
Sábio texto do meu querido Werneck, com quem, há muitos anos, infelizmente, não tenho o prazer de privar. O bicho atravessou os mares e nos deixou a ver navios.
Vale, porém, fazer algumas reflexões a respeito dessa história do resgate da escola brasileira de jogar bola.
Nunca há um resgate integral do passado. Nem mesmo aqueles tesouros de galeões espanhóis afundados há séculos nas costas da Martinica ou vizinhanças que a National Geographic vive nos mostrando na tv. Mesmo depois de polidos, aqueles objetos todos não tomam formas reais, parecem mais uma visão do passado apenas, que tanto podem estar ali numa redoma de vidro na galeria da hora, como na nossa imaginação.
Ou seja: não têm a utilidade que tinham em seu tempo. São apenas peças de museu.
O mesmo se dá com nossas lembranças, mesmo porque a história caminha em forma espiralada, mais ou menos como a representação gráfica do DNA humano. A moda, os costumes, as ideias, sempre voltam, mas num círculo acima, pois nada se perde e tudo se transforma, como ensinava o sábio francês.
A velha escola brasileira de jogar bola, como diz o Werneck, sim, fechou as portas, há, pelo menos, duas décadas. Em seu lugar, aqui, foi instalado um simulacro da escola italiana, tendo o catenaccio como inspiração. Ao mesmo tempo, os conceitos básicos que construíram nossa velha escola foram reinstalados além mar, num processo inverso da nossa colonização, entrando por Portugal e se infiltrando pela Espanha, França, Alemanha e saltando para a Velha Albión, finalmente.
E as velhas ideias tupiniquins de um futebol ágil, hábil e ofensivo ganharam novas formas de expressão por lá. E o que era um futebol mecanizado, insípido e apenas pragmático, iluminou-se num espetáculo colorido e emocionante, como se um sol tropical brilhasse sobre os campos enevoados da Europa.
O reflexo desse cenário nos volta como uma grande novidade, por meio das transmissões dos jogos pela tv por assinatura. E, finalmente, a turma de Pindorama, começa a perceber que aquilo lá é melhor do que temos por aqui. E, mais uma vez na história, passamos a importar o que exportamos, em nova embalagem.
Meno male, diria o velho italiano do Brás antigo.
É um jeito de resgatarmos a essência, pelo menos, da velha escola brasileira de jogar bola neste mundo sem fronteiras, em novo formato, certamente mais competitivo, mais veloz, mas ainda assim privilegiando o talento, a inventividade e o gosto pela busca do gol acima do desejo de evitá-lo.
Desconfio que é isso o que Dunga está fazendo com nossa Seleção, mesmo inconscientemente, talvez. Sem todo aquele brilho de certos momentos da nossa história, mas com algumas centelhas, ao menos, de um tempo que não volta mais.
A não ser com outras vestes, tecidas no tear virtual de novas tecnologias.
Impressionante como as cabeças mais inteligentes de nosso mídia esportiva se deixam levar por resultados, construídos, sei lá à força de que, mas nunca de um verdadeiro bom futebol. Quem viu o Brasil x França sabe que foi 3 a 1 para o Brasil, mas poderia ter sido para a França. Eu quero o Brasil ganhando e mandando. Eu quero ver um Brasil vencendo e não usando o tempo de acréscimo para fazer substituições, parando o jogo com medo de tomar um empate. Isso não é resgate, nem mesmo inconsciente de nosso futebol. Pelo amor de Deus! Essa é a mesma seleção de Dunga, de Mano, de Felipão, e depois Dunga de novo. No teste maior fracassa, porque falta futebol, confiança e o respeito dos adversários. Estatística, até ela, também é igual até que chegou o dia do fracasso.
Nelson Rodrigues continua sendo o invisível mais presente nas rodas e mesas de discussão de futebol,é como se ele estivesse com o cigarro pendurado no canto da boca e dizendo “cuidado para não encalharem na unanimidade pois quem pensa com ela não precisa pensar”.
Em um passado recente a unanimidade demitiu Dunga da seleção,e nos días atuais
a mesma o enaltece e até afirma que sua demissão foi injusta.
As estatísticas mostram que a primeira passagem dele pela seleção foi acima da média, tendo conquistado a Copa América de 2007,das Confederações de 2009,e classificando o Brasil para as eliminatórias da Copa de 2010,mas a derrota contra a Holanda o mandou direto para a guilhotina.
Aliás,eu disse a amigos na época que o único equívoco de Dunga foi manter Felipe Melo naquela fatídica tarde após ter recebido o cartão amarelo,o que não me exclue do grupo dos unânimes.
O Dunga de agora afirma que a geração atual de futebolistas é diferente e que ele está melhor preparado para compreendê-la e conviver com ela.
Uma de suas recentes declarações é foto sem retoques do atual estágio no qual se encontra nosso futebol,:-
“Um volante tem que saber inverter o jogo, um lateral tem que saber chegar na linha de fundo e cruzar, um zagueiro tem que saber a direção que tem que cabecear a bola pro companheiro. Vi as categorias de base do Chile, e a gente não entende como os caras conseguem ser tão baixinhos e cabecear pra caramba. Todo mundo tem medo de lesão… Não pode chutar muito, não pode exceder muito… Não podemos trabalhar assim, com esse medo. Tem que ter o treino específico, praticar os fundamentos. É muito importante.Acho que não faria muitas coisas que fiz em 2010. Em 2010, eu cheguei tentando resolver os problemas da seleção em 10 dias, só que muitos problemas não são nem função minha”.
Não duvido da capacidade do brasileiro Carlos Caetano Bledorn Verri como técnico de futebol da seleção brasileira,mas por trás dele há 23 jogadores que precisarão fazer o que lhes corresponde,e de nossa parte,precisamos aceitar sem constrangimento de que já não somos mais os reis do futebol,como bem definido nos textos do Werneck e do
Alberto Helena.