatura e memória do futebol. Um grupo de jovens e coroas que curtem pesquisar e resgatar histórias do futebol, prática saudável, pois que é da mitologia que o futebol se nutre, aqui e lá fora, desde sempre.

Na ocasião, recebi do Darcio Ricca um precioso livro, intitulado De Charles Miller à Gorduchinha, singela e deliciosa homenagem ao inventor do futebol no Brasil e ao reinventor de sua difusão pelo rádio, o meu querido Osmar Santos, que acaba de fazer aniversário, Pai da Gorduchinha.

Depois de enganar o pessoal com minhas histórias, parti voando para a Livraria Cultura no Conjunto Nacional, onde meu amigo e biógrafo emérito de Adoniran Barbosa, entre outros feitos, Celso Campos Filho, lançava sua última obra – a história de Osvaldo Moles – intitulada Recado de uma Garoa Usada.

O quê? O amigo não sabe quem foi Osvaldo Moles? Tem toda razão, pois o grande cronista do cotidiano de São Paulo, que se suicidou na metade dos anos 60, viveu à sombra de celebridades menores porque assim são as coisas.

A propósito, quando fiz uma palestra na Academia Brasileira de Letras sobre literatura e futebol, sugeri aos acadêmicos amigos que exumassem a figura de Moles. Pois, nem eles mesmos sabiam de quem se tratava.

Logo depois de sua morte, aliás, quis escrever sua biografia e reunir as crônicas de Moles, que tanto influenciaram minha escrita quanto deu vida ao personagem Charutinho, incorporado por Adoniran de forma tão intensa a ponto de se transformar no próprio ator, comediante e compositor.

Moles era, antes de mais nada o escritor de programas humorísticos da Rádio Record, a Maior, como dizia o slogan. Tão profícuo, que chegava a escrever dois ou três programas ao mesmo tempo, em cima da hora de eles irem ao ar. E foi, também, um dos pioneiros da propaganda em rádio no Brasil, ao lado de Raul Duarte.

Segundo o saudoso Raul, seu parceiro de Record, ambos costumavam passar as horas de folga, entre um programa e outro, no Viaduto, bar da rua Direita, onde a cidade desfilava com todas as diversidades – o caipira, o crioulo, o italianinho, o espanhol, o portuga, o judeu, o pau de arara recém-chegado para erguer o boom imobiliário da cidade que virava metrópole,  o árabe, chamado de turco, o mineirinho que não comprava bonde coisíssima nenhuma, o japonês do pastel, enfim, esse mosaico de etnias, nacionalidades e linguajares próprios.

Moles, então, feito um Guimarães Rosa de Piratininga, anotava frases, expressões palavras, entonações, cacoetes linguísticos de cada um e ia construindo um vernáculo novo que ele botava na boca dos seus personagens, assim como nos versos dos poemas populares em parceria com Adoniran e que eu costumo chamar de paulistês.

Esse, resumindo, era o Moles que Celso Campos Filho revive em seu livro, uma celebração ainda que tarda, como reza o dístico do símbolo paulista.

Antes, porém, tivemos a exibição de uma banda nova, no auditório da Livraria Cultura: o Jabá Sintético, nome inspirado numa das últimas e poucas conhecidas composições do Véio, nosso Adoniran imortal. São oito componentes, se a memória gasta não me trai: quatro rapazes e quatro moças (ai, Verônica…) afinadíssimos, que nos presentearam com uma série de sucessos do mestre do samba paulista, entremeados de esquetes de Moles e de depoimentos de seu sobrinho, Sérgio Rubinato.

De volta à minha caverna, no Grão Ducado de Ibiúna, ligo a tv pra ver a estreia de Ronaldinho Gaúcho no Fluminense diante do Grêmio, num jogo de disputa direta pelo G4. Esperava algo mais dinâmico do que foi o primeiro tempo, quando Ronaldinho ficou feito poste lá na frente e só participou pra valer numa cobrança de falta que quase surpreendeu o goleiro Tiago.

No segundo, depois da expulsão de Wallace, mesmo com um a mais o Flu não conseguia se impor, mas Ronaldinho meteu aquela bola na cabeça de Wellington Paulista, que a desviou para Marcos Jr. meter um golaço: limpou o goleiro e guardou, alçando o Tricolor carioca à terceira posição da tabela do Brasileirão, posição que pode ser retomada pelo Verdão, neste domingo.

Ufa!

3 comentários

  1. As tardes na Vila Maria depois do almoço na casa de meus avós, a radio Record transmitia “História das Malocas”, para a alegria das crianças e dos adultos. Grande,saudoso e insubstituível Osvaldo Moles.

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