Neymar: olhe o grude formado

Foto: Sergio Barzaghi/Gazeta Press

Não vou me meter nesses labirintos jurídicos que cercam a figura de Neymar. Deixo isso por conta da polícia e do judiciário. Só me surpreendo que, com tanto dinheiro no bolso, a corporação Neymar não tenha uma equipe de advogados altamente capacitados para evitar que o rapaz trocasse os pés pelas mãos nessa imensa armadilha chamada de Redes Sociais.

No que me diz respeito, a questão passa a ser quanto tudo isso afetará o desempenho do jogador na Seleção Brasileira prestes a enfrentar um teste importante na Copa América, disputada em terras tupiniquins logo ali, ó.

Disparado o melhor jogador brasileiro e um dos mais categorizados do mundo, Neymar tem sido alvo de ataques, em campo e fora dele, desde quando começou sua brilhante carreira no Santos, mal saído da adolescência. É cai-cai nas quatro linhas e fuzarqueiro fora delas, é isso, é aquilo. E Neymar tem driblado todos esses adversários, juntando títulos, dinheiro e fama pelo mundo afora, graças a seu talento inexcedível como jogador de bola.

Mas, até agora, não se viu na fronteira do crime Ou, melhor: crimes, pois está sendo acusado de estupro e de violar as leis da Internet, um tribunal que o condena há muito tempo, por atos irrelevantes.

A pergunta é esta: será que o craque saberá driblar também essas graves acusações que ameaçam não apenas sua carreira como sua vida de cidadão livre?

Ou será que o moço tem duas personalidades – uma, o Neymar cidadão; outra., o Neymar craque? E que um não se confunde com o outro, permitindo o Neymar craque desenvolver seu futebol alegre, inventivo e decisivo na Seleção, enquanto o outro Neymar tenta resolver seus problemas fora do campo?

Lembro de Pelé, que, ao longo de sua carreira inigualável, costumava sempre diferenciar o Pelé do Edson, quando falava de um e do outro. – o craque e o cidadão. Ideia reforçada por Overath, o extraordinário meia alemão campeão do mundo de 74 que, em sua autobiografia, dizia ser testemunha dessa estranha transmutação. Quando entrava em campo ou fora dele, era o Edson gentil, sorridente, humano. Mas, quando a bola começava a rolar, Overath via no olhar do craque a chama de Pelé, um outro ser. Era como, se num terreiro de candomblé, no cavalo Edson baixasse o espírito Pelé. Ou, no divã do psicanalista, a dupla personalidade se manifestasse claramente. Fica a resposta ao gosto do freguês.

Há sempre uma terceira opção: a inconsciência dos seus próprios limites de um cidadão que desde cedo passou a flutuar acima da realidade dos comuns.

Mas, aqui, começo a percorrer outros labirintos também incompreensíveis para meus parcos conhecimentos da alma humana.

Prefiro voltar ao campo do jogo onde imagino me mover com mais facilidade.

Nele, o que veremos? O Neymar de sempre, fazendo a diferença, ou um jogador atado pelas preocupações que cercam o homem Neymar; ou seja: o anti-Neymar?

E, se for esse, nem tudo estará perdido. Afinal, se Tite precisar substituí-lo, pode recorrer a Cebolinha lá pela esquerda, pois o garoto do Grêmio tem jogado o fino da bola.

A questão nem é tanto essa. A questão é saber como se comportará Coutinho na meia, à frente da dupla Casemiro-Artur, pois o craque, que tanto se destacou no Liverpool e na Seleção de Tite, cumpriu péssimo desempenho no Barça nesta temporada.

Nesse caso, Tite teria de recorrer a Lucas Paquetá, que, embora tenha jogado bem pelo Milan, ainda não conseguiu reproduzir seu excelente futebol dos tempos do Flamengo na Seleção, nas chances que teve.

Enfim, olhe o grude formado, como cantava Almirante no velho samba-choro dos tempos em que os craques brasileiros sobravam no pedaço. E que o brasileiro sabia conjugar os verbos devidamente.

 

 

 

 

 

 

2 comentários

  1. O Neymar por ser uma figura mediática deveria ter cuidado em não se expor a situações que podem levar a escândalos.
    Ser famoso tem as suas vantagens e muitas (poder usufruir de avultados rendimentos, ter por isso uma vida sem problemas financeiros ainda muito jovem), mas também ser famoso tem as suas responsabilidades, pois por ser uma pessoa mediática devia se portar de forma comedida, mesmo sabendo nós que um rapaz de vinte e poucos anos para mim que tenho 60 é um jovem.
    Por ser jovem e dependendo de quem o rodeia deverá ser avisado das suas responsabilidades.
    É o que se vê em jogadores com muita fama em todo o lado, Veja o caso do Cristiano Ronaldo que passado tantos anos foi acusado do mesmo.
    Tem que ser orientado pelo seu empresário e por seus familiares, pois ser famoso exige sacrifícios.

  2. O tsunami provocado por esse affair terá consequências nefastas para Neymar tanto econômicas, quanto psicológicas e morais. A ostentação e a arrogância parece terem afinal atingido pai e filho de forma irreversível. Não há mais a absoluta condição de Neymar continuar na seleção.

Deixe um comentário para Antonio Matos Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *