
O meia-esquerda é um artigo raro no futebol, não só brasileiro como mundial. Grandes nomes fizeram nossa história. Zizinho, Zico, Rivellino, Gérson e Ademir Da Guia, que tinha pé direito, mas atuava pela esquerda. Sem falar de Maradona, Zidane, Platini e tantos outros que encantaram o mundo da bola com estilos inconfundíveis e toques de bola insinuantes. Geniais na armação, precisos no arremate a gol, eles entraram para a história. Foram essenciais nos setores de criação e execução de jogo, além de proporcionarem ao torcedor um futebol bem jogado, bonito de se ver. Nem precisa dizer que o maior deles todos foi Pelé, que era mais um finalizador do que uma cabeça pensante no meio-campo.
Com um futebol cada vez mais profissional e competitivo, infelizmente o romantismo e a mística dos camisas 10 desapareceram. Hoje, as necessidades táticas prevalecem sobre a arte com a bola nos pés. Todo mundo precisa marcar o adversário. É mais importante “destruir” do que “construir”. A capacidade técnica foi substituída pelo condicionamento físico. Trocaram a astúcia pela força. Para os treinadores em geral, vale mais segurar o emprego do que fazer um trabalho marcante, que encante os olhos de todos. Os jogadores também se acomodaram. Encostaram o corpo. Dançam conforme a música.
Outros treinadores mexem errado na garotada, mudando de posição sem critério. Foi o caso de Estevam, ex-Palmeiras e hoje no Chelsea. Ele começou nas equipes de base atuando como meia. Teve tanto destaque que ganhou o apelido de “Messinho”. Com o passar do tempo, foi parar na ponta-direita. Também virou mania esse negócio de cair pelas beiradas do campo, o que pode frustrar uma tendência nata de um jogador em formação. Ainda bem que Estevam se adaptou rápido e deu sequência à carreira sem problemas. Se o técnico Carlo Ancelotti precisar, pode ser útil até para a seleção brasileira.
As apostas são curtas. No Corinthians, lá está o argentino Garro (veste a camisa 8 e, aliás, marcou um golaço contra o Athletico Paranaense pelo Brasileirão). No Flamengo, o que se destaca mais é Paquetá, esperança até para a seleção brasileira na Copa do Mundo. Já pelos lados do São Paulo, essa função varia entre Luciano e Lucas, alimentando o artilheiro Carelli no ataque. O Palmeiras carece de grandes nomes no setor. Maurício e Sosa dividem o fardo com pouco brilhantismo. Neymar deveria se encarregar da função no Santos, o que não acontece por causa de seguidas contusões e falta de ritmo de jogo.
Na defesa ou no ataque, o meia-esquerda sobrevive ao tempo. Pelo menos no glamour. Jogadas inesquecíveis ainda estão na memória. Lances de incrível brilhantismo povoam os sonhos dos mais românticos. Os momentos mágicos ainda permanecem no ar. Dos antigos, as belíssimas lembranças de uma época de ouro do futebol. Na atualidade, alguns lampejos isolados de um camisa 10 ou outro ainda chamam a atenção. O que importa, porém, é que o que está escrito não se apaga tão fácil. Virou história na memória coletiva. Deixou cicatrizes para sempre.
E tenho dito!