O que muda e deveria mudar no Brasil?

Rafael Ribeiro/CBF
Rafael Ribeiro/CBF

O corte de Maicon foi um firme aviso de que a Seleção de Dunga e Gilmar não aceitarão deslizes. E uma chance para Danilo, lateral-direito do Porto e ex integrante daquele Santos que encantou a todos no primeiro semestre de 2010 ao lado de Neymar, Robinho, Ganso, Wesley, Arouca e cia.

É jovem e sabe cumprir as duas funções de um lateral – marcar e atacar – com eficiência, e já estava merecendo essa oportunidade.

Com a saída de David Luís por lesão e a consequente entrada de Marquinhos (o mais absurdo e inexplicável negócio do Corinthians nos últimos decênios, diga-se), muda-se toda a linha defensiva do Brasil em relação à que atuou durante os últimos quatro anos, do goleiro ao lateral-esquerdo. Uma novidade imposta pelas circunstâncias e não por vontade própria do treinador Dunga.

De qualquer jeito, vale medir o resultado disso diante do Equador, que num passado distante era um saco de pancadas de brasileiros, argentinos e uruguaios, mas, que há um bom tempo anda praticando um futebol, no mínimo, respeitável.

Todavia, o que eu gostaria mesmo de ver nesse amistoso desta terça-feira seria o aproveitamento desde o início da dupla cruzeirense de tanto sucesso nos dois últimos Brasileirões: Everton Ribeiro, armando, e Ricardo Goulart, espetando.

É curioso como os técnicos brasileiros, desde sempre, se negam a aproveitar na Seleção setores já consagrados nos clubes.

Remontando à Copa de 38, vale lembrar o técnico Ademar Pimenta, que preferiu desfazer as duas alas esquerdas (chamavam-se alas as combinações entre os meias e os pontas) já montadas e importadas de seus respectivos clubes.

No caso, Perácio e Patesko, do Botafogo, e Tim e Hércules, do Fluminense. Pimenta preferiu escalar Perácio e Hércules, ao dividir seus vinte e dois convocados em time leve e time pesado, uma invenção esdrúxula, claro. Perácio e Hércules pertenciam ao time pesado.

Pelé e Cotuinho, a mágica tabelinha do maior time de todos os tempos, quantas vezes atuaram juntos na Seleção? No máximo, uns cinco jogos em dez anos de parceria.

E a mítica dupla Dudu-Ademir da Guia? Assim de cabeça, não sou capaz de lembrar nenhuma. E eles reinaram no meio de campo do futebol brasileiro por mais de uma década.

Dirceu Lopes-Tostão… quando Saldanha  tentou comprimir os dois no meio daquele time excepcional de 70, caiu do cavalo.

A propósito, o meu primeiro contato com João Saldanha quase terminou em porrada no meio da rua Barão de Limeira, em frente à Folha. Na época, eu exercia as funções de diretor de redação interino da Última Hora, e Saldanha acabara de assumir a Seleção e saiu por aí exaltando as suas Feras.

Ao escalar sua Seleção, baseada nos três melhores times do Brasil na época – Santos, Cruzeiro e Botafogo – Saldanha anunciou assim a sua defesa titular: o saudoso Cláudio, goleiro do Santos; Carlos Alberto Torres (Santos), Brito (Vasco), Djalma Dias (Santos) e Rildo (ex-Bota, já do Santos).

Como ele também convocara Joel, que fazia dupla de zaga com Djalma Dias no Santos, perguntei-lhe qual a justificativa para a intrusão de Brito na defesa inteiramente peixeira, que jogava por música.

Resposta: Brito era mais versátil do que Joel Camargo, pois tanto atuava pela direita quanto pela esquerda. Meu Deus, respondi, mais versátil do que Joel Camargo, que atuava como zagueiro, lateral, volante e até atacante?

Então, você escala a sua seleção que eu escalo a minha, completou arrevesado Saldanha. E o pau quase comeu, não fosse a intervenção do pessoal em volta.

Fim da história: durante todas as Eliminatórias da Copa de 70, jogou a minha Seleção, com Joel no lugar de Brito, e Saldanha e eu nos tornamos amigos fraternos até o dia de sua morte.

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