Uma das raras diversões que o futebol jogado no Brasil atualmente me oferece é a presença de Walter em campo. Não só por suas jogadas, mas também pelas reações que sua figura rotunda desperta nos nossos solenes comentaristas e narradores. Basta o gorducho, o Fino da Bola, pisar o gramado, e lá vêm os gemidos de praxe:
– Ah, se esse rapaz cuidasse do físico…
Gemidos de pena, tisnados de reprovação pelo talhe do moço. Queriam-no apolíneo, atlético, um sílfide. E por quê?
Ora, porque assim ele se movimentaria mais em campo, respondem de imediato os amantes da boa forma, como é de lei nestes tempos de longas caminhadas e muita malhação.
Peraí, gordinho como é Walter, espie só – ele e Fred, lado a lado, e agora me responda, quem se mexe mais em campo? Fred não vale? Então, pegue o Leandro Damião, no vigor de sua forma física.
Aproveite, meu amigo, e reveja o clássico carioca da noite de sábado. O Flu tentando furar a defesa do Botafogo, em vão. Era só bola alçada na área, sem falar nos dois contragolpes que poderiam ter dado a vitória ao Glorioso. Num deles, Carlos Alberto sozinho diante de Diego Cavalieri.
Até que, numa dessas, o volante Edson, de cabeça, definiu o placar a favor do Flu, logo depois da entrada de Walter.
E agora veja só o gorducho que não se movimenta, ali pela direita, aplicar aquele rodo em dois zagueiros adversários de uma só vez. Em seguida, repete a mesma jogada feita de pura malícia, percepção, rapidez de movimentos e talento nato. Caí na gargalhada diante da tv, imaginando que, se vivo estivesse mestre Armando Nogueira, com toda dor de alvinegro ressentido, mas amante perdido da beleza do jogo, exumaria de seus escritos antigos a imagem que cunhou para um certo Mané – uma jogada chapliniana. Não uma, mas duas, iguaizinhas, gêmeas, o que leva o espectador do sorriso de prazer à gargalhada da comédia pastelão.
Foram as únicas vezes em que um jogador, dentre tantos talentos do Flu, conseguiu invadir a área do Bota. Não uma, mas duas vezes, do mesmo jeitinho.
E o que dizem nossos bravos comentaristas diante disso? “Ah, se o gordinho fosse magrinho…”
Isso me remete a outro disco quebrado com relação a outro craque que também muito me diverte – Ganso.
Faz, por baixo, uns vinte jogos do São Paulo, em que ouço a mesma ladainha: “Se Ganso jogasse assim mais vezes… Se tivesse regularidade…”
Ora, se a cada jogo ele provoca esse tipo de comentário, depois de vinte repetições já não é hora de exaltar exatamente a regularidade de Ganso?
Outra sobre o Ganso é aquela que sentencia: “No futebol moderno não cabe um jogador que dá apenas dois, três passes geniais por jogo”. Bem, se não me falha a matemática, em vinte jogos, são quarenta ou sessenta passes geniais. Levando-se em conta que 99 por cento dos modernos jogadores de futebol não acertam um passe genial ao longo de toda a carreira, o amigo não acha que está na hora de mudar o disco?
Dizem que Ganso, por ser lento, e Walter, por ser gordo, não podem jogar no tal futebol de hoje. O diabo é que eles jogam. Melhor do que a maioria. E é essa contradição que a grave Turma do Disco Quebrado não pode aceitar, pois isso foge aos limites de sua compreensão, moldada e balizada pelos padrões vigentes.
O diferente não só é incompreensível como assusta. E o susto provoca a repulsa, processo que está no cerne do preconceito; ou se preferirem do pré conceito; isto é: o que precede à reflexão.
Se o amigo duvida, pergunte ao filho de seu vizinho, aquele rapaz que cursa o primeiro ano de Psicologia.
Grande mestre Alberto Helena Jr, verdadeiramente genial.
Cerebral texto do Helena. Parabéns.