
O Mosqueteiro, que sempre abrilhanta este blog com seus pertinentes comentários, tem o bom hábito de despertar no cronista caras lembranças.
É o caso, agora, de sua referência a Dino Sani, que vivo citando como um exemplo bem definido das diferenças sutis entre o volante e o meia. Falo do volante e do meia tecnicamente bem dotados, esqueçam os brucutus, os beques transformados em volantes, essas coisas.
Já contei esta história várias vezes, mas vale repetir porque a fila anda e sempre está chegando gente nova no pedaço.
Dino Sani surgiu no Palmeiras, no raiar dos anos 50, como um meia-armador promissor, passe exato, chute preciso, fosse na bola rolando, fosse em cobranças de faltas, lento, porém, na resolução das jogadas, ao receber a bola depois da linha do meio de campo. Passou pelo falecido Comercial da Capital, pelo XV de Jaú, antes de desembarcar no São Paulo já lá pelos meados daquela década. A jovem promessa, então, começava a dar sinais de que não passaria de um meia tecnicamente exemplar, mas incompleto, num futebol em que os craques nessa posição brotavam como num campo de centeio.
Eis que aporta no Morumbi um técnico húngaro, chamado Bella Gutman, e, na sua esteira, Zizinho, Mestre Ziza, o maior de todos os meias-armadores da nossa história, já veterano, mas ainda o mestre dos mestres. O gringo, que mal falava um português misturado com italiano e espanhol, enxergava o que ninguém até agora vira. E deslocou Dino Sani da meia para a função de volante, abrindo a vaga de meia-armador para Zizinho.
Descortinou-se um novo horizonte para o craque: partindo de trás, com a bola dominada, e tendo a clara visão do campo à sua frente, passou a distribuir passes mágicos e a furar redes da entrada da área inimiga, alcançou o primeiro título mundial para o Brasil, virou ídolo no Milan, no Boca Juniors e encerrou sua carreira, com chave de ouro já nos anos 60, no Corinthians.
Mas, qual o segredo de tão profunda e súbita transformação na vida do craque?
O próprio Dino, anos atrás, me confidenciava que seu problema como meia era a incapacidade de executar aquele drible curto, a falta de maleabilidade suficiente pra girar sobre o adversário e iniciar a armação das jogadas, esses pequenos detalhes que fazem a grande diferença. Já, como volante, pôde executar sua arte e seu engenho na plenitude.
Sintonia fina na percepção, esse, meu caro, é o grande mistério do futebol que poucos são capazes de desvendar.