
Mano Menezes acabou sendo espantado a sair do Itaquerão pelo fantasma de Tite, técnico campeão da Libertadores, aquele osso travado na garganta da Fiel. E, de quebra, deu o segundo título mundial ao clube. Sem falar em Recopa e outros bichos, em dois, três anos de clube.
Não é mole, meu. Acrescente-se a isso o fato de que a Fiel, essa máquina de triturar técnicos, pela primeira vez, desde os tempos de Osvaldo Brandão, endeusava um técnico – Tite, que acabou sendo expelido pelo então recém-empossado presidente Mário Gobbi, sem mais aquela.
Falei aqui de Brandão, e a moçada aí nem sabe do que se trata. Já os veteranos sabem muito bem.
Brandão foi um ex-lateral direito que batia adoidado segundo seus contemporâneos. Muito cedo, pendurou as chuteiras e passou a dirigir o Palmeiras, quando se sagrou campeão paulista no mesmo ano – 1947.
Era gaúcho, como Mano e Tite, mas com um perfil muito mais semelhante ao de Felipão, até no bigode. Alto, magro, voz de tonalidade profunda com a qual articulava uma linguagem própria, algo, às vezes, parecido com o português corrente. Entre tantas expressões, inventou o corriqueiro chegar junto, um eufemismo para baixar o sarrafo, que era o mote principal de seus times. Expressão que revela bem a personalidade mutante do técnico, ora paizão, ora sargentão; ora peitando os desafetos, ora amansando os críticos com cortesias inesperadas.
Tempos atrás, conversando com Leão, já técnico, que havia sido seu jogador no Palmeiras, ele soltou esta:
– O Brandão fazia tudo errado. E dava certo.
Até nisso lembra Felipão.
Conservador até a medula, a ponto de se referir aos jogadores pelo número da camisa, não pelo nome, vez por outra inventava uma moda.
Quando técnico da Seleção, nas Eliminatórias de 57, escalou Garrincha na ponta-esquerda. Logo Garrincha, destro de um drible só e repetitivo, que apenas sabia correr pela direita. Alguém dirá aí que Brandão foi um visionário, pois hoje em dia, isso é de lei: canhoto na direita, destro na esquerda. Então, tá.
Noutra ocasião, dirigindo o Corinthians, improvisou o centroavante nato, Geraldo José, digamos assim uma espécie de Leandro Damião de hoje, na lateral-direita, num clássico fatal com o Palmeiras, em noite chuvosa no Pacaembu. Pois não é que, já nos descontos (naquele tempo não se dizia acréscimos) do segundo tempo, Geraldo José acerta um petardo indefensável lá da intermediária, que surpreende o goleiro e o mundo?
Esse era o Brandão, crente no sobrenatural e em seus próprios dons mediúnicos, que assumiu o Corinthians em 1954, ano do Quarto Centenário de São Paulo, uma festa memorável.
O Corinthians fora tirado de uma fila de dez anos sem ganhar um título paulista por José Castelli, o Rato, ex-craque histórico do clube, que passou a vida cuidando das bases alvinegras e vez por outra assumia a equipe principal, e que deu o bi de 51/52, finalmente.
O time era o mesmo de Rato, com base nos garotos do Maria Zélia, vetusto clube da várzea paulistana, quando o carismático Brandão assumiu, em 54. Assumiu e levantou o caneco. Pois, bastou para virar deus do Parque.
Entre muitas idas e vindas de Brandão, ao longo de 23 anos, o Corinthians amargou a mais triste estiagem de títulos de sua história. E não havia técnico que resistisse à sombra onipresente de Brandão. Até que, nas suas mãos, aquele gol do Pé de Anjo Basílio quebrou a escrita, em 77, contra a Ponte, no Morumbi.
Conto essa historinha só pra dizer que qualquer outro substituto de Mano, nem que fosse o Guardiola, tão cedo conseguirá dirigir o Corinthians em paz, enquanto o fantasma de Tite rondar o Itaquerão.
É verdade que, hoje em dia, as paixões são mais extremas e breves do que nos tempos de Brandão. E a volta imediata de Tite, na atual quadra da vida do Corinthians, se não for coroada de sucesso, também poderá acabar sendo uma simples sessão de exorcismo
Concordo com vc Alberto Helena Júnior!
Mas temo que esteja certo quanto “A simples sessão de exorcismo”
Gosto muito do Titi, mas entendo que não é o melhor momento para seu retorno pois não gostaria que ele saísse com a imagem arranhada.