
Tomei muita cachaça com Quinzinho, naquele bar da praça Júlio Mesquita, embaixo do prédio onde morava o Joel de Almeida, o Joel do Chapéu do Palha, o Palito Engomado, autor de tantos sucessos, formando dupla com Gaúcho, nos anos 30, ou solando marchinhas de carnaval com sua voz velada, cheia de malícia, timbre herdado do insuperável Luiz Barbosa, o inventor do samba sincopado.
E me embriagava com suas aventuras picarescas. Quinzinho era um contador de histórias inigualável.
Como? O amigo não sabe quem foi Quinzinho? Pois, lhe digo: foi um dos mais famosos marginais desta praça. Proxeneta, ladrão e arruaceiro emérito, cuja façanha maior, neste campo, foi enfrentar, mano a mano, Tonico Zumbano, o Coice de Mula, grande campeão de boxe, filho boêmio da ilustríssima Família Zumbano.
A briga ficou célebre na pacata São Paulo dos anos 50. Entre outras coisas, porque levou horas e deixou, ao cabo, o bar em ruínas.
Mas, por que estou lembrando dessas coisas agora? É só pra dizer que encaro a vida como uma grande diversão, um alegre carrossel que só tem sentido enquanto gira, gira, gira, como no tango famoso.
Pouco me importa se a diversão vem das histórias de um Quinzinho, delinquente que morreu atropelado na avenida São João, como num verso de Paulinho Vanzolini, ou de uma pedalada de Neymar ou Robinho, dois caras de conduta ilibada que me plantam o sorriso no rosto sempre que entram em campo.
Agora mesmo, Robinho acaba de abrir o placar contra o Furacão, em jogada simples e eficaz – um tiro de fora da área, na mosca.
E veio sorrindo pra câmera, com as duas mãos balançando o berço virtual de seu futuro rebento.
Robinho, como seu sucessor Neymar, são dois sujeitos de bem com a vida, que curtem se divertir e nos divertir com seu jogo imprevisível e malandro. Quase disse marginal, num futebol de cara fechada, muito chutão, faltinhas à penca, em que vencer a qualquer preço é o único e definitivo objetivo.
Para essa turminha grave, solene, cumpridora de todas as regras do politicamente correto, lembro o velho e sábio axioma: ri melhor quem ri no fim. Corrigindo: ri melhor quem passa a vida sorrindo dessa imensa e breve bobagem.