Futebol é pra quem sabe

Tava aqui, na minha caverna do Grão Ducado de Ibiúna, assistindo à deliciosa entrevista de Robinho – o do Palmeiras – no Bate-bola da Espn, quando o craque desfiou fartos elogios a Alex, seu parceiro recente no Coritiba. E o que dizia o nosso Robinho? Que renasceu para o futebol ao seguir os passos indicados por Alex – passe rápido e certeiro, posicionamento em campo, apuro na visão do jogo, essas coisas essenciais do jogo da bola tão desprezados nas lições aplicadas de hábito pelos professores.

Lembrei, então, de uma experiência por mim testemunhada décadas atrás.

Lá pelo raiar dos anos 60, passei um Carnaval em Santos, e por lá resolvi ficar. Hospedei-me na casa da Tia Angelina, ali na Lopes Trovão, e, na cara dura, fui pedir emprego na redação da Tribuna de Santos. Recebeu-me o secretário do jornal (era assim que se chamava o editor-chefe de hoje), ninguém menos do que Geraldo Ferraz, um dos ícones da Geração de 45, casado então com Pagu, a musa da Semana de Arte Moderna de 22.

Acervo/Gazeta Press
Acervo/Gazeta Press

Como repórter de cidade, deixava a redação lá pelo fim da tarde e seguia direto para a Vila Belmiro, onde pegava o finalzinho do treino daquele que foi o maior time de futebol da história.

E dois detalhes ficaram gravados especialmente na minha memória, meio século passado.

Um deles, a determinação de Pelé, já campeão do mundo, eleito o melhor jogador do planeta e tal e cousa e lousa e maripousa. O Rei-Menino, treino encerrado, reunia alguns companheiros, dentre eles o goleiro Lalá ou Laércio, já não tenho certeza, e ficava até a noite cair de vez treinando cobranças de falta com o pé esquerdo, o que, para o destro, é simplesmente um saco.

O outro detalhe era ver o veterano e genial Jair Rosa Pinto ensinando os mais jovens a cobrar falta com aqueles mágicos três dedos que faziam a bola ganhar velocidade incrível e as mais variadas trajetórias.

Conto essas historinhas pra dizer que já passou da hora de os clubes, quando montarem suas comissões técnicas, tão e justamente repletas de fisicultores, médicos, fisioterapeutas etc., incluam nessa equipe ex-craques que possam passar os segredos da bola aos mais jovens. O resultado, por certo, seria muito mais eficiente do que todas aquelas alquimias chamadas de táticas e estratégias, que no fundo, no fundo, não passam de meras retrancas disfarçadas sob o título de futebol moderno.

4 comentários

  1. Passes são treinos, e treinos. Tanto para passes quanto para posicionamento e movimentação, por isso um time as vezes demora para entrosar, após isso, diminui os erros. Porque já sabe onde o amigo vai estar. Entendeu? E lógico que entra o cara que é craque, que é acima da média, mas tudo na vida pode ser melhorado.

    1. Caro Alberto Helena Júnior, Com muita certeza Você tem razão. Vou fazer 60 anos e os anos 60 e 70 deixa muita saudade na prática do Futebol. Sou de Porto Alegre estou em Manaus há 14 anos. Lembro naqueles anos do Meu time o Grêmio que tinha Airto, Sérgio Lopes, Joãozinho, Alcindo, Etc. TIVE A SORTE DE VER PELÉ E O RESTO DAQUELA SELEÇÃO JOGAR. Lembro ainda do Palmeiras de Ademir da Guia, do Botafogo de Gérson, do Cruzeiro de Tostão, todos com muita companhia. HOJE NÃO RARISSIMOS JOGADORES CHEGAM MUITO PERTO DAQUELES. Que saudades. Grato. João Paulo.

  2. Adorei e quase chorei de emocao ver a capa com Pele na querida e antiga
    “A GAZETA ESPORTIVA ILUSTRADA”,naqueles meus anos de menino nas
    decadas 50 e 60 eu nao perdia uma edicao e se nao tinha dinheiro eu parava
    no jornaleiro e folheava as paginas e de la eu sabia tudo de futebol e sempre
    atualizado…oxala eu pudesse entrar num arquivo de revistas daqueles tempos
    e ler de novo sobre o futebol bonito de Pele,Jair,Zizinho,Almir,Luizinho,Mauro,
    Bauer,D.Santos,N.Santos,Garrincha,Julinho e so D”us sabe quantos genios
    mais.Se houver arquivos favor me avisar.Abcs

  3. Alberto,

    acho que uma coisa não anula a outra, não? Os jogadores devem aprender os fundamentos técnicos de seu esportes, e nesse caso nada melhor do que recorrer aos que se notabilizaram nesses quesitos. No entanto, futebol é jogo de equipe; as táticas e estratégias têm o mesmo grau de importância que os fatores individuais (e sei que você também pensa assim). Por muito tempo acreditou-se no Brasil que bastaria colocar em campo os craques; o resto seguiria sozinho. Em primeiro lugar, não temos, por enquanto, mais craques (nosso melhor ainda está, a meu ver, bem distante dos principais do mundo); depois, já constatamos exemplos suficientes da superioridade dos que enfatizam o arranjo de equipe.
    De outra parte, não restam dúvidas sobre a grandiosidade de Pelé e daquele Santos, mas ficar repisando a ideia de que foram os maiores de todos os tempos, de que jamais aparecerá coisa superior, me parece, além de contraproducente, uma falácia. Não conheço nenhum campo da experiência humana em que tal discurso – o da insuperabilidade – tenha esse status. Recomendo a leitura do livro Lance de dados, de Stephen Jay Gould, que, dentre outras coisas, refuta a ideia de que no beisebol não haveria mais jogadores “como antigamente”. O futebol hoje é muito mais rápido, aguerrido, dinâmico que o do passado (não estou dizendo que é “melhor”, mas também não significa que seja inferior). Penso ser absolutamente mais difícil aparecer um Messi neste cenário do que um Pelé naquele, quando era possível parar a bola e etc (que o diga Garrincha: consegue imaginar um jogador hoje deixando a bola parada sem que aparecesse alguém trombando?). Em termos de equipe, o que você diria sobre aquele Barcelona de há pouco? Um time que conseguiu destacar-se num cenário muito mais competitivo que os de antigamente.
    Render culto aos que brilharam no passado é justo, mas absolutizar é contribuir para a cegueira dos que hoje seguem – e trabalham com – justamente o que nossos dias trazem.
    Um abraço!
    Com admiração,

    Vagner

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