
Quando nos conhecemos, nos odiávamos. Isso na década de 1970, no extinto Notícias Populares. Eu, saído da Faculdade Cásper Líbero, e Dalmo Pessoa o Editor de Esportes. Ele vinha da geração que tinha aprendido jornalismo na marra, no suado e às vezes sangrento dia a dia. Era difícil, de repente, aceitar um novato, cheirando a tinta, como funcionário.
Já consagrado nas rádios por ser um crítico veementemente, o então jovem Dalmo Pessoa não largava do meu pé. Tudo que eu escrevia tinha um senão, estava fora do padrão.
“Menino, você precisa colocar no lead da matéria quem, quando, como, onde e porque. Não te ensinaram isso na faculdade?”, dando um sorriso de deboche. Aquilo me deixava muito nervoso. Era uma falta de respeito com quem desejava aprender e tinha o direito de errar.
Eu voltava da rua, tinha quase sempre três ou quatro matérias de 30 linhas para escrever. Pelo NP fui setorista do São Paulo, Palmeiras e às vezes do Corinthians. Enquanto escrevia o mais rápido possível, Dalmo ficava atrás de mim olhando o texto.
Quando achava alguma coisa de errado, não pensava duas vezes em arrancar a lauda da máquina de escrever e mandar começar tudo de novo. Pensei em pedir para mudar de editoria. Mas, ao mesmo tempo que aquilo doía na alma, ficava a marca do aprendizado.
Enfim, finalmente, lá estava tudo no lead, as notícias eram bem escritas. Comecei a errar menos no português, aprendi a beber, fumar e entender aquele choque de gerações.

Um dia, ele estava atrás de mim prestes a puxar a lauda, quando segurei forte a sua mão e falei: “Se você fizer isso de novo vou te dar uma porrada”. Dalmo me olhou e fuzilou sem dó: “até que enfim virou jornalista”.
Daí para frente o relacionamento mudou. Ficamos mais próximos. Começos a discutir futebol de igual para igual. Ficamos amigos. Por isso durante anos eu o chamava de Mestre Dalmo Pessoa. Era um profissional completo, dinâmico e profundo conhecedor dos bastidores da bola.
Eram dois ou três furos por semana na coluna “Gente Boa de Bola”. O que deixava a equipe orgulhosa e querendo chegar pelo menos aos pés do chefe.
Depois nos reencontramos na TV Gazeta, no “Mesa Redonda”, onde sempre o criticava pelo “livrinho maldito”, porém me divertia com as fofocas das “raposas felpudas”.
Moral da história: as pessoas que mais nos criticam são aquelas que mais querem o nosso bem.
Obrigado por tudo querido Dalmo Pessoa de Almeida.
Descanse em paz.
E tenho dito!