Pato e Ganso. Chupins!

Só talento não basta no futebol de hoje. É preciso aplicação, entrega, participação, o tempo todo.

É só o que ouço e leio dos nossos comentaristas, sobretudo, quando se referem a Ganso e Pato, dois dos raros talentos que ainda sobrevivem em meio à horda de disciplinados e heroicos legionários do futebol de hoje.

É como se Einstein fosse aquele idiota de língua pra fora da foto histórica, que não tivesse provado por A mais B, por 2 mais 2, que passado, presente e futuro são convenções que não  obedecem necessariamente às leis da física e da matemática.

Não há hoje nem ontem, no futebol, a não ser o maior preparo físico dos jogadores, os equipamentos moldados em materiais mais convenientes, gramados bem aparados, essas coisas. O jogo e a alma do jogador sempre foram os mesmos porque o homem só muda na aparência e o futebol, nos últimos cem anos, apenas ganhou alguns raros acessórios na regra, como, por exemplo, o impedimento de o goleiro pegar com as mãos bola atrasada com os pés por um companheiro, o avanço da linha do impedimento e os três pontos por vitória.

Acervo/Gazeta Press
O meia-esquerda Jair Rosa Pinto (esq.), jogador do Palmeiras, comemora gol contra o São Paulo do goleiro Poy no Estádio do Pacaembu durante partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo de 1950 (Foto: Acervo/Gazeta Press)

A respeito da eterna polêmica entre o craque talentoso e o atleta obediente, para dizer que não se trata de problema do futebol de hoje, lembro uma cena da minha infância, coisa de mais de mais de 60 anos atrás.

Lá na antiga Rua Progresso, hoje Dr. Costa Valente, no Brás dos Italianos, menino de 7, 8 anos de idade, gostava de me acercar da rodinha dos marmanjos que se formava na esquina da Rua Coimbra, em frente ao bar da Dona Lilí, só pra ouvir as discussões sobre futebol.

Naquele fim de tarde, Jair Rosa Pinto, o Coice de Mula, era o tema central dos debates.

– Um chupim! Não dá. O sujeito não corre dez metros, não marca, só fica ali no meio de campo chupando o sangue dos companheiros – esbravejava um palmeirense rotundo, indignado pela derrota do seu time para o Corinthians na véspera.

Meu saudoso e gozador primo Heitorzinho,  astro do Estrela do Brás, fosse como goleiro, fosse como centromédio ou centroavante, rebateu em cima:

– Não corre porque não precisa correr. Com ele, é a bola que corre. Cada passe, cada lançamento é meio gol. Além do mais, é um prazer ver o Jair jogar.

Pra quem não sabe, Jair Rosa Pinto, um caboclo magrinho, de bigode fino, pés pequenos e pernas que eram dois fios de arame, canhoto, reinou por dez anos na meia-esquerda da Seleção Brasileira, inclusive na Copa do Mundo de 50.

Quando moço, ainda se infiltrava com a bola dominada e fazia muitos gols. Já veterano – depois de ter sido revelado pelo Madureira, ao lado de Isaías e Lelé, passou pelo Vasco, pelo Flamengo de onde, dizem, saiu sob apupos da torcida que queimou sua camisa nos portões da Gávea -, passou a ser no Palmeiras (e, depois, no Santos) um meia-armador cerebral, cujo raio de ação não excedia os dez metros.

Fazia lançamentos de 20, 30 metros com uma exatidão de pasmar, muito antes de Gérson. E seus dribles resumiam-se a  curtos elásticos sobre o marcador, o suficiente para abrir o espaço necessário à execução de seus passes mágicos.

Ah, sim, e nas cobranças de faltas era assombroso: a bola partia feito bólide, fazendo zigue-zague no ar até enganar o goleiro. E, ai, daquele que metesse a mão na bola…

Certa vez, num paulistas e pernambucanos (naquele tempo, havia o campeonato brasileiro entre seleções dos estados), em tarde de muita chuva, o goleiro Arizona atreveu-se a defender uma falta cobrada por Jair lá do meio da rua. A bola e o travessão fizeram um sanduiche da mão do goleiro, que saiu de campo direto para o hospital.

Como se vê, meu amigo, Não há nada de novo sob o sol do futebol. Assim como da vida.

3 comentários

  1. Helena, é o como eu lhe falei num de seus posts anterior, nossos “professores” preferem privilegiar o “esquema tático” em detrimento ao talento puro e nato, infelizmente…

    Neste futebol moderno(?) tão propagado pelos “professores” é mais importante destruir do que criar, evitar do que realizar, defender do que atacar, uma coisa tacanha, ranheta que parece tudo, menos futebol!

    Com isso o que acontece? O talento, o craque nato, e aqui nem me refiro ao CRAQUE com letras maiúsculas, aquele consagrado pelas façanhas e pelo tempo, mas aquele que nasce com um centelha diferente, que trata a bola com o carinho natural que ela merece, esse acaba sendo rotulado como chupin, lento, dorminhoco, etc, etc, justamente por que? Porque para ele quem deve correr livremente pelo gramado é a redonda, não ele!

    Mas esse ser, o talento, que é quase um extraterrestre no tal futebol moderno(?), ele de fato não pertence à esse esporte(?) de pega, pega… marca, marca… cerca, cerca… volta, volta… rsrsrsrs… Ele não pertence à esse espetáculo deprimente, por isso, é visto como um estranho, pois isso para ele de fato é estranho toda essa correria desenfreada, todo esse suor empregado no futebol moderno(?) seja hoje ou em qualquer tempo!

    Já um Osvaldo, um Ademílson, um Douglas, um Romarinho, um Jorge Henrique, enfim, meros “corredores/cumpridores de tarefas/marcadores de lateral/jogadores táticos/etc/etc” são mais valiosos que um Pato, Ganso, Geovânio (já no banco do Santos!), entre outros, infelizmente… meeeeeeu Deus!

  2. Não existe esse papo de futebol de “hoje”. Futebol só vai ser diferente se e quando alterar algumas regras, tipo acabar com impedimento, poder pedir tempo como no vôlei e basquete, ou outras regras que façam mudar a forma de se posicionar e jogar. O que existe é só uma fissura por preparo físico esquecendo que futebol é arte. Craque é craque e pereba é pereba. Não que Ganso e Pato sejam de se exclamar “Ohhhhh…” mas são acima da média dos tratores que cavalgam pelo campo e quando roubam a bola invariavelmente erram o passe e começam a correr feitos cavalgadura tudo de novo. Dunga por exemplo. Basta ter técnico, veja bem eu disse técnico estrategista, que saiba equilibrar uma equipe e pronto, o craque tem mais é que poupar suas energias PARA ATACAR, no máximo pressionar a saída de bola do adversário, o resto é papo de cagão que por ter tanto medo de levar gol esquece que só se ganha fazendo gols, quanto mais melhor.

  3. Na lei ZICO no maximo 20 empresarios ,na lei PELE no minimo 260 empresarios.O torcedor ama o clube e nao empresarios e jornalista empresarios que criaram esta lei sem ouvir o clube e o torcedor,abrçs.

Deixe um comentário para Milton T.Bastianello Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *