A lei do escorpião

AFP
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Deixemos Neymar um pouco de lado, pois até para o craque há dia que é só noite. E tentemos entender o que se passa com a Seleção Brasileira.

No pasa nada, diriam nossos hermanos, e esse é o problema. O futebol brasileiro, seja aquele praticado por nossos clubes, seja o da Seleção, é o mesmo há anos, justamente o tempo em que caímos dos primeiros lugares na tabela de prestígio mundial para posições mais subalternas, dignas de qualquer timinho da esquina.

E a turma não se toca. Do ponto de vista conceitual, o que mudou na Seleção dos 7 a 1 vexatórios da Copa do Mundo para a derrota deprimente por 1 a 0 para a Colômbia na Copa América? Nada, a não ser alguns reparos cosméticos, de superfície no plano da distribuição de jogadores em campo – o 4-1-4-1 ou o famigerado 4-2-3-1 que nossos técnicos e comentarista gostam de timbrar como fórmulas modernas, como se futebol de campo fosse pebolim.

Sistemas e táticas vão e voltam no tempo, como a moda – ora, a gravata é grossa, ora fina; ora berrante, ora discreta e assim vai.

Se nos apegarmos a isso, pode-se dizer sem medo que o sistema da moda nos centros mais avançados do mundo é o velho 4-3-3. É assim que jogam, por exemplo, Barça e Bayern, os dois melhores e mais vitoriosos times do planeta neste exato momento.

Na verdade, a questão é de postura. Postura interior – a alma do time – e postura exterior – a forma de se posicionar em campo. Ambas têm, no fundo, apenas duas opções: jogar pra se defender ou jogar pra ganhar. Ponto. Jogar pra se defender significa ter como preocupação maior evitar erros. Jogar pra ganhar implica em correr riscos, a possibilidade de errar, sempre, contudo, ousando.

O futebol brasileiro, infelizmente, caminha numa zona intermediária, cinzenta, em que não opta nem por uma, nem por outra. Consequência: perdeu o viço e o brilho. É, na verdade, um futebol sem postura, sem personalidade própria, que tem sobrevivido graças a este ou aquele craque da hora.

É uma impostura, algo como Felipão falando pela boca de Guardiola.

Confesso que tive um fio de esperança quando dos primeiros amistosos do time de Dunga, considerando que o técnico brasileiro dava sinais de que iria mudar o braço da viola. Mas, no fim, prevaleceu a lei do escorpião, aquela segundo a qual não se muda a própria natureza, contrariando a outra, a da evolução.

E o que seria mudar o braço da viola?

Seria plantar a linha de defesa mais avançada, incentivar a troca de passes a partir da zaga, passando pelo meio de campo e chegando ao ataque com frequência. Para tanto, claro, Dunga teria de escalar jogadores adequados para cumprir tal roteiro. Ou seja: beques velozes que saibam sair jogando e um meio de campo composto por jogadores hábeis e inteligentes.

Ah, mas não temos esses jogadores. Nossa safra é ruim e tal e cousa e lousa e maripousa. Meia verdade.

Se não temos uma legião de craques como em certas épocas do nosso futebol, os que estão aí atuam com destaque nos principais times da Europa, e, tecnicamente, não devem nada aos demais concorrentes desta Copa América, com as exceções de praxe.

Nossos zagueiros, por exemplo, estão entre os melhores do mundo há várias temporadas. Miranda, Thiago Silva e David Luís sabem marcar e sabem dar aquele primeiro passe que coloca a engrenagem em funcionamento. Eles fazem isso em seus times, seja na Itália, na Inglaterra, na Espanha ou na França, onde jogam ou jogaram recentemente, como se estivessem tomando um copo d’água. Por que diabos não o fazem na Seleção, onde ficam lá atrás disparando balões pra frente, como se atuassem no Chapetuba FC?

Pau que nasce torto…

Mas, se por acaso, dominam a bola nas proximidades de sua área e tocam-na… pra quem? Pros dois volantes, aquelas Gárgulas de fachadas góticas, que só servem pra meter medo em crianças, cometer faltas perigosas e errar o passe em seguida.

E não me refiro apenas a Elias e Fernandinho, que até ganham em técnica dos seus pares habituais. Falo em termos gerais.

Mesmo porque é dado a eles funções para as quais não estão habilitados: a de armação, do passe decisivo preciso e inteligente, de controlar os nervos da partida, essas coisas.

Quem está, como os meias, tipo Everton Ribeiro ou P. Coutinho, ou fica no banco, ou é escanteado para as extremidades do campo, como Willian e Fred, numa função imprecisa entre a de lateral e a de ponta, nada compatível com a natureza do futebol de um autêntico meia. Resultado: inevitavelmente, um futebol descerebrado, feito de impulsos, sem pé nem cabeça, literalmente.

Como? Se, apesar disso tudo, vamos nos classificar para a próxima fase da Copa América? Desconfio que sim. Pois, seria humilhação ainda maior do que os 7 a 1 se formos desclassificados pela Venezuela, por mais que o futebol de lá tenha evoluído nos últimos anos.

E, se essa desgraça ocorrer, nem pense que servirá de alerta para as mudanças fundamentais de que tanto carece nosso futebol sejam finalmente adotadas.

Aqui, continua prevalecendo mesmo é a lei do escorpião.

 

 

 

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