Edu, só observando…

Rafael Ribeiro/CBF
Rafael Ribeiro/CBF

Quando perguntado, certa vez, se era um jogador completo, Pelé respondeu no ato:

-Gostaria de ter a habilidade do Edu.

Edu, o Eduardo Jonas que acaba de assumir o cargo provisório de observador de Dunga na Seleção, realmente, era um virtuose da bola. Do jeito que a bichinha vinha, faceira ou vesga, morria em seus pés; e tirá-la dali era tarefa ingrata para qualquer marcador. Drible fácil com a canhota, cruzamento exato e chute colocado fizeram de Edu, um, autêntico ponta-esquerda, o mais jovem jogador brasileiro a ir a uma Copa do Mundo. Com 16 anos, foi à Inglaterra, mas não jogou, por receio do técnico Feola de escalar um garoto tão imberbe. Um ano a menos do que Pelé, quando da Copa de 58.

Foi titular absoluto daquele ataque arrasador do Santos (um dos tantos nas décadas de 50/60) formado por Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Edu. Assim como o foi na campanha sensacional das Eliminatórias para a Copa de 70, entre as Feras do Saldanha.

Mas, com a entrada de Zagallo no lugar de Saldanha, caiu para terceira opção, atrás de Rivellino e Paulo César Caju. Fato que se repetiu em 74. Afinal, Zagallo estava atrelado até à morte ao seu esquema com o ponta-esquerda recuado, coisa que não fazia parte do repertório de Edu, um extrema decididamente ofensivo e driblador, desligado dessas sutilezas táticas.

Eis por que me surpreendeu sua intervenção num momento crítico da Seleção na Alemanha, em 74.

Na época, por aqui, ninguém conhecia o futebol holandês, a grande sensação na Europa, com o Ajax, o Feynoord e a seleção já apelidada de Laranja Mecânica, referência ao filme futurista de grande sucesso naqueles tempos sob direção de Stanley Kubrick. Juntava-se, então, a cor laranja do uniforme (homenagem à Casa Real D’Orange da Holanda) com a mecânica inusitada do time.

Zagallo, então, escalou o preparador físico Paulo Amaral para ser o olheiro dos holandeses que haviam trucidariam o Uruguai de Pedro Rocha, Forlan, o pai, Cubilla e cia..

Todos os jornalistas esperavam Paulo Amaral na boca da concentração na Floresta Negra, quando ele chegou com um maço de papéis onde anotara os movimentos de cada jogador e do coletivo da Holanda.

As explicações eram tão confusas como a compreensão de Paulo Amaral sobre o que acabara de ver em campo. A tal ponto, que, a certa altura, jogou os papéis para o ar, e desabafou naquele seu estilo franco:

– Querem saber? Não entendi nada!

Quando Zagallo apareceu, perguntado se sabia como jogavam os holandeses, saiu-se com, esta:

– De tamancos, ué!

Pois bem, uma das características da revolução laranja era aquela defesa adiantada, formando uma linha de impedimento já a partir do meio de campo, onde caíam no logro não um atacante adversário, mas vários.

Armou-se ali uma rodinha de jogadores e jornalistas pra discutir o assunto. Lá estavam, se bem me lembro, o Luís Pereira, o Alfredo Mostarda, o Leivinha, o Rivellino, cada um palpitando a respeito da melhor forma de travar o tal Carrossel Holandês, Edu, que a tudo assistia calado, e aparentemente desatento, como se tentando lembrar a letra do samba preferido, aproximou-se e deu a senha:

– É só dar um chutão pra frente que o Edu vem de trás e, pimba!, gol do Brasil.

Fácil, simples e funcional, como os trejeitos mais sofisticados que Edu dava à bola nos seus quase vinte anos de praia.

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