
O palestrino que passou a tarde assando aquela picanha regada a muita caipirinha e birra, ao sentar diante da tv pra ver seu Verdão enfrentar o Bragantino, no início da noite, por certo, cochilou a maior parte do tempo.
Eu mesmo, que já não sou mais de churrasco, depois de uma saladinha com carpaccio e um bicchiere di vino, tive de fazer um esforço danado pra ficar de olho aberto o tempo todo.
Com seu time reserva, reforçado pelas presenças de Fernando Prass e Zé Roberto, o Palmeiras foi, assim, como direi… igualzinho à maioria. Vai e vem e vorta e tal e cousa e lousa e maripousa, até que Rafael Marques, ainda no primeiro tempo, abrisse a contagem. Abrisse e encerrasse, pois tudo ficou mesmo naquele 1 a 0 inicial.
É verdade que o palestrino do churrasco abriu os olhos, já lá pelos 25 minutos do segundo tempo, ao som da torcida aplaudindo a entrada do menino Gabriel Jesus, grande esperança verde. Outra vez, uma torcida invejável – cerca de 28 mil espectadores pra ver um jogo sem nenhuma importância desse desimportante Paulistinha, o que revela o altíssimo nível de expectativa do palmeirense para esta temporada, depois da profunda depressão dos últimos tempos.
Era a estreia do garoto de 16, 17 anos, nem sei bem, entre os titulares do Palmeiras no Parque.
Por falar em Parque, é simplesmente revoltante ler e ouvir nossos bravos e insensíveis coleguinhas da imprensa tratar o Allianz Parque como Arena Palmeiras ou coisa do gênero.
Entende-se que sejam proibidos pelos chefetes de pantão de citar o nome do patrocinador, neste tempos em que o Marketing manda nas redações.
Mas, pelo menos, preservem o Parque, que é uma atitude de respeito à ecologia, à verdade e à semântica, a ferramenta de trabalho dessa gente, embora essa turma pareça não saber disso.
Parque remete não só a um dos ícones da história do Palestra/Palmeiras – o Parque Antárctica -, como leva nossa imaginação a um cenário verde como a camisa do clube e aos espaços de diversão da infância eterna, com seus carrosséis, montanhas-russas etc. Afinal, no fundo, o futebol é isso mesmo: um parque verde de diversão.
Exatamente o oposto das arenas tão ao gosto dos nossos ignorantes comunicadores que sugerem a aridez dos terrenos de disputa entre gladiadores e feras devorando os primeiros cristãos.
Se esses cretinos querem tanto combater a violência incrustada na alma da nossa sociedade e expressa tão claramente nos estádios, comecem cuidando das palavras que é sua principal arma de desarme.
Sei bem que eles estão mais preocupados em exibir uma falsa modernidade na maneira de se expressar do que no sentido mais profundo do que dizem. Ainda hoje, ouvi de um deles anunciar o estádio da Juventus, com o sotaque mais exato do Connecticut: em lugar do latino Stadium, Steidium, capaz de fazer qualquer cidadão letrado de Turim sofrer um infarto na hora.
Ah, mas palavras o vento leva.
Nem tanto, nem tanto, amigo.
Já pensou se o Demiúrgo, na hora da criação definitiva, em vez de bradar “Fiat Lux!”, sentenciasse “Fiat Tenebra!”?
Uma só palavrinha mudada e hoje seríamos um bando de morcegos vagando num mundo de trevas.