
E lá se foi mais um amigo querido, o ator, teatrólogo, crítico musical, autor de telenovelas e poeta bissexto, Chico de Assis. Foi-se, desta vez, definitivamente. Sim, porque o Chico, como se fosse um de seus personagens, morreu duas vezes.
A primeira, foi logo depois do golpe militar de 64, quando o Chico desapareceu sem deixar rastros, e passou a ser pranteado pelos amigos nas mesas de bar, como um mártir do livre pensamento, durante anos. Uns diziam que fora atirado ao mar de um avião, a exemplo do deputado Rúbens Paiva. Outros, que, depois de uma sessão de tortura, morrera nos porões da ditadura e havia sido enterrado sabe Deus onde.
No dia da final do Festival da Música Popular Brasileira da Record, em 67, convidei os amigos para assistirmos o vídeo-tape em casa, ali no Alto da Boa Vista. O Chico Buarque, os baianos Gil, Caetano, Gal, Betânia, a turma do MPB-4, o Miltinho, o Ruy, o Aquiles e o Magro, o Toquinho e outros, dentre deles, o Chico Maranhão, que cometeu a imprudência de chamar a PUC inteira, o que transformou a reunião numa zorra.
Não cabia todo mundo na casa, e a rapaziada se espalhou pelo jardim, pela rua, onde casais apaixonados se pegavam abertamente, para espanto dos tão recatados vizinhos.
Quem relata com talento isso tudo é o meu chapinha Ignácio de Loyola Brandão, no capítulo A Festa, no seu renomado romance Zero, que lá estava ao lado do saudoso amigo e escritor João Antônio, de Perus e Bacanaços.
De repente, irrompe na cozinha de casa uma guerra de melancia e queijo. E quem eram os contendores? Ninguém menos do que o Toquinho e… nosso pranteado mártir, Chico de Assis, que surgira de surpresa ninguém sabia de onde.
Entre a indignação da minha mulher Lucinha pela alva cozinha bombardeado de pedaços de melancia e de queijo e a alegria de rever o amigo Chico vivo e real em sua permanente irrealidade, meu afeto balançou.
E assim Chico de Assis voltou à vida e ao nosso convívio. Dividimos a redação da Última Hora por um tempo, e para sempre os botequins da vida, até que a vida fosse mansamente nos separando. Reencontrei-o há um ano, no Teatro Maria Della Costa, durante uma das peças da Graça Bermann sobre Plínio Marcos.
E, não me surpreenderia nem um pouco, se o encontrasse de novo por aí, batucando em sua máquina de escrever, garrafa de cachaça ao lado, a cabeça repleta de ideias para dar um fim na injustiça social, como um personagem dele mesmo, um Ripió Lacraia, que se transforma feito Macunaíma, e nunca morre, pois os imortais têm essa mania de nunca morrer.
Sem querer ser chato mas, já sendo, “Perus, Malagueta e Bacanaço”.
No mais, mais um brilhante artigo.
Abraço.
Malagueta, Perus e Bacanaço,esse é o título do livro.Esqueci do Malagueta.
Abraços e obrigado.