O machismo ainda existe no MMA?

Após dois anos que o blog fez uma matéria sobre o machismo com as mulheres, novamente voltamos a abordar o tema.

Novamente procuramos profissionais do meio para falar sobre o assunto em uma semana especial.

Atletas, jornalistas, profissionais envolvidas com o esporte entre elas, a apresentadora dos programas da TV Gazeta, Gazeta Esportiva e Mesa Redonda, Anita Paschkes que deu sua opinião sobre o assunto, nos ajudando a ampliar a reflexão acerca do tema escolhido.

Antes das versões de nossas convidadas, vamos retratar um pouco sobre uma figura importante do esporte: Ronda Rousey, estrela do evento que acontece neste sábado na Austrália.

A lutadora americana tem feito uma verdadeira revolução no esporte e se tornou uma grande referência acerca do assunto.

Com um discurso considerado feminista, a lutadora além de conquistar fãs, chamou a atenção da cantora americana Beyonce, que fez uma homenagem a atleta.

“Eu tenho esse termo para o tipo de mulher que minha mãe me criou para não ser. E eu chamo de ‘do nothing bitch’ (garota que não faz nada, vad…). São tipo garotas que só tentam ser bonitas e querem alguém que cuide delas. Acho isso engraçado, quando as pessoas dizem que meu corpo parece masculino, ou algo assim, eu digo: ‘ouça: só porque meu corpo não foi desenvolvido para ter relações sexuais com milionários, não significa que seja masculino. Acho que é feminino e casca grossa, porque não tem um músculo no meu corpo que não tenha um propósito, porque não sou uma ‘do nothing bitch”.

Porém o crescimento da popularidade de Ronda não parou por aí.

Milhares de participações na TV, entrevistas, comerciais entre outras ações, promoveram Ronda ao posto de principal estrela do UFC.

https://www.youtube.com/watch?v=qI2YwwTDr5w

A atleta além de atrair muitas oportunidades de negócios, também soube transformar o MMA feminino.

Com suas performances dentro e fora do octógono, sua atitude e carisma fez Dana White, Presidente do UFC mudar de idéia e acreditar fielmente no sucesso das mulheres no esporte, após a luta com Miesha Tate no extinto Strikeforce.

https://www.youtube.com/watch?v=QAXxrRfmkqM

https://www.youtube.com/watch?v=nl1yrrUOWnw

A luta com Miesha apenas foi o início de uma mudança para as mulheres que ganharam duas categorias no UFC, após a adição do peso palha na organização.

No UFC 190, Ronda deu mais um passo e se tornou uma celebridade.

A atleta conseguiu chamar a atenção de mais de 1 milhão de fãs que compraram o evento e assistiram ao vivo através do sistema Pay Per View.

https://www.youtube.com/watch?v=yKHV3KVDess

Com Ronda no auge, o machismo sofreu um revés. É o que podemos verificar na opinião de nossas convidadas que debateram o tema.

Veja as opiniões e visões das mulheres sobre o machismo no esporte:

Paula Sack - Foto - Arquivo pessoal
Paula Sack – Foto – Arquivo pessoal

Paula Sack, jornalista e apresentadora – Este ano completei 10 anos no MMA como apresentadora e repórter e, em todo esse tempo, nunca sofri nenhum tipo de preconceito.

Ingressei no mundo das lutas num momento bem diferente do esporte onde rolava pouca ou nenhuma grana e sobrava muito amor ao esporte, onde os atletas lutavam pela bandeira do time ou da nação, dentro do ringue.

O preconceito no esporte nunca foi em relação as mulheres envolvidas no Mundo das Lutas. O preconceito era com o proprio esporte.

E vinha de todos os lados: família, amigos, imprensa, opinião geral.

Nunca sofri preconceito algum por ser mulher no mundo das lutas mas o preconceito pelo esporte foi algo que pude sentir também.

Mas esse cenário já mudou. O esporte ganhou o seu espaço no Brasil e no mundo e o resultado e esse sucesso e reconhecimento dos atletas em todas as partes do planeta.

 

Barbara Gonçalves, blogueira  Existe sim. Já fui em alguns eventos e principalmente em lutas de mulheres a gente já vê aquelas “piadinhas”.

Para muitos as mulheres só servem para levantar uma plaquinha e andar em volta do octógono.

E as atletas são vistas como: Estão no lugar errado, não deveriam estar ali. Ou que elas não podem ser tão vaidosas como as demais.

Deveriam abrir mais espaço para mostrar o verdadeiro valor de ser uma atleta. E também dar oportunidade para que se mostram também que as Octagon Girls ou Ring Girls, não são somente um “rostinho” bonito ali.

Arianny Celeste foi lembrada por Barbara - Foto - Divulgação UFC
Arianny Celeste foi lembrada por Barbara – Foto – Divulgação UFC

Eu conheço a Arianny Celeste. Ela para mim é uma das mulheres mais inteligentes que eu já conheci.

Acompanho a carreira dela a muito tempo e desde o início ela tinha um blog, dentro do site dela, que posta fotos e ela mostrava o que tinha aprendido na Universidade de Nevada, aonde ela se formou em saúde e fitness.

Ela compartilhava dicas de treinos, dicas de alimentação. Aprendi muito com ela. E tenho uma rotina melhor com a ajuda dela.

Temos um gosto bem comum. Lemos os mesmos livros. Ela é uma pessoa incrível e muito inteligente. Mas ninguém sabe disso porque acha que ela é uma menina ali levantando a placa.

Camila Oliveira, para muitos musa e também uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Ela é simpática e atenciosa.

Já vi muitas pessoas passarem pela questão do machismo. Acho que no futebol tem mais machismo do que no MMA. E conheço muitas profissionais que deixaram esse meio e mudaram de esporte.

 

Renata Takatu - Arquivo Pessoal
Renata Takatu – Arquivo Pessoal

Renata Takatu – Cutwoman – Acredito que atualmente o machismo tenha melhorado muito. Assim como em outros setores da vida, isso tende a acabar, pois as mulheres estão há séculos lutando por isso e mostrando sua capacidade. Especificamente dentro do MMA já podemos ver essa evolução.

Com grandes lutadoras, treinadoras, árbitras, juízas, profissionais de saúde e outras mulheres envolvidas no MMA, o respeito e a igualdade vêm se tornando algo comum. Há dois anos minha resposta teria sido diferente. Já sofri com minha equipe de cutwomen alguns problemas relacionados a machismo, mas somos prova viva de que um trabalho bem feito traz resultados satisfatórios, independente do sexo.

Claro que não digo que não há machismo hoje, existe sim, mas bem menor. Para diminuir o problema, penso que a resposta deva ser feita e não falada. Trabalhem, façam bem feito, acreditem em si mesmas e o resultado falará por si só.

 

Liana Pirosin (direita)  - Divulgação
Liana Pirosin (direita) – Divulgação

Liana Pirosin – lutadora do XFC – “Hoje em dia ainda há muitas barreira a serem quebradas dentro do WMMA, as mulheres estão ganhando seu espaço, mas ainda não conquistaram os olhares do publico masculino, uma das barreiras é que são poucas as mulheres completas em todas as áreas, ainda deixam a desejar em alguma modalidade, diferente das lutas masculinas, onde vemos lutadores bons em todas as áreas.

Nós mulheres precisamos estar evoluindo constantemente, mostrar um trabalho sério (e não só midiático), com certeza será mais prazeroso para o público assistir uma luta feminina com um trabalho bem feito, e não só apenas um rostinho bonito batendo em outro rostinho bonito. Acredito muito que nos mulheres temos potencial para atrair olhares do público pelo nosso trabalho.

 

Marisa Muninn – Especialista em Psicologia do Esporte – Acredito que o Machismo no MMA já foi muito maior. Sempre haverão as piadinhas. Sempre!

Mas como muitas mulheres estão se destacando nesse cenário e com isso a permanencia e a aceitação está sendo muito grande, as piadinhas deixaram de ter muita importância.

Os homens respeitam bem mais as mulheres no MMA. Ainda há preconceito? Sim. Sempre haverá. Não existe igualdade de gêneros em lugar nenhum.

Na minha opinião a questão é a seguinte. As mulheres vieram com tudo. Coube aos homens ver, admirar e aceitar. E o homem machista, é machista em qualquer lugar, não apenas no MMA.

O que podemos fazer pra diminuir o problema? Bom… Isso só o tempo e uma boa luta entre duas mulheres pra arrancar a admiração dos homens. Já vi muito isso acontecer.

 

Ex-apresentadora do XFC, Lucilene Caetano fala sobre futuro - Arquivo Pessoal
Lucilene aborda problemas no meio – Arquivo Pessoal

Lucilene Caetano – jornalista e apresentadora Sim! Ainda existe muito machismo no meio do esporte em geral.

Por incrível que pareça, sendo nos dias de hoje, mais ainda existe quando o assunto é mulher. Subestimam automaticamente, talvez por uma questão cultural…

Acham que nos mulheres não temos o mesmo potencial que os homens e pra isso temos que trabalhar dobrado para provar competência.

Já passei por situação de entrevistar alguns atletas e dizerem que só consegui por ser mulher… Então nessas horas vemos o quanto ainda rola um certo preconceito e machismo.

É claro que com o tempo vamos conseguindo provar a nossa competência, na área em que nos propomos trabalhar.

Mas sempre que converso com amigas, tanto jornalistas quanto atletas vejo que elas passam pelo mesmo. Nos analisam e julgam se somos solteiras, casadas, mães… Tudo é motivo.

O importante é continuarmos sempre estudando, adquirido novos conhecimentos e buscando excelência profissional para evitar qualquer questionamento. Isso é o que faço sempre.

 

Jhenny Andrade não acredita que existe machismo - William Lucas/Inovafoto
Jhenny Andrade não acredita que existe machismo – William Lucas/Inovafoto

Jhenny Andrade – Modelo e Octagon Girl do UFC – Eu não vejo machismo no MMA. Quando eu entrei para o mundo da luta, eu tinha essa visão machista sim, mas hoje vejo cada vez mais mulheres na arena e mais mulheres lutando e adentrando ao mundo da luta.

Fico muito feliz com isso e isso mostra que o esporte de artes marciais não tem idade nem sexo nem cor.

Não acho que o machismo não exista então não precisamos fazer nada para isso mudar. Hoje vemos grandes lutadoras femininas principalmente no MMA.

O que eu acho que possa existir é um monopólio das lutas masculinas, mas isso não seria machismo, mas sim porque o esporte está muito mais evoluído na área masculina, mas não que isso não possa se igualar lá na frente.

 

Evelyn Rodrigues - Arquivo Pessoal
Evelyn Rodrigues – Arquivo Pessoal

Evelyn Rodrigues – jornalista do Combate.com – Na verdade eu nunca tive problemas por causa de machismo. Quando eu cheguei aqui nos EUA sofri um pouco de preconceito por ser “latina”, mas hoje isso não existe mais. Pelo menos como jornalista não vejo isso acontece aqui. Sei, no entanto, que isso ainda acontece não só nas redações como no esporte.

Mulheres ganhando bem menos que os homens e trabalhando tão duro quanto é algo que infelizmente ainda é realidade. Mas acho que, aos poucos, as mulheres estão conquistando o seu espaço e se estabelecendo no esporte.

Principalmente as lutadoras de MMA, que têm uma dificuldade um pouco maior para ter patrocínio. Se você não for bonita, carismática e não tiver um “corpão” então… as chances de conseguir um contrato de representação com bom cachê são mínimas.

Acho que só se combate isso com trabalho duro e apresentando bons resultados e a maioria das meninas já estão fazendo a sua parte nesse sentido. Tem também muitas lutadoras tímidas e acho que um media training pode ajudar nesse caso, porque infelizmente aquela máxima do “quem não é visto não é lembrado” é uma verdade.

O mercado é muito competitivo hoje em dia , então um simples detalhe, que às vezes você não dá importância, pode fazer a diferença.

 

Anita Paschkes - Arquivo Pessoal
Anita Paschkes – Arquivo Pessoal

Anita Paschkes – Jornalista e Apresentadora TV Gazeta – Acho que não falamos nunca de futebol feminino, surfe feminino, quando ás vezes entra algo já vi comentaristas falando de maneira pejorativa ou seja, muito mais da beleza do que do trabalho como atleta.

Com relação ao meu trabalho em nenhuma emissora passei por situações delicadas. Por exemplo, acho que a TV Brasil, passou jogos da seleção feminina. Acho inclusive, que, a Gazeta, a Rede TV, enfim, poderiam pegar esse filão. Ninguém dá a menor, quem desse, iria inovar.

 

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