Choque-Rei feito de sonhos

Fernando Dantas/Gazeta Press
Fernando Dantas/Gazeta Press

Durante os momentos mais tediosos do clássico, deixei a memória vagar em direção ao meu primeiro Choque-Rei. E foi, realmente, um choque: a comprovação do que já andava desconfiado – Papai Noel não existe.

Explico e peço a paciência do amigo para acompanhar essa historinha do menino que acabara de completar em novembro de 1947 seis anos de idade. Na escolha do presente de aniversário, de mãos dadas com meu pai, passeava pelos corredores das Casas Pirani, uma das primeiras lojas de departamento de São Paulo, instalada ali na avenida Celso Garcia, num prédio construído pelo meu avô materno, o espanhol José Sanz Duro, comunista e muquirana, justamente ali onde ele montara, no início do século 20, sua mercearia.

Eis, que, de repente, deparei com uma engenhoca nunca antes vista. Era um caixote retangular de madeira, com dobradiças no meio e duas alças de coro nas extremidades – era a imitação de um campo de futebol, cortado por oito varetas que sustentavam bonequinhos se enfrentando no velho sistema: goleiro, dois zagueiros, três na linha média e cinco atacantes. Os bonequinhos de um lado, ostentavam as camisas do Flamengo.; do outro, do Vasco da Gama, o Expresso da Vitória.

Vidrei! Pai, quero isso. Mas, será que dá pra mudar as camisas? Nem pensar, é muito caro, respondeu o velho, depois de confabular com o Luís Pirani, um dos donos, seu amigo.

Tive de me contentar com um engenhoso relógio do Dick Tracy, detetive herói dos quadrinhos, que projetava imagens de suas aventuras na parede escura debaixo da escada do sobradinho em que moravámos na rua Costa Valente, antiga Progresso, no velho Brás dos italianos. Mas, mantive na lista de pedidos para Papai Noel aquela geringonça que soube chamar-se pebolim. Pra nós, pimbolim, pois era pimba no bolim.

Batem os sinos, sinos pequeninos! O Natal chega um mês depois. E, no fim da tarde da véspera, saio de casa, e com que cena me deparo? O meu pai retirando do porta-malas do seu Chevrolet Club Coupé cinzento, aquele de rabo ondulado, um pacotão que, de cara, identifiquei como sendo o sonho realizado.

Então, era o que eu já desconfiava: o Papai Noel era mesmo o papai Alberto.

Não importava, o que importava era aquele presente. Aberto, com sua grande surpresa: um time, vestia a camisa tricolor do São Paulo; o outro, o verde do Palmeiras. O velho havia pedido para que mudassem as cores das camisas. E, como nos anos 40 Palmeiras e São Paulo disputavam sozinhos o título paulista (não havia campeonato brasileiro nesse tempo), já que o Corinthians amargava sua primeira longa fila de estiagem, dez anos sem títulos, de 41 a 51, meus olhos se abriram para o meu primeiro Choque-Rei

Os ouvidos havia muito estavam ligados ao rádio e aqueles nomes escritos às costas dos bonequinhos já me eram familiares a ponto de detectar algumas imprecisões. Por exemplo: o uruguaio Gonzales, crioulo bom de bola, que teve seu auge no Flamengo e depois virou técnico, já não estava mais no Palmeiras, e Barrios, o paraguaio reserva de Luisinho, já havia sido barrado por China.

Mas, que moleque chato! Já aos seis anos, implicando com esta ou aquela escalação. Fico imaginando, então como seria o PVC nessa idade.

Bem, o fato é que não desgrudava daquele brinquedo, dia e noite, jogando sozinho, mesmo depois de meu irmão mais velho, Cyro, ter quebrado uma das varetas, de saco cheio da minha obsessão  Disse que foi sem querer, coisas de irmãos. Remendei com esparadrapo e bola que rola.

Dois, três anos depois, comecei a frequentar os estádios, e pude colher uma série de memoráveis encontros entre Palmeiras e São Paulo. Mas, a primeira é que fica: campinho de bonecos de madeira chutando uma bolinha de pingue-pongue, impulsionados, sobretudo, pela imaginação de um menino que se perdeu no tempo.

 

 

 

 

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