A barbárie consumada

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Já contei aqui, mas como a fila anda e está sempre chegando gente nova na parada, conto de novo.

Minha primeira ida ao Pacaembu, pelas mãos relutantes do meu saudoso pai, que não gostava de futebol porque o considerava uma fábrica de fanatismo, segundo ele, o pior de todos os sentimentos humanos, foi aos 8 anos de idade, em 1949. Era o jogo final do Campeonato Paulista, o jogo das faixas, como se dizia, pois o São Paulo sagrara-se campeão, diante do Corinthians. Resultado: 3 a 3, com direito ao último gol da gloriosa carreira de Leônidas da Silva.

Era o fim da era de ouro da chamada Máquina de Costura do Tricolor, que nos anos 40 acumulara cinco títulos paulistas, dois bicampeonatos. E o embrião do Corinthians que sairia da fila de dez anos com as conquistas do bi 51/52 e o Campeonato do Quarto Centenário, em 54, pois lá estavam já Idário, Luisinho Pequeno Polegar e Nelsinho, além dos mais rodados Cláudio Cristóvão de Pinho e Baltazar, o Cabecinha de Ouro.

Os torcedores de um e de outro se misturavam tanto nas numeradas, onde eu estava, quanto nas arquibancadas de madeira ou na geral de concreto, que formavam aquela ferradura cuja base era a concha acústica, um primor de civilidade, já que destinada a apresentações de orquestras sinfônicas e coisas do tipo.

Dirá o amigo: ah, mas eram outros tempos, em que as pessoas conviviam de maneira cordial e tal e cousa e lousa e maripousa.

Ledo engano: quando jogavam, por exemplo, Corinthians e Palmeiras, a rua do Gasômetro, no velho Brás, onde, por sinal, Charles Miller fez rolar as primeiras bolas que trouxe da Inglaterra no final do século anterior, virava praça de guerra entre os corintianos da rua Carneiro Leão e os palmeiristas da Caetano Pinto. Eram paus e pedras pra todo lado.

Mas, logo a polícia chegava e os briguentos voltavam pra casa, curar suas feridas ou celebrar a vitória de seu time.

A violência, na verdade, está nas entranhas do bicho homem desde quando evoluiu da ameba primordial. E ela se manifesta ao longo da história da humanidade de várias formas. Basta um pretexto qualquer capaz de juntar multidões nas ruas, porque o covarde vira feroz gladiador no mesmo instante em que se sente amparado por uma turba, sob qualquer bandeira que lhe justifique massacrar o outro lado.

O fato é que não havia, naquela época, as torcidas uniformizadas, organizadas e preparadas para matar como hoje em dia. As gangues de rua de então se transformaram hoje em verdadeiras milícias, bandos paramilitares que estabelecem estratégias de combate e tudo o mais.

O futebol é apenas um mote, um estopim, não a razão de ser dessa violência toda. Mesmo porque o futebol sempre foi, no fundo, uma dramatização da guerra, com todas aquelas terminologias bélicas que constituem seu vocabulário comum. Uma simulação, um espetáculo pacífico destinado a substituir a guerra de verdade.

O sujeito vai ao estádio, descabela-se, grita, xinga, aplaude, e de lá sai mais leve, apesar da eventual derrota. Fez-se a catarse, o descarrego.

Sucede que essas gangues organizadas nem estão aí para as sutilezas do jogo. A maioria nem quer ver a bola rolar. Fica ali na arquibancada escolhendo suas vítimas e arquitetando planos para aniquilá-la. Só isso, nada mais.

Mesmo porque é a única forma que conhece para tentar deixar a sua marca pessoal nessa vidinha deserta e sem horizontes que lhe foi destinada.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Não é preciso ser nenhum antropólogo com PHD ou psicoterapeuta de qualquer escola pra constatar isso. Basta espiar essa turba em ação. Em cada um, está impresso na testa o estigma de uma existência sem saída. Semianalfabeto, subempregado ou sem emprego algum por absoluta falta de qualificação, sobrevivendo numa sociedade de consumo exacerbado, com tantas ofertas maravilhosas nas vitrines da vida, todas fora de seu alcance, o tráfico e o assalto nas ruas passam a ser os meios mais atraentes de subsistência, desde a mais tenra infância.

Esse pessoal se multiplica a cada dia nas periferias e favelas das grandes cidades, diante de um poder público cada vez mais falido em imaginação e ação para mudar esse cenário caótico. Some-se a ele uma elite inconsciente, preocupada apenas em amealhar seus bens de consumo, sem a mínima visão social, e eis o caldo de cultura perfeito para o crescimento absurdo da violência entre nós. Acrescente aí leis lenientes, o despreparo crônico das autoridades policiais e a incompetência dos cartolas, e o céu no nosso horizonte fica preto.

Do outro lado da trincheira, a imensa maioria da população, também carente de um ensino adequado há duas ou três gerações, reage com o único argumento que lhe resta: deixem eles se trucidarem nas ruas, nos estádios. Que se matem!

É a barbárie consumada.

 

 

 

 

3 comentários

  1. Sr. Helena,

    Acompanho há tempos seus textos, que são um oásis de bom português e bom senso.
    Acredito que, de fato, todo e qualquer problema social tem origem na educação.

    Contudo, o sintoma da violência no futebol, ao meu ver, pode ter alguns remédios:

    Primeiro, claro, uma legislação mais rigorosa nesse assunto.

    Atrelado a isso, seria loucura pensar nas torcidas organizadas como solução, e não como problema?
    Veja bem: torcidas organizadas, na essência do termo, não organizações criminosas!

    Na Inglaterra, contornou-se o problema através da identificação dos baderneiros, com auxilio, inclusive, da tecnologia à disposição atualmente.

    Portanto, imagine uma torcida organizada que, como agora, receba benefícios dos clubes.
    Contudo, uma torcida inteiramente cadastrada e identificada, inclusive na entrada do estádio, com um ingresso especial, a valores mais baixos, ou coisa do tipo. Quando qualquer tumulto ocorresse, os indivíduos seriam identificados pelas câmeras, e punidos posteriormente, seja na esfera criminal, seja no seu impedimento de frequentar os jogos do clube, a exemplo do que ocorreu na Inglaterra.

    Assim, aquele que violasse o padrão de comportamento estabelecido pelo seu clube, perderia os benefícios e sumiria dos estádios.

    Isso seria um devaneio?

    1. Não, não é devaneio, meu caro Felipe. É o básico que uma sociedade civilizada faria ou faz. O diabo é que medidas, por exemplo, como o cadastramento dos bandidos já foram feitas. Isto é: iniciou-se e caiu no vazio. Nada se faz neste país do começo ao fim, desgraçadamente.

  2. Caro Alberto Helena,

    Uma das principais causas para este caos em que vivemos está bem resumida no
    seguinte comentário de seu blog,:-……..”diante de um poder público cada vez mais falido em imaginação e ação para mudar esse cenário caótico”.
    Quando lemos artigos desta natureza a esperança de dias melhores se renovam,apesar
    de que no mesmo dia em que você o escreveu,lemos também nas manchetes dos jornais
    as barbaridades de sempre,:-
    *STF arquiva investigação sobre parlamentares;
    *Planalto se mobiliza para manter aposentadoria no Supremo aos 70 anos;
    *Assembléia aprova volta de auxílio moradia para deputados;
    *STF mantém ex-diretor da Petrobrás em liberdade;
    *Ex-presidente do BB agora empossado como presidente da Petrobrás receberá
    aposentadoria integral de R$62mil.
    Enquanto isto balas perdidas matam inocentes nas ruas ,caixas eletrônicos explodem,
    arrastões em praias e restaurantes não param de acontecer,assaltos e roubos aos montes
    e mais de 45.000 pessoas assassinadas por ano no país.
    Quem sabe um dia nossos tataranetos possam ir ao estádio ainda crianças,como você foi
    em 1949.
    Congratulações pelo texto!

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