Após dois anos que o blog fez uma matéria sobre o machismo com as mulheres, novamente voltamos a abordar o tema.
Além das mulheres, procuramos também homens para falar sobre o assunto em uma semana especial.
Atletas, jornalistas, profissionais envolvidos com o esporte e também convidamos o jornalista e chefe de reportagem da TV Gazeta, Chico Lang que deu sua opinião sobre o assunto, nos ajudando a ampliar a reflexão acerca do tema escolhido.
“Nunca. (veremos mulheres no UFC)” disse Dana White em 2011.
Com a mudança no cenário, principalmente com a vinda de Ronda Rousey, Dana mudou de idéia completamente.
“Se você perguntar para o Dana a 4 anos antes, ele foi um idiota ao falar acerca do MMA feminino.
Veja as opiniões dos nossos convidados:
Marcelo Brigadeiro, treinador, matchmaker e Presidente do Aspera FC – Acho que é algo que está diminuindo com o passar do tempo.
Seguir investindo no MMA feminino para termos ídolos como Ronda Rousey, Claudia Gadelha, etc.

Cristiano Marcello, treinador e líder da equipe CM System – Eu não digo nem machismo. Mas para mim é o novo. E o novo gera discussões.
E até o costume. No meu modo de ver, eu adoro ver as meninas lutando.
Elas não cansam, saem na mão e deixam tudo que tem para deixar dentro do octógono. E eu gosto muito. E posso falar mais.
O maior nome do MMA mundial hoje se chama Ronda Rousey. É o nome mais forte hoje em dia no MMA.
O MMA hoje está nas mãos de uma mulher. É que é muito longe da realidade, ter machismo ou preconceito das meninas.
Acho que é questão de tempo. Elas cada vez mais vão mostrar o valor delas. E está bem melhor de quando começou. É questão de tempo mesmo.
Eu tenho duas feras que são a Vanessinha Guimarães e a Kinberly Novaes que são duas feras. Fazem tudo e saem na mão. É questão de tempo.

Diego Lima, treinador e líder da equipe Chute Boxe/Diego Lima – Acho que o machismo já foi muito maior antes no MMA. Após o UFC abrir as portas para a mulheres, esse machismo caiu muito.
Antigamente eu presenciei que era grande. Nós somos Chute Boxe e vimos a Cris Cyborg querendo lutar e não tinha luta para ela.
Os eventos não queriam lutas de mulheres. A Cris sofreu muito com o machismo. Era muito complicado ela conseguir lutar.
Mas hoje graças a Deus diminuiu demais. O público aceita como quer ver. As academias querem. E querem ter homens e mulheres lá.
Ainda tem. Ainda tem algumas pessoas antigas com o pensamento muito limitado.
Acho que o machismo sempre vai ter mas para apenas alguns. Porque estes alguns se tornaram uma minoria.
Esse problema não há o que fazer. O machismo é um preconceito. E contra isso não há o que fazer. Isso são cabeças muito limitadas e é no dia a dia. As mulheres ganharam espaço em tudo.
Tanto nos governos, em profissões mais masculinas mas não vejo o que há de ser feito para diminuir. O divisor de águas para o machismo no MMA é o UFC ter feito a categoria feminina e acho que a tendência é ficar cada vez menor.

Gustavo Mohallem – Psicólogo do Esporte – Uma cena me marcou no backstage de um evento. Estavam homens, lutadores e alguns organizadores
Aí chegou uma lutadora famosa e fez uma pergunta. Pessoal, por favor…
Mulheres, agora é só amanhã? E foi ignorada não lhe deram ouvidos. Nada.
Fui até o organizador, puxei ele e pedi que lhe respondesse
Então a dúvida foi sanada. A questão é. Ele escutou e ignorou o quanto pode.
Porque? Era mulher? Talvez. Enxergo menos machismo. Menos rigidez.
Porém ainda existente. Outra cena. No aquecimento, uma lutadora disse: preciso melhorar X posição.
E trocou o nome. Foi o fim. Morreram de rir dela.
Vejo o homem como sentindo-se superior. Num olhar coletivo.

Jonas Bilharinho – Lutador de MMA – Não acho que exista tanto machismo dentro do MMA. Muito pelo contrário. Acho que o MMA feminino serve para quebrar um tabu, que é mostrar que as mulheres também têm talento e domínio das lutas, assim como os homens. E elas têm feito um trabalho muito bonito dentro do cage. Acho que toda mulher que está lutando MMA merece meu respeito só pela coragem de estar lá dentro.
Sobre as bolsas femininas serem ainda um pouco mais baixas que as masculinas, acredito que isso se deva a dois fatores. Primeiro: o atleta é um produto, e ele ganha proporcionalmente ao que ele vende. Não acredito que se paga menos as mulheres por causa do sexo, mas porque elas vendem menos pay per view. Pra mim, isso é uma consequência do segundo motivo, que é o MMA feminino ser ainda muito novo. O MMA, em si, já é um esporte bem recente, ainda em evolução.
O esporte feminino é ainda mais novo que isso e está desenvolvendo num todo e conquistando um público. Sabemos que grande parte dos espectadores são leigos e não conseguem compreender que as mulheres são capazes de fazer uma boa luta, tal como homens. Para o público mais “entendido” do MMA, vejo que se curte bastante as lutas femininas, tem um bom interesse nesta parcela. Eu, por exemplo, sou um grande fã da Ronda Rousey, sou fã da Holly Holm, que vai lutar contra ela… Estava louco para ver essa luta.
Até mesmo antes da entrada da Holm para o UFC sempre falava que ela seria um top contender. Pra mim, o MMA feminino é uma quebra de tabu, mas não acho que exista de fato um preconceito, sobretudo entre quem está ali dentro. Olhando pelo lado de quem é lutador e compreende o universo das academias e lutas.
Este preconceito acredito que esteja mais fora do esporte. Vejo, as vezes, uma mulher tentando opinar em algo do MMA e, normalmente, as opiniões delas são subjugadas ou boicotadas. Vejo opiniões muito mais válidas por parte das mulheres em comparação com alguns homens, mas a voz delas acaba sendo calada, simplesmente pelo sexo. Passando uma impressão de que mulher não entende nada de luta. As pessoas até aceitam que as atletas profissionais sejam boas lutadoras, porque de fato são. Mas dificilmente eu vejo um homem aceitando a opinião de uma mulher fora do esporte.
Acho que não exista uma medida urgente para acabar com isso de fato. Mas é algo que vai cair por terra com o tempo mesmo. Assim como, hoje em dia, vemos mulheres opinando em futebol, umas meninas que são torcedoras mais fervorosas que boa parte dos homens e dominam o conteúdo deste esporte. Acho que com o tempo o MMA será assim também. É um esporte como outro qualquer, serve para os dois gêneros e acho que com o passar do tempo teremos mais essa mistura: veremos cada vez mais mulheres torcendo, comentando, lutando e sendo bem remuneradas para tal.
Quero deixar claro, entretanto, que, sendo homem, é difícil opinar sobre este aspecto. As vezes, posso encarar algumas situações como não sendo frutos de machismo no MMA, mas elas talvez oprimam as mulheres. Se isso ocorrer, espero que o problema seja brevemente sanado e as mulheres ganhem ainda mais espaço e admiração pela participação na construção do MMA.

Matheus Costa, editor do site Olimpo MMA – Sim. Existe machismo no MMA sim. Hoje temos a atleta mais dominante na história do MMA e provavelmente de qualquer esporte de contato que o mundo já viu. Não só dentro do octógono, mas já mostrou ser um fenômeno fora dele também. Muitos fãs não gostam de assistir de MMA feminino e dão vários motivos ridículos para isso. A verdade é que grande maioria dessas pessoas não gostam do MMA feminino por questões de qualidade de luta, mas sim por serem mulheres lutando. Pura ignorância. Não são fãs do esporte, mas sim de seus lutadores favoritos, infelizmente.
Eu acho que gosto é gosto. Mas, caso essa pessoa queira dar uma chance, existem ótimas lutadoras. Não só a Ronda, mas como Cat Zingano, Joanna Jedrzejczyk, Cris Cyborg, Gina Carano, Livia Renata Souza, Claudia Gadelha… o que não falta é qualidade. Claro, nem todo mundo é uma extraterrestre como a Ronda, mas é uma modalidade em crescimento constante e que merece sim atenção.

Chico Lang, jornalista e chefe de reportagem da TV Gazeta – O machismo existe nos esportes coletivos, principalmente no futebol.
Se bem que no basquete e no vôlei hoje o problema foi reduzido a quase zero. Nos individuais já não existe mais. E por quê isso ainda ocorre? A resposta talvez esteja na própria disputa.
Por terem músculos mais fibrosos e ossos consistentes e maiores, uma partida de futebol masculino se torna mais violenta do que os jogos femininos. A platéia, por sua vez, simbolicamente se identifica com uma violência maior. No futebol americano, por exemplo, esse fenômeno fica ainda mais notável.
Tanto nas super potencias capitalistas como nos países subdesenvolvidos, a violência do sistema não exibe de maneira clara as razões das insatisfações socias. No entanto, criam dispositivos para canalização ideológica das frustrações e humilhações aos quais um assalariado se submete para ter uma vida digna.
Isso, porém, vai contra a natureza humana, genuinamente nômade, dedicada à pesca e à caça. Ou seja, com a liberação da mulher alguns esportes passaram a ter uma valorização da técnica sobre a forca. No UFC, combates de mulheres chamam a atenção na medida que as competidoras são copias mais suaves dos homens. As lutas masculinas são mais atrativas, despertam mais interesse, giram um capital maior inclusive.
Como fazer para se evitar o espírito machista nas competições esportivas? Esclarecendo as pessoas como funciona esse quase teatro de emoções. Abrindo as cortinas dos bastidores da alma humana. Tal ato irá facilitar a compreensão de uma diversão cujas raizes são mais complexas do que se poderia imaginar.