
O filósofo Chico Lang, outro dia, falou sobre a modinha dos técnicos estrangeiros no futebol brasileiro. Falo da modinha, não da Modinha, gênero musical bem brasileiro marcado por Catullo da Paixão Cearense e recuperado muitos anos depois por Juca Chaves antes de desaparecer de vez, espantada pelos sons metálicos do rock e cia, restando apenas nas páginas em sépia das recolhidas por Mário de Andrade nos cafundós do Brasil e dos tempos.
Modinha, sacumé, vai e vem e vorta e tal e cousa e lousa e maripousa, como no monólogo do meu saudoso amigo Renato Consorte.. Ora a barra da camisa vai enfiada no cós da calça, ora fica pra fora; as gravatas alargam e afinam quando não são abolidas, O paletó se expande como bata pra, em seguida, encolher feito fantasia de caipira em noite de São João. As saias das mulheres sobem e descem na velocidade da luz, de acordo com os ditames da indústria da moda. E todo mundo vai atrás.
A modinha dos técnicos estrangeiros, no Brasil e no mundo, não foge à regra, E tudo começou, claro, com os inventores do futebol moderno, os britânicos, que saíram pelos continentes afora semeando a frutífera semente do jogo da bola.
A propósito, ainda outra noite assistia ao seriado Magnum PI e deparei com uma cena exemplar. Juliet Higgins, personagem interpretada pela atriz de nome Perdita, creia, estava acompanhando, ao lado de Magnum, um treino daquele futebol americano, quando sentenciou algo do gênero:
– Trata-se de um jogo com muita estratégia e força, mas não se compara à graça e leveza do futebol da minha terra.
A graça e a leveza do toque de bola, do drible desconcertante, do passe inesperado que vara espaços congestionados, todas essas coisas que fizeram do futebol jogado com os pés, pra ser redundante, o esporte mais praticado e apaixonante do planeta.
Bem, eu dizia que tudo começou com os britânicos, Inclusive no Brasil, com a volta de Oxford do paulista filho de ingleses, Charles Miller, com as primeiras bolas de futebol na bagagem. Charles foi jogador, juiz e técnico ao longo de sua vida nos campos, desde o Gasômetro ao Velódromo.
No Rio, Welfare destacou-se como técnico e jogador, ao mesmo tempo, o que era comum nas primeiras duas décadas do século passado.
Nos gramados britânicos havia uma cisão de estilos entre ingleses e escoceses. Os ingleses, mais brutais e incisivos; os escoceses, aperfeiçoando o jogo de passes. Isso explica a criação por um escocês, Herbert Chapman, do sistema de jogo que deu origem a todos os demais que até hoje se praticam no mundo inteiro: o WM. Se decupado à modinha atual seria um 3-4-3, que substituiria o clássico 2-3-5.
Mas, ao longo dos anos 30, os técnicos ingleses viram surgir uma escola desafiadora a seu império: a Escola Danúbio, liderada pelos húngaros, que nos enviaram três exemplares magníficos – Dori Kruschner, no Flamengo, Giula Mandi, no América do Rio, e, mais tarde, já nos anos 50, Bella Guttman, no São Paulo, de quem Feola colheu o conceito de objetividade que tanto faltava ao nosso jogo extremamente artístico – o célebre Tá-Tá-Tá, ou Pimpampum, três toques, finalização. Resultado: a Copa de 58.
Já, então, uruguaios e argentinos se sucediam em nossos clubes, tentando implantar o princípio do toco y me voy, além de um olhar mais severo ao sistema de marcação. Ondino Vieira, Conrado Ross, Jim Lopes, Filpo Nuiñes foram alguns, dentre tantos, uruguaios e argentinos que desfilaram por aqui ao longo das décadas seguintes.
E, não só no Brasil, como de resto em toda a América do Sul e até na Europa, onde Helenio Herrera, denominado El Brujo, fez furor na imprensa italiana. Até que descobrissem ser mais milonguero do que técnico, embora levantasse algumas taças.
Na esteira dos húngaros, os iugoslavos, que levavam a coisa tão a sério que havia um curso especializado na Universidade de Sarajevo.
Em seguida, vieram os holandeses, a partir de Rinus Mitchles, o inventor do Carrossel, jamais reproduzido depois da Copa de 74, mas que deixou sementes espalhadas pela Europa, sobretudo no Barcelona de Rinus, Cruyjff, Reijkaard, Van Gaal e agora de novo Koeman.
Espanhóis e portugueses, mais recentemente, ganharam um espaço maior em toda a Europa, especialmente nos principais centros.
No Brasil, durante um bom tempo desprezou-se a presença de técnicos estrangeiros, pelo alto custo para uma indústria falida e por ser mais difícil demiti-los nessa roda viva a que estão submetidos os treinadores brasileiros.
Eis, porém, que, de repente, o argentino Sampaoli desembarca na Vila e o lusitano Jorge Jesus chega ao Ninho do Urubu. Ai, meu Deus! Ambos agarraram pela goela e sacudiram o futebol brasileiro, letárgico, medroso, repetitivo, inoperante, e, num zastrás, botaram Santos e Flamengo jogando pra frente, fazendo gols, dando espetáculo e ridicularizando os treinadores brasileiros que, quando cobrados pelo jogo retrancado e insuficiente de seus times, afivelavam no rosto aquele ar de sábio da padaria e respondiam que esse era o tal futebol moderno, cheio de linhas e entre linhas que nada diziam.
O Flamengo foi campeão de tudo, menos mundial, sendo efetivo e dando espetáculo. O Santos foi vice brasileiro, idem com batatas.
Jesus se foi, chegou Dome Torrent, catalão discípulo de Guardiola. Sampaoli trocou o Peixe pelo Galo. Ainda é cedo pra avaliar como os fatos se desdobrarão para eles, apesar do início desastroso do catalão e decepcionante do argentino.
Pode dar certo, pode não dar. O futebol é um jogo, afinal, não uma ciência exata. De qualquer forma, eles partirão, mais cedo ou mais tarde, e outros chegarão. E, nesse vai e vem, que algo de positivo sobre por aqui, tirando-nos de uma forma ou de outra desse marasmo irritante.
.
Alberto Helena Jr.
Excelente texto, didático e informativo principalmente para as novas gerações dos torcedores que acham por exemplo que o futebol começou em 1960 certamente influenciados por aqueles dirigentes corruptos da FIFA que validaram como títulos mundiais interclubes somente aqueles a partir de 1960 e se este for o raciocinio daquelas ratazanas todos títulos mundiais anteriores a 1960 não aconteceram inclusive os de seleção e na visão deles certamente o Brasil seria tetra e não penta, mas não perdendo o foco voltemos ao seu texto, foi um primor ao discorrer com e em detalhes o nascedouro e a evolução do futebol até os dias atuais, porém no que concerne a questão de técnicos estrangeiros eu sou da seguinte opinião não importa se o técnico é estrangeiro ou não e sim a contribuição que esses técnicos ou os brasileiros tem a oferecer para a evolução do nosso futebol e o resto se resolve em campo….e tenho dito….parodiando aquela anta do Chico Lang….rindo até 2026. Saudações palmeirenses.
Nobre, Helena Júnior, o Mundo, principalmente o do futebol, precisa muito de gente como Você. Seu conhecimento aliado a grande visão e sabedoria, ao bem ligar e analisar os fatos do passado e presente, dentro de um contexto geral, transforman-no em luz, no fio de esperança a resgatar das trevas, nosso aprisionado futebol …