Futebol eterno

Foto: Acervo/Gazeta Press

Ei, você aí, garoto, se é que há um de vocês nesta plateia lotada de coroas.

Preste atenção. Não se trata de saudosismo, esse sentimento moldado mais pela imaginação do que pela realidade.

Ao contrário: trata-se de lançar um olhar para o futuro, em busca de um avanço em relação ao presente.

É como adotar a velha máxima: quem desconhece o passado, não entende o presente e é incapaz de projetar o futuro.

Sei bem que o brasileiro abomina o seu passado, e, por isso mesmo, vive repetindo os mesmos erros, décadas após décadas, em todos os setores da vida. Imediatista, prefere viver o presente apenas, ainda que isso custe o alto preço de desprezar sua cultura em todos os setores.

A moda é o rock, o funk, seja lá qual for o ritmo imposto pelo Império? Então, que seja, embora o Brasil seja o país que criou, ao longo da história, a maior diversidade de gêneros e ritmos musicais do mundo. E assim vai por onde se olhar.

No futebol, também, não só abdicamos de nossos raízes como importamos o de pior que havia lá fora, como expus no blog anterior.

Ainda no domingo o Divino Ademir da Guia esteve na Mesa Redonda do Flavinho, e, disse, com todas as letras que era um meia-armador habituado a jogar de área a área. Isso, nos anos 60/70. Marcava, armava e se infiltrava na área inimiga pra participar das jogadas decisivas.

E, sempre que vejo, hoje em dia, De Bruyne, o melhor dos meias-armadores do mundo, me lembro de Ademir. Sarará, passadas largas, saindo lá de trás, com rara elegância na condução da bola e nos passes exatos, até chegar na área inimiga pra definir as jogadas. Um autêntico meia-armador do passado anterior ao advento dos dois volantes, figuração, hoje em dia, abandonada pelos melhores times da Europa e do mundo, como o Bayern e o City, por exemplo.

E o que ouço dos nossos jovens narradores e comentaristas quando diante de meio-campistas desse estilo? Dizem que se trata de um volante moderno,, box to box. Ou seja: de área à área.

Não há nada mais antigo do que isso. Era assim que jogavam tanto os volantes como Bauer, Zito, Clodoaldo etc., quanto os meias-armadores tipo Zizinho, Didi etc.

A grande mudança no futebol mundial, desde o WM de Chapman, foi o Carrossel Holandês de 74, quando o time todo, compacto, atacava a bola em conjunto a partir do meio de campo e partia avassaladoramente para o ataque.

A propósito, antes da Copa da Alemanha, o futebol holandês já encantava a Europa, com as conquistas do Feynoord e do Ajax no início dos anos 70.

Na época, não havia essa exposição dos times  europeus na tv brasileira de hoje. Foi quando, chefe de reportagem dos Esportes do Jornal da Tarde, ao saber da vinda ao Guarani de um preparador físico, escalei o meu saudoso e querido Márcio Mendonça para colher suas impressões em Campinas. Afinal, como jogavam esses estranhos holandeses?

Na volta, Márcio resumiu a resposta do holandês: eles jogavam como o Ademir da Guia.

O sêmen desse conceito foi absorvido por Guardiola que o aplicou no Barça, no Bayern e, agora, no City, com absoluto sucesso, diga-se..

Nada mais moderno, assim como nada mais antigo. É simplesmente o eterno jogo da bola, passado, presente e futuro.

Como dizia Noel, o Poeta da Vila, se são sete notas apenas, mais notas não possa inventar. A combinação delas é que fazem a diferença.

 

 

 

 

 

 

2 comentários

  1. Alberto Helena Jr.

    O futebol na sua essência nunca teve mudanças significativas é tão simples como andar a pé, andar de bicicleta, andar de carro, andar de avião qual seja o mais importante do que andar é saber andar de onde se vêm para onde se vai sempre para a evolução desse esporte que na essência é muito simples, tocar a bola, ter um bom esquema tático, um time mesclado de jogadores carregadores de piano com craques como o Ademir da Ghia que você citou e aí teremos um futebol simples e bonito de se ver, nós temos um jeito particular de praticar o esporte que dificilmente vemos no resto do mundo mas temos que ter a humildade de copiar o que está dando certo porque pé de obra para isso temos…..rindo até 2026. Saudações palmeirenses.

  2. Só na foto já me aparecem duas legendas extraordinárias da história do futebol mundial. O Ademir e o Pedro Rocha…E ambos pelo que jogaram, representariam muito bem a idéia expressa por você , caro mestre Alberto , de que as ditas “novidades” futebolísticas dos últimos 40,50,anos, não são tão novidades assim. O Ademir da Guia, na sua época , compôs uma das mais efetivas e brilhantes duplas de meio de campo da história do futebol brasileiro. Dudu e Ademir. Coração, cérebro e pulmões de grandes times do Palmeiras durante os anos 60 e primeira metade dos anos 70. Numa época onde um sistema tão ofensivo e mágico como o 4-2-4, podia se manifestar com todo o seu encanto. E nem se diga que a revolução desencadeado pelo Carrossel Holandês teria sido tão avassaladora assim pra fazer desaparecer “velhos” sistemas e planos de jogos. Pois em pleno ano de 1978, o inesquecível time do Guarani de Zé Carlos e Zenon no meio de campo e mais Capitão, Renato, Careca e Bozó, simplesmente e para espanto de muitos , provou que era sim possível utilizar-se algo dito como ultrapassado e atrasado como esquema de jogo e ainda sim ganhar campeonatos. O segredo? Claro, estava na qualidade técnica de jogadores de meio de campo , capazes de, como magnificamente expresso no seu artigo, jogar e jogar brilhantemente de “área a área “! Jogadores que, por outros motivos, deixamos de ter , ou pelo menos já não os fazemos como nos tempos de outrora. Só pra vê-lós “ressuscitados” nos pés de Xavi e Iniesta no Barcelona de Guardiola ….ou nos pés de Modric e Kloss no Real Madrid de Cristiano Ronaldo…
    Enfim….nada de muito novo nesse nosso planeta futebol….

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