
Foi um clássico de fazer Sir Winston Churchill levantar-se do túmulo, acender o charuto, sorver um gole de puro malte e bradar : “Sangue, suor e lágrimas, macacada!”
Bem, sangue, sangue mesmo, não rolou; mas, suor e lágrimas inundaram o gramado do City, no feroz clássico de Manchester. Contudo, não faltaram técnica, habilidade, belos lances e grandes defesas dos dois goleiros – Hart, de um lado, e De Gea, de outro.
Belos lances? Pego assim no ar dois exemplos típicos.
O primeiro deles, aquele passe de Touré para Clichy cruzar e Aguero fazer o único gol da partida. Passe revestido de tanta sabedoria sobre os segredos da bola que ganha traços da mais singela simplicidade. O segundo, aquela arrancada de Wayne Rooney, que comeu meio time adversário e, por um mínimo detalhe, no gesto final, o gol de empate ficou congelado na zona do simplesmente provável.
Citei esses dois lances entre tantos de alta categoria desenhados ao longo da partida apenas para destacar essas duas figuras excepcionais do futebol atual: Yayá Touré e Wayne Rooney, dois craques que aliam a uma técnica esmerada a máxima do inventor do V da vitória: sangue, suor e lágrimas.
Touré não é apenas o maior volante do planeta. É, simplesmente, o mais completo jogador de bola do mundo, pois é capaz de jogar no mesmo altíssimo nível de zagueiro a atacante, passando pelas três posições do meio de campo.
Diria que Touré é um camaleão em campo. Pelo porte avantajado, parece lento. Mas, vá pegá-lo quando arranca com a bola colada aos pés lá de trás. O mesmo tamanho e os gestos pensados sugerem a falta de habilidade para se livrar do adversário quando de costas para o gol, lá na frente. Mas, espie só esse drible a la Careca ou Pagão (quem não viu, azar), tocando de calcanhar para contornar o beque e quase fazer o segundo gol.
E que falar da visão de jogo, que lhe permite descobrir companheiros insuspeitados nos lugares mais propícios, em jogadas de alta velocidade, que exigem rapidez de raciocínio e reflexos perfeitos praticamente impossíveis para os demais mortais?
E Rooney é a personificação acabada do cokney, o garoto sardento, ruivo e encrenqueiro das ruas do Eeast End da Londres da virada do século XIX para o XX. Atira-se ao jogo, qualquer que seja, como se fosse uma pelada de ruas rivais, gangue contra gangue, mas sabe tratar a bola como poucos. Defende, arma e ataca. É arco e flecha ao mesmo tempo e rega o solo de Manchester com suor, lágrimas e, muitas vezes, com o próprio sangue, a cada rodada.
E assim se conta um clássico que teve tantos outros heróis, como os dois goleiros já citados, o artilheiro argentino Kun Aguero, Fellaini de múltiplas funções, Van Persie, Di Maria, Clichy etc. E um vilão, o zagueiro Smalling, expulso ainda no primeiro tempo, o que fez seu time se desdobrar não apenas para evitar o vexame como também para tentar o alívio do empate em circunstâncias tão adversas.
E quase conseguiu, diga-se.