Olho na moçada, gente!

AFP
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Essa gente nem tá aí. Falo dos cartolas, técnicos, jogadores em geral e a tv que paga a festa. Essa turma toda não percebe, ou finge não perceber, que, com esse futebol murrinha praticado por aqui, está cevando um futuro negro para o Brasil.

Quando o amigo assiste, nas manhãs de sábado e de domingo, jogos dos campeonatos alemão, inglês e espanhol, principalmente, as tardes e noites brasileiras do fim de semana parecem transcorrer lânguidas e longas, como se projetadas em tediosa e repetitiva câmera lenta.

Não é à toa que se multiplicam por esse Brasil afora torcidas organizadas, via Internet, de Bayern, Barça, Real, Manchester (ambos), Liverpool, Arsenal, o diabo a quatro. São jovens, que, graças aos canais pagos, descobriram que há lá fora um jogo sedutor, pleno de emoções, gols e jogadas rápidas, de efeito, gostoso de se ver, chamado futebol. Exatamente o oposto do que, aqui, chamamos também pelo mesmo nome.

Ah, mas a cultura no Brasil é outra, responderá com ar solene o sábio de botequim. Que cultura, cara-pálida analfabeto em futebol e outras artes?

Cultura, como sugere a própria palavra, é dinâmica, uma rede de informações que começou a ser tecida nos nossos gramados há cem anos e segue em frente, formando novas tramas até o fim dos tempos. Cultura é cultivo, conceitos e visões que são semeados num determinado momento da história, florescem e morrem quando nova semente começa a dar frutos. Algo parecido com tradição, que, ao contrário do que muita gente pensa, não é um feixe de causos e costumes congelados no tempo. Tradição é transição, passagem, como as histórias contadas ao pé do fogo pelos anciãos da tribo, que a cada geração ganham novos personagens, novas cenários, novos ingredientes dramáticos, cômicos ou trágicos.

A fila anda, meu. E, na fila em direção ao futuro, o futebol brasileiro vai cada vez mais ficando pra trás, só não vê quem não quer, ou, então, os que levam vantagem com a permanência desse status enquanto estiverem no centro das ações.

Pegue o amigo o discurso de posse de Felipão no Grêmio, duas semanas depois de ter sido culpado pela maior catástrofe da história da Seleção Brasileira em todos os tempos, e, como prêmio, receber uma indenização de 4 milhões de reais. Repetiu que nada tem a aprender em matéria de futebol e que só é condenado pela vergonha nacional na nossa Copa do Mundo pela imprensa. Os 10 a 1 para a Alemanha e para a Holanda são meras abstrações. Ou, simples episódios do futebol que poderiam ocorrer com qualquer um em qualquer momento.

Então, tá. Então, fica tudo desse mesmo jeitinho. Não há nada para mudar com vistas ao futuro, pra não dizer o presente. O futuro, aliás, não há: só o passado dos tantos títulos pelo Grêmio, pelo Palmeiras, o penta mundial e tal e cousa e lousa e maripousa.

A paixão dos jovens

Por falar em passado, deixe-me fazer um corte e perguntar ao amigo se ele sabe como e por que nasceu a Jovem Guarda, aquele movimento musical que projetou no cenário artístico figuras como Roberto Carlos, Erasmo, Vandelea e tantos outros, abrindo as portas do Brasil definitivamente para o rock e demais breguices que até hoje assolam nossa cultura.

Pois, foi assim. Naquele início dos anos 60, as tardes de domingo eram tomadas pelo futebol, com a Record puxando o barco, e a Tupi no seu encalço. Mesmo porque a Record dos Carvalho havia inovado as transmissões, entre outras coisas, quando o Tuta, filho do dono e diretor de tv, teve a brilhante ideia de instalar uma câmera à beira do gramado. Menos para colher detalhes do jogo e mais para interagir com o público nas arquibancadas, gerais, numeras e tribunas do estádio.

Certa tarde, na varredura da câmera indiscreta, eis que surge a cena fatal: um alto e poderoso cartola, ao lado de sua amante, na tribuna de honra. Quando o indigitado cartola chegou em casa, foi aquele escarcéu – a legítima esposa havia assistido a tudo pela televisão.

Resultado: na segunda-feira, a Federação determina o fim das transmissões ao vivo dos jogos de futebol, sob o argumento de que a tv roubava público dos estádios, numa época em que os clubes só viviam das contribuições dos sócios e das rendas das bilheterias dos estádios. Não existia patrocínio nas camisa, a tv não pagava um tostão de direitos, nada disso.

Correndo pra tapar o buraco da programação da Record, Paulinho de Carvalho e seu irmão Tuta bolam uma saída emergencial: um programa musical feito para os jovens, que eram o grande público do futebol na tv, a partir do sucesso em disco de Splish, Splash, na voz Roberto Carlos.

E não é que a coisa pegou? De tal forma, que praticamente toda uma geração de jovens deixou o futebol pra lá e se agarrou às guitarras e baterias com paixão desmedida.

Meu medo é que se a turma insistir em ficar parada no tempo e no espaço, num futuro não muito distante, as crianças que hoje começam a abrir os olhos para o futebol, logo, logo, serão adolescentes fanáticos pelo Bayern, Manchester, Chelsea, Real, Barça etc.

Afinal, o jovem gosta de movimento. Aliás, os velhos também.

Vamos, pois, mexer essas cadeiras. Caso contrário, nosso futebol dança de vez, enquanto eles lá fora cantam de galo, à custa de nossa incompetência. E o pior: tocando os instrumentos que nós mesmos inventamos e jogamos fora, em nome de uma modernidade que não passa de atraso.

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