Ao sol e à sombra de Galeano

Um dos maiores orgulhos que esta vidinha de cronista esportivo me ofereceu foi saber que Eduardo Galeano, o grande escritor uruguaio que acaba de nos deixar, gostava de ler de vez em quando estas minhas bobagens. Certa vez, recebi de seu próprio punho os originais de um clássico da literatura da bola: O Futebol ao Sol e à Sombra, solicitando-me um parecer, imagine!

Tive o primeiro contato com a obra de Galeano lá pelo início dos anos 70, lendo à luz trêmula da vela do medo, em meio às trevas da ditadura militar que infelicitava nossos dois países, uma edição clandestina, em espanhol, de As Veias Abertas da América Latina, clássico da literatura latino-americana.

Mas, o que mais nos aproximava, mesmo à distância, era o gosto pelo futebol, visto como o grande entretenimento das massas sem classes, cor, latitude ou credos.

O gosto por um jogo, que, apesar de todos os apelos bélicos, é uma expressão da cultura popular de todos os povos, uma espécie de arte praticada com os pés dominando uma esfera indomável, caprichosa, sem norte ou sul, um mágico desafio à lei da gravidade, aquela que governo nenhum é capaz de revogar.

Como homem da minha geração, Galeano, apesar de uruguaio, era admirador do futebol que se jogava no Brasil, justamente porque enfatizávamos esses aspectos lúdicos e artísticos, muito além de sua face guerreira. Um futebol mais ao sol do que à sombra que hoje nos cobre.

2 comentários

  1. Que belo artigo, Alberto Helena!
    Você é um “periodista” esportivo diferenciado, pela sua cultura e por suas posições progressistas.
    Que Eduardo Galeano descanse em paz!
    E que você, Helena, continue a nos brindar com suas pérolas aos poucos…
    Saudações!

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