
Foi um golaço simbólico. Quando Kompany disparou aquele tiro forte e traiçoeiro, a trajetória da bola foi contando histórias de superação, coragem e talento.
A começar pela do zagueiro – um dos maiores da história recente do futebol mundial -, marco na grande ascensão do futebol belga e na transformação do City num dos gigantes da Europa, que passou a maior parte desta temporada lutando contra lesões que o deixaram fora de campo por muito tempo, intermitentemente.
Junte-se a isso a coragem desse extraordinário treinador de futebol, Pep Guardiola, que faz seus times jogarem no mais puro estilo brasileiro do nosso passado glorioso, como lhe ensinaram seu avô e seu pai, de acordo com as próprias declarações repetidas pelo técnico. E como confirmam depoimentos do nosso Pepe, o Canhão da Vila, que foi seu técnico nas arábias, a quem Guardiola cansava de perguntar a respeito do nosso modelo de jogar futebol que tanto o influenciou, como jogador e, mais tarde, técnico.
Observe só a posição de Kompany na hora do chute fatal. Lá está o zagueirão, último homem de sua defesa, na meia-direita do seu ataque, sem ninguém mais a cobri-lo atrás. Caso o chute fosse obstado, o contragolpe do Leicester seria mortal. São os riscos de um jogo decisivo em que só a vitória interessava a Guardiola, embora a maioria dos nossos treinadores pensaria o oposto: bem, ainda há um última rodada, o empate nos deixa a apenas um ponto do Liverpool, logo, todo cuidado é pouco.
Mas, Kompany e Guardiola não carregam esse medo nos pés e na cabeça. Só a vitória interessa – e não apenas em jogos decisivos. E vitória significa marcar gols, quantos puder, melhor. E assim agiu o City, do início ao fim, massacrando o Leicester no campo adversário. Mesmo depois de marcado seu gol, seguiu apertando o inimigo em busca de outros tentos. Imagine se fosse Felipão e seus seguidores patrícios! Tava o time todo fechado a sete chaves na casinha, à espera do apito final.
Depois daquela dramática desclassificação na Liga dos Campeões, Guardiola foi aos microfones e disse estar satisfeito por ter cumprido sua missão: dar espetáculo. E, dando espetáculo, pode até perder, mas quem somou mais vitórias do que ele nos últimos anos em campeonatos nacionais e torneios europeus, pelo Barça, pelo Bayern e agora pelo City, em três países distintos em tudo?
Resumindo: resultado e espetáculo não se excluem; aliás, um depende mais do outro do que a vã filosofia tupiniquim imagina.
PS: Sugiro ao amigo ler a lúcida análise feita pela repórter Renato Mendonça na UOL a respeito.