
Você já deve conhecer aquela do Freitas, mas sempre vale a pena contar de novo.
Pois o Freitas era a retidão em pessoa. Por isso mesmo, um tipo remediado, quando não se quer chamar um sujeito de pobre. Não dava um passo fora da linha, nem mesmo quando, certa madrugada, vagando sozinho por uma rua deserta do velho centro de São Paulo, deu de cara com uma mala cheia de dinheiro vivo. Coisa de 2, 3 milhões de dólares. Ele nem se deu ao luxo de contar – entrou na primeira delegacia e anunciou o achado, que, por sinal, era roubado, fruto de assalto a um banco estrangeiro que mobilizava toda a p0lícia brasileira de norte a sul, sem falar na opinião pública.
Espantado e encantado com o gesto do Freitas, o delegado chamou a imprensa que, em peso, passou a estampar o feito e o rosto do Freitas para o mundo todo. Apareceu no Jornal Nacional durante uma semana inteira; deu entrevista ao Jo Soares; o Fantástico contou sua vida, tintim por tintim, enfim todo aquele auê de praxe, com o Freitas sendo tratado como o mais digno exemplo do brasileiro pobre mas honesto.
Passados dez anos, eis o Freitas esperando condução num ponto de ônibus. Ao seu lado, um pouco distante, dois cidadãos. Um deles, espia o Freitas e comenta com o outro:
– Conheço esse cara não sei de onde.
– É mesmo. Deixe ver. É o Freitas, cara!
– O Freitas?
– Sim, aquele sujeito que anos atrás se meteu num assalto a banco e saiu com dois, três milhões de dólares no bolso.
– O que será que ele está fazendo aqui parado? Esperando o ônibus não é, por certo. Deve estar armando algum golpe milionário. é melhor a gente avisar a polícia.
Essa é a historia do Freitas, que, naquele dia, passou a noite na cadeia, tentando explicar às autoridades que era um cidadão pobre mas honesto.
Claro que a moral dessa velha anedota é exagerada em relação ao que quero tratar aqui, agora. Vale apenas para mostrar como os fatos históricos e a imagem das pessoas mudam com o tempo, na velha tradição do boca a boca.
Por exemplo. Ontem, estava posto na poltrona de couro assistindo ao Redação Sportv, do meu queridíssimo André Rizek, quando a pauta cai na figura de Cruyjff.
Carlos Eboli, jovem, competente e bem articulado comentarista, que ouço sempre na CBN, atribui, então ao craque a invenção do Carrossel Holandês de 74, sistema que teria levado para o Barça, sêmen do estilo que notabilizou o time catalão nos últimos anos.
Não foi bem assim. Claro que Cruyjff, em campo, era a personificação do chamado Futebol Total, que levou seu verdadeiro criador, o holandês Rinus Michels, a ser eleito pela Fifa como o técnico do século XX. Michels foi o técnico do Ajax de Cruyjff, da seleção holandesa de 74 e do Barça, para onde levou tanto o craque famoso quanto Neskeens, por exemplo.
Mas, se formos mais fundo nessa questão, surgirão dois nomes que precederam Michels na construção do célebre carrossel: Jack Reynolds, que foi técnico do craque Michels, nos anos 40, no Ajax, e, mais tarde, o romeno Stefan Kovacs, que precedeu Michels no mesmo Ajax na virada dos anos 60 para os 70.
Já dizia Einstein que o segredo da invenção é não revelar as fontes.
Por isso, a história está repleta de inventores de obras feitas, quando, na verdade, elas nunca se completam, nessa transmissão de conhecimentos interminável que é a vida do homem sobre a terra. Ainda mais quando sua história é contada no boca a boca.
Alberto Helena, ganhou mais um leitor, ótimo texto!
abs