Há muito deixei de me indignar com a estupidez humana. Mas, há pequenas coisas que me invocam. Uma delas é quando vejo na tv o sujeito assumir um ar professoral e sentenciar: “Antigamente, o futebol era assim ou assado…”
Que antigamente, cara-pálida? O antigamente no futebol brasileiro é uma longa estrada que começa lá na virada do século XIX para o XX, cheia de intercessões, vicinais, rotatórias, passagens de nível e dividida em épocas que nem sempre têm algo em comum entre si.
A que época, lugar e circunstância o amigo está se referindo?
Geralmente, o papo-clichê leva à seguinte descoberta da pólvora: hoje em dia, o futebol é mais veloz. É merrrmo?, como diria o carioca amigo.
Bem que mereceria alguma reflexão sobre o que vem a ser velocidade no futebol. Se é a correria desenfreada dos jogadores, ou a rapidez com que a bola passa de pé em pé da defesa ao ataque. Assim como é necessário estabelecer sobre que antigamente estamos falando.
Por exemplo: o futebol brasileiro dos anos 60 era mais veloz do que o da década subsequente. Voltou a se acelerar nos 80, e de lá pra cá, a transição da defesa ao ataque passou a ser cada vez mais uma linha direta entre os muitos defensores e os raros atacantes.
É que para esse colegiado de professores o passado começa nos anos 70, a partir da tv em cores e do vídeo-cassete. Antes, é um limbo, onde se escondem nada menos do que, por acaso, o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e cia. bela, além, claro, do Santos de Pelé, o maior de todos os times de futebol da história. Pois, saibam que ambos jogavam em alta velocidade, a exemplo da Seleção de 58 e tantos outros times brasileiros dessa época, como o Flamengo e o Botafogo. Isso, em campos de maiores dimensões do que os atuais, como o Maracanã, o Mineirão e o Morumbi, cobertos de grama alta, o que reduz a rapidez da bola e do movimento dos jogadores.
Aliás, mesmo o Palmeiras da Academia do Divino, tido como praticante de um futebol mais cadenciado, acadêmico, se comparado ao que se vê hoje em dia nos nossos campos, é um verdadeiro etíope em plena São Silvestre.
A bola vai e vem, assim como a moda.Só não muda o discurso dessa gente.
Quer ver outra coisa que me invoca?
É quando abrem a boca pra repetir esse lugar-comum, quando questionados se o seu time privilegia o ataque ou a defesa: “Busco o equilíbrio. Todos têm de ajudar tanto na marcação quanto no ataque”. Equilíbrio… puro eufemismo para retranca.
Antes de mais nada, que equilíbrio é esse se você posta quatro zagueiros, mais dois ou três volantes lá atrás, deixando apenas dois atacantes, no máximo e um ou dois meias?
A conta da mais simples aritmética não bate. Se são dez jogadores de linha, o equilíbrio exigiria, no mínimo, a divisão por 2: cinco defensores e cinco atacantes. Mas, um time de futebol, de fato, é composto não por apenas dois setores – defesa e ataque. Tem o meio de campo, o centro nervoso de qualquer equipe em qualquer antigamente e latitude. Assim, como dividir 10 por 3? Dá dízima periódica. Precisaríamos, então, cortar um jogador em alguns pedaços e distribuí-los equitativamente em campo.
Portanto, o equilíbrio no futebol é uma meta defendida pelo goleiro (que joga na Seleção), como cantou o poeta popular. E um engodo dos professores para esconder o medo da retranca que move seus gestos e mentes.
O que mais me invoca? Vou lembrar e depois eu conto.
Caro senhor Helena,
Desde que discordei de uma opinião sua, aqui no blog, quando fiz um comentário expressando minha ira em relação ao que lí, passei a acompanhar seus artigos e percebi que na maioria deles existe coerência, moderação, humor e, pasme, imparcialidade rara, nesse momento infeliz em que a imprensa brasileira geralmente veste uniforme de determinado time e não se importa com os demais leitores.
Por agora, parabéns!