Um sonho azul

Foto: Paul ELLIS/AFP

Domingo foi um dia estafante. Dormi mal e pouco, enfrentei uma estrada de fim de feriadão, vi o clássico pela tv da redação, participei do Mesa Redonda do Flavinho, e desembarquei na minha caverna do Grão Ducado de Ibiúna já madrugada se insinuando.

Só queria relaxar um pouco antes de enfrentar esta insônia fora de hora.

Quem sabe, terminar aquele instigante livrinho sobre o genocídio dos petromilionários índios americanos Osages, na década de 20? Ou, talvez, ouvir pela centésima vez o ainda rapaz Frank Sinatra, no embalo da orquestra de Tommy Dorsey, caminhando pela noite eterna ao som e lembranças de My echo, my shadow and me. Ou, então, romancear um pouco sobre a imagem daquela jovem senhora ajeitando os cabelos crespos, pontilhados de fios brancos, diante do espelho do elevador, com um sorriso cheio de recatadas promessas.

A propósito, o amigo terá notado como a mulher de hoje caminha com passos ainda jovens entre os 40 e os 60? É uma graça .

Mas, não. Prefiro mesmo ligar na tv a gravação do jogo do City contra o Southampton, pelo campeonato inglês, que havia perdido na estrada a caminho da Gazeta, à tarde.

Não podia ter feito melhor escolha, meu. Que delícia ver aquele bando de pássaros azuis  revoando sobre a área inimiga. Em quinze minutos de jogo, já estava 3 a 0 para o time de Guardiola, esse arqueólogo do futuro, capaz de cavar um túnel de ida e volta ao passado, de onde extrai esse precioso tesouro da bola de ouro tocada com esmero e eficiência.

Houve até uma cena chapliniana, quando cinco atacantes do City trocaram vários passes dentro da área adversária. Era toque de calcanhar aqui, caneta ali, dribles curtos e estonteantes, enfim, um deslumbre.

Findo o jogo, 6 a 1 para o City, que, mesmo goleando, era insaciável, criando uma chance atrás da outra, graças à ferrenha marcação avançada, sufocante para o adversário, prova cabal de que, sim, se pode jogar o tempo todo no ataque, com técnica refinada, domínio da bola, sem correr riscos de se transformar numa peneira lá atrás, pois até agora essa equipe só tomou quatro gols em toda a temporada  e fez mais de vinte.

Ah, mas o City é um clube milionário, capaz de contratar os maiores astros em atividade; assim, até eu. Ledo engano, amigo. Suas principais estrelas foram desprezadas em outros grandes da Europa, como, por exemplo Sterling, autor de dois gols (ou teriam sido três?; já perdi a conta) e De Bruyne, que estava fora, contundido pela segunda vez neste ano.

Outro dia, por sinal, com todos os seus reservas na Copa da Liga, exibiu o mesmo futebol encantador e eficaz.

Trata-se apenas de como se vê o jogo e a vida. Há quem prefira o pincel, assim como os que amam o fuzil. A escolha é de cada um.

Só sei que desliguei a tv e fui dormir o sono emprestado aos poetas, enrolado nos caracóis dos cabelos pontilhados de fios brancos e aquele recatado sorriso de esperança. Revestido de azul-celeste.

 

5 comentários

  1. Alberrto Helena Jr.

    É inspirador para nós pobres mortais quando nos deparamos com um texto desta qualidade e nos leva a tentar melhorar também nosso humilde testículo (licença poética para texto pobre e pequeno) mais é um prazer ao menos imaginar um pouco sobre o grão ducado de Ibiuna, terra de gente rica e famosa como nosso amigo jornalista que agora lê esse arremedo de texto comparado com a poesia exalada da mente deste mesmo jornalista, nunca pensou amigo em também se dedicar a literatura ? Saudações palmeirenses.

    1. Mas jogou contra ninguem…meu Deus, como cronista no Brasil é ruim…jogar contra ninguem com um time
      milionario…..essa Gazeta ja foi boa….

  2. Tite: “Eu admito que cometi erros. mais que não os comete. O importante é que vou corrigi-los” . O mais engraçado para não dizer inacreditável é que ele coloca a “bola parada” como sendo o maior erro do time. Bola parada sempre soube que primordialmente cabe aos jogadores combinarem entre si, e definir quais são. Muito mais que o próprio treinador. A evolução tática do time em campo, as jogadas ensaiadas com a bola rolando para ele não vem ao caso. Devem dar muito trabalho. Ele ganha muito pouco, só R$ 800.000,00/mes para se dedicar e pensar esquemas de jogos bem elaborados e eficazes. Tite é o maior enganador que já treinou a seleção brasileira em todos os tempos. O seu custo benefício é extremamente caro. Em treis anos com treinador não ganhou nada, não inovou nada, não revelou nenhum craque. O mesmo não podemos dizer dos seus negócios advindos dos seus contratos de marketing com a CBF que certamente vão de vento em poupa.

  3. Nobre, Helena Júnior, parabéns pelo brilhante texto, de viés poético, ao qual dou muito valor. Nele, está estampado, sua marca registrada, na sutileza como junta os fatos do presente ao passado. Sempre empunhando a Bandeira do Futebol Arte, a verdadeira essência que o tornou imprescindível. Nobre, gaste quanta tinta e saliva, for necessário, não perca a esperança de fazer Enxergar, treinadores e dirigentes … nós sempre estaremos torcendo !

  4. É um prazer para os olhos e a mente ler um texto como esse.
    Desde os tempos do Jornal Da Tarde, leio e acompanho as crônicas e textos do mestre Alberto Helena.
    Mas, Helena, se assim me permite chama-lo, você que sempre defende o futebol arte, peço sinceridade em sua resposta, e pedir sinceridade é apenas uma redundância, no seu caso, ainda acredita esse grande jornalista que ainda veremos a época de ouro do futebol brasileiro de volta?

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