O caos normal

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Lá pelos anos 50, surgiu uma marchinha de carnaval que fez enorme sucesso, cujo refrão era o seguinte:

Rio de Janeiro,

Cidade que me seduz

De dia, falta água

De noite, falta luz

(Hoje, o paulistano amigo poderia trocar o Rio por São Paulo nos versos populares).

Bem, naquele tempo, tudo era mais difícil. Não havia nem sombra de toda essa parafernália tecnológica que nos apoia hoje em dia. Pra fazer um interurbano, por exemplo, ligava-se para a telefonista e esperava-se uma, duas horas, antes de ser atendido pelo outro lado. Nos bondes e em muitos cinemas, os bancos eram de madeira. Como de concreto eram as gerais dos estádios – se chovia, sentava-se no molhado; sol a pino, o bumbum fervia.

Mas, a natureza nos era pródiga. A carência sempre foi da capacidade de o brasileiro se planejar. Dizia-se que éramos o País do Futuro, como nos havia cunhado o famoso escritor austro-húngaro que acabou se matando em solo brasileiro, Stefan Zweig. Mas, ninguém realmente se preocupava com o futuro, esse tempo mágico que chegaria de repente com leite e mel a tiracolo.

E assim segue o barco Brasil em águas cada vez mais rasas, em meio às trevas intermitentes e ao som da violência crescente.

Ainda adolescente, tendo mudado do Brás pro Jardim Paulista, assisti às obras de extensão da Avenida 9 de Julho para além das ruas Groenlândia e São Gabriel. Ao perceber que não haveria uma passagem de nível ali naquele cruzamento, questionei o engenheiro, um jovem com ares de senhor de engenho, a respeito. Resposta: “Ah, aqui não há movimento suficiente de carros”.

Pois há mais de meio século é um dos mais exasperantes pontos de congestionamento da cidade.

E que dizer daquele túnel da inefável Dona Marta, na Cidade Jardim, que desemboca num sinal de trânsito? É de matar de rir nosso avozinho d’além mar.

Nesses casos, há uma sutil combinação de incompetência e interesses desconhecidos.  Há fatores, porém, que escapam ao nosso controle, mas contra os quais podemos perfeitamente nos prevenir, com antecedência.

Falo dos caprichos da natureza. Não sei se fruto do tal efeito-estufa, ou seja lá o que for, o fato é que andamos experimentando mudanças no clima a que não estávamos acostumados.

É quando me volta à memória uma entrevista que fiz no Show da Noite, programa que apresentava e dirigia na TV Record na virada dos anos 70 para os 80. Foi com o Rubens Junqueira Vilella, meteorologista afamado, que acabara de desembarcar da primeira aventura científica brasileira ao Ártico.

Ele, então, explicou o seguinte: o clima normal do planeta Terra é caótico. de repente, pode nevar no deserto e os prados secarem, e assim por diante. Essa divisão do ano em estações definidas e tudo o mais é um período atípico, a que a humanidade se acostumou nos últimos, sei lá, dez mil anos, o que representa um minutinho na escala do tempo do planeta.

Segundo o Rubens, esse período estava terminando e que começaríamos a partir do novo milênio a experimentar mudanças progressivas até que um novo ciclo caótico se estabelecesse.

Obviamente, sou incapaz de avaliar o teor dessas afirmações. Mas, pelo sim, pelo não, seria ajuizado botarmos mãos à obra, desde já, para evitar o pior. O sinais estão aí.

O diabo é que, se damos um passo à frente, em seguida, vêm dois atrás.

No nosso futebol, então, essa coisa chega ao paroxismo, com essa proposta do presidente do Grêmio para que o Brasileirão volte a ser disputado no sistema mata-mata. Ideia tão retrógrada e tosca que não duvido tenha nascido na cabeça do Felipão, tido como o rei do mata-mata.

É a mentalidade do aqui e agora que continua a medrar na cabeça do brasileiro, incapaz de trabalhar em sintonia fina com seu tempo e espaço. Perceber as sutilezas das mudanças que começam a se processar e antecipar-se a elas. Buscar, enfim, as verdadeiras causas dos problemas e atacá-los com inteligência e eficácia, cuidando do presente e de olho no futuro, que um dia chega, meu.

 

 

 

 

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