
Outro dia, pedi a um grande técnico brasileiro, cheio de títulos, bom de papo, que me escalasse sua Seleção Brasileira de todos os tempos. Ou melhor: dos jogadores que tinha visto em ação nos seus 53 anos de idade. E lá vieram os indefectíveis dois volantes, dois craques extraordinários de fato – Clodoaldo e Falcão. A seguir ficou se enrolando com Tostão, Rivaldo, Rivellino, Gérson, Ademir da Guia, Dirceu Lopes, Zico, Sócrates, sei lá quantos dos tantos meias geniais que o nosso futebol já produziu no período em que ele acompanhou o futebol desde menino.
Portanto, nem se tocou em craques ainda mais competentes de um passado mais remoto, como Romeu, Tim, Zizinho, Didi, Rúbens, Walter Marciano etc., o que é justificável pela idade do treinador em questão.
Estou falando de Tite, campeão do mundo e outros bichos, técnico rodado e sujeito inteligente.
Ainda ontem, conheci pessoalmente um jovem treinador, já bem sucedido, em plena celebração da volta da Ponte à divisão principal do Brasileirão: Guto Ferreira. Conversa vai, conversa vem, e colho do nosso promissor técnico o mesmo velho clichê do volante que sabe sair e do volante que apenas marca lá atrás, divisão que está encravada na mente dos nossos treinadores, coroas ou jovens, indiferentemente.
A turma não se dá conta do significado da palavra volante. Volante não fica. Volante vai e volta, vola, como determina a raiz latina. Quem fica ali atrás, protegendo a zaga, é o cabeça de área, o leão de chácara, o limpador de para-brisa, figura nascida nos finais dos anos 60, tendo como inspiração o médio italiano Trappatoni, ainda hoje técnico de futebol. e, no Brasil, o Didi do Fluminense, que Nélson Rodrigues chamava de Príncipe Etíope pelo seu porte ereto e majestático.
Num breve retrospecto na evolução da expressão volante, vale dizer que de início era chamado apenas de centromédio, nomenclatura que os gaúchos usaram até outro dia. Depois, passou a ser o médio apoiador, que restou no apoiador carioca. Em seguida, médio-volante até chegar no simplesmente volante de hoje em dia. Isso, porque, em todos os casos, o carinha ia e vinha, marcava e apoiava.
O amigo vai dizer: mas que importância tem o título? É porque a palavra é a base do pensamento. Você não pensa em números, pois eles mesmos, apesar de sua representação gráfica própria, cada um tem um nome, uma palavra que o identifica. E, se uma imagem vier à sua lembrança, automaticamente, você a transforma em palavras. O mesmo código que permite a comunicação, o entendimento, o desenvolvimento de ideias e conceitos entre nós.
Portanto, a palavra é essencial para que se coordene um pensamento. E, se o amigo deforma o sentido da palavra, leva inevitavelmente essa deformação para a construção de um conceito. Da ideia à prática, é um pulo.
Pior é quando um especialista no assunto – e aqui incluo a imensa maioria da nossa crônica esportiva – insiste nessa história do volante que sabe sair, como sendo a grande mudança do futebol atual no mundo, sobretudo no Brasil, depois de décadas do império dos brucutus, dos cabeças-de-área, dos leões-de-chácara.
Volante que sabe sair jogando é o mesmo que dizer: jogador de bola que sabe chutar uma bola. Sair jogando é inerente ao volante-volante, parodiando o zagueiro-zagueiro do Luxa.
Assim como cabe ao meia ter domínio de bola, visão de jogo, passe exato e surpreendente, capacidade de driblar o adversário e determinar o ritmo de sua equipe. Há dois tipos de meias – o meia armador, basicamente um gerenciador das idas e vindas da bola, e o ofensivo, aquele que chega para se juntar aos atacantes com características de também definir a jogada final.
O que acontece se você escalar dois ou três volantes que sabem sair? Seu time vai carecer de organização, pela falta dos meias, e passa a jogar em espasmos – de repente, sai lá de trás o volante, em velocidade, e tenta a jogada final. A bola não circula e caímos nesse bate e volta que caracteriza o futebol brasileiro. E, quando perde a bola, para evitar o contragolpe, como sua cabeça está voltada para defender, comete a tal faltinha necessária, que enche o saco de qualquer cristão, muçulmano, budista e ateu do mundo.
Ah, sim, agora virou moda também, diante do óbvio abismo entre o futebol jogado nos principais centros europeus e o nosso, repetir-se que, lá, já não se fala em volante e meias, e sim, em meio campistas. Ótimo! Só que não adiante mudar a nomenclatura se não mudar o conceito, se não soubermos diferenciar o autêntico volante do autêntico meia.
Lá, eles simplesmente estão abolindo a figura do volante que sabe sair pela do meia que ajuda na marcação, como, aliás, era aqui num passado mais distante. Basta dizer que os grandes volantes de nossa história eram meias que foram recuados, como Bauer, Zito, Dudu etc.
Então, você pega um Real, cujo meio de campo é formado por três meias típicos – Modric, Kroos e James Rodriguez -, no apoio a três genuínos atacantes – Bale, Benzema e CR7, e vê a bola rolar com ciência da defesa ao ataque o tempo todo. O Chelsea, o Barça, o Arsenal, o Bayern de Munique, todos eles, por sua vez, jogam com apenas um volante, que sabe sair jogando. E assim vai.
Enquanto isso, por aqui, a preocupação é mudar apenas as moscas, chamando-as de insetos voadores.
caro Alberto, imperdoavel não citar o mais anutentico dos meias Jair da Rosa Pinto
Mil perdões