Futebol não é filantropia

Foto: AFP

Quem conta um conto aumenta um ponto. Quem já não ouviu essa tradicional máxima? Pois ela traduz para o povão a palavrinha mágica tradição, tão mal interpretada por aí.

Tradição não é um tempo estagnado no espaço, ou vice-versa, se quiserem. Tradição é transição, é passagem, a história evoluindo ao longo do tempo enquanto os fatos são relatados, sempre com os devidos adendos.

Logo, quem fala em tradição pra defender o status quo, na verdade, apenas tenta preservar um determinado momento da história, nem seu passado mais longevo, nem a perspectiva do futuro a ser ainda contado.

Esse é o caso da rebelião contra a Superliga Europeia, recém-fundada por doze ou treze dos principais atores do futebol mundial. Estou falando daqueles que a contrariam em nome da tradição.

Mas, há os que a combatem em nome de uma vaga ideia de solidariedade, o direito dos menos afortunados, como o fazem a Uefa e a Fifa, além da imensa maioria da mídia, de torcedores e de vários jogadores e cartolas. Aliás, essa palavrinha está presente nos comunicados enviados à imprensa tanto pela Fifa quanto pela UIefa. Isso, sem falar no tom igualitário proclamado por praticamente toda a imprensa internacional, como se estivéssemos transpondo a questão para o nível ideológico.

No plano social, ideológico, político, a solidariedade entre classes é fundamental para o desenvolvimento da humanidade, isso é inegável.

Mas, o futebol não é uma ação social em busca de dar maiores oportunidades aos mais desfavorecidos. Não é um ato de filantropia, tampouco de justiça social.

Vivo repetindo que o futebol é uma representação, uma teatralização da vida, do cotidiano. Ora, se vivemos num regime capitalista, de extrema competitividade, é esse o cenário que se reproduz no campo de jogo. Quem pode mais chora menos.

O futebol é uma competição em que cada um tenta esmagar o próximo e levantar a taça de hidromel, o nectar dos deuses.

Pode haver maior satisfação para o torcedor do que ver seu time dar um show em campo e meter uma goleada estonteante no adversário? Vencer é bom, mas vencer bem é melhor. E o máximo é vencer bem um adversário do seu porte. Afinal, o estádio de futebol é um campo de descarrego das tensões humanas, um espaço para a catarse coletiva e individual, não uma sala de reunião entre pessoas equilibradas e movidas pela razão acima de tudo.

Por que, afinal, milhões de pessoas se apaixonam por estes clubes e não aqueles? Porque estes, ao longo da história, construíram um cartel de conquistas, vitórias e ofereceram espetáculos mais agradáveis do que aqueles. E olhe que praticamente todos nasceram humildes, pobres, numa esquina de bairro iluminada por um lampião à gás. E cresceram, imantando milhões de pessoas, ao longo das décadas seguintes por seus próprios méritos. Essa é a verdade dos fatos.

Não quer dizer que deverão ser eternizados por lei na cúpula do espetáculo. Isso, não.

E é aqui que a Superliga falha, ao não admitir o descenso e o acesso a outros clubes europeus ao seu campeonato. Mesmo porque um time não consegue se manter eternamente num nível tão superior que justifique sua permanência entre os melhores, sobretudo se um outro, fora do quadro, estiver praticando um jogo mais deslumbrante e eficiente,

Por outro lado, não há como negar que esses poderosos clubes europeus se sustentam com dinheiro de origem nebulosa de várias partes do mundo. Assim como Fifa e Uefa estão longe de ser padrões de moralidade, depois de tantos escândalos recentes. Elas por elas, nesta luta de vale-tudo do mundo contemporâneo. Aceitá-lo é doloroso, mas é o que é.

Nesse caso, pelo menos, o sentido da Superliga é a busca pela excelência máxima, o que, aliás, deveria ser o alvo de todos que participam, direta ou indiretamente, desse mágico universo do futebol.

Pelo menos, é uma pausa para refrescar.

 

 

6 comentários

  1. Que decepção Helena. Que decepção.
    Você realmente acha que eles estão em busca da excelência?
    Você diz que erraram em não permitir o descendo e acesso mas essa é a essência do negócio que estão propondo!
    O resto é balela!
    Pouco importa a eles o futebol jogado. O pior de tudo é vc achar que isso é a evolução do futebol! É claro que o futebol precisa de mudanças mas tu achar que isso é uma pausa para refrescar é lamentável.

  2. Alberto Helena Jr.

    Vamos abordar um outro ângulo desta história por você explanada vejamos pela própria trajetória e história de cada clube que chamamos de tradição então não será capitalista demais e muito futebolístico de menos centrar análises sobre o futebol só sob o ângulo do business, o futebol é num primeiro plano entretenimento, é o jogo que tem que ser jogado só dentro das quatro linhas sem envolvimento dos chamados e funestos “bastidores” da turma que ganhar roubado é mais gostoso, acabamos matando o futebol só pelo negócio, só pelo dinheiro ainda bem que já estou aos 48 minutos do segundo tempo para não ver a morte definitiva desse esporte que já foi um dos encantadores e apaixonantes do chamado planeta bola….rindo até 2026. Saudações palmeirenses.

    1. Albert6o Helena Jr.

      Queria dizer oi para o Antonio Braz e dizer a ele verificar comentário que fiz em post anterior quando fiz uma reflexão sobre os últimos resultados do Verdão e a reação de nossa própria torcida…..rindo até 2026. Saudações palmeirenses.

  3. Posso usar o argumento da “tradição” em sentido contrário. Os 15 mais ricos clubes do planeta (não necessariamente os mais “tradicionais”) querem se perpetuar no status quo, num clubinho sem descenso e com cinco convidados (e alguém acredita que um convidado não seria prejudicado pela arbitragem em uma eventual final?). Por mim, a sede da Super Liga da Europa poderia ir para os EUA (onde estão boa parte dos acionistas) e os jogos poderiam ser disputados na China (onde está boa parte do público alvo). Os jogos do Juventus da rua Javari podem ser de pior qualidade, mas são autênticos e têm canole no intervalo. Prefiro. Boa sorte ao “espetáculo” dos ricaços. E na próxima temporada da Champions League verei com o maior prazer os jogos do Atalanta, Napoli, West Ham, Leiscester, Leeds (Bielsa!) etc. Tenho certeza que os jogadores darão tudo de si e farão espetáculos de garra e entrega.

  4. Desculpe a quem não acompanhou futebol nos anos 70 e 80, mas vocês não sabem o que era ver o São Paulo ter que jogar várias vezes com clubes como o Treze da Paraíba, entre outros do mesmo porte, pelo Brasileirão de 1986. Era um campeonato longo e apenas interessante nos jogos finais.

    Depois, o movimento da Copa União em 1987 gerou a mudança que aperfeiçou muito nossos modelos de competição, chegando às nossas atuais divisões, separando as melhores equipes, e também a Copa do Brasil, que permite que clubes menores e com bons times consigam fazer alguns jogos com equipes da série A. Ou seja, quem vê os campeonatos de hoje não imagina como era há até uns 20 anos atrás.

    Acredito que os grandes da Europa perceberam a necessidade de criar algo semelhante à nossa série A.
    Imagine como vai ser bom ter jogos entre eles toda semana!

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