Gigghia, inesquecível

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Nem ouvi o gol de Gigghia. Quando Schiaffino empatou, no começo do segundo tempo, desliguei o rádio e fui jogar bola com meu irmão e primos na estrada vazia (o Brasil havia parado ao pé do rádio) que ligava Atibaia a Bragança. Afinal, o Brasil precisava apenas do empate para levantar sua primeira Copa do Mundo, em 1950. E era impossível que aquele timaço, capaz de golear Suécia e Espanha na véspera da final perdesse para o Uruguai.

Mas, aos oito para os nove anos de idade, fanático por futebol, não queria viver as dores da expectativa naquele domingo fatídico vivido na chácara de Chico Helena, irmão de meu avô Emílio que jamais conheci, em Tanque, uma vilazinha entre Atibaia e Bragança.

O fato é que, quando religuei o rádio, o Brasil havia perdido por 2 a 1, vítima daquele gol de Gigghia que só fui ver no cinema, dias depois.

Para os mais jovens, vale dizer que ainda não havia televisão no Brasil e futebol só só via em campo ou nos cinejornais. O resto era pelos rádios e jornais. E os jornais detalhavam os feitos do demônio Gigghia. Primeiro, recebeu a bola pela direita e escapou de um carrinho mortífero de Bigode, lateral-esquerdo tipo Álvaro Pereira, desses alicates que só na cabeça de Flávio Costa poderiam ser titular no lugar de um Noronha, o Cobrinha, ou de um Newton Santos, convocado equivocadamente para a reserva de Augusto, na lateral-direita, dois especialistas da posição de técnica e categoria muito superiores.

Bem, deu-se que Gigghia disparou pela direita até à linha de fundo, de onde serviu a Schiaffino, o craque do time uruguaio, que entrava pela direita: 1 a 1.

Mais adiante, bola alçada às costas de Bigode, Gigghia parte em alta velocidade, e, em vez de cruzar como havia feito antes, bate direto, no canto esquerdo de Barbosa: 2 a 1.

Até hoje os uruguaios celebram esse feito, o último da história de seu futebol glorioso. E os brasileiros amargam a tragédia de 16 de julho de 1950. Talvez, menos do que os 7 a 1 diante da Alemanha, vexame de há um ano.

A diferença é que aquele de 50 era um timaço, ao contrário do time de Felipão.

De qualquer forma, Gigghia, que acaba de nos deixar, já havia assegurado um nicho na eternidade do futebol, mesmo em vida. Agora, só fica na memória.

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