Duas lendas do nosso futebol

(Foto: Divulgação/CRVG)

Ontem, quando escrevia sobre a onda de goleiros brasileiros espalhados pelo mundo, fiquei tentado a lembrar a figura lendária de Jaguaré. Que me conste, foi o primeiro goleiro brasileiro a se aventurar em campos da Europa, lá pelo início dos anos 30, jogando pelo Barcelona, além do Marselha e do Sporting de Lisboa.

Jaguaré não era só famoso, ao se projetar no Vasco no final da década de 20, como se destacava pela excentricidade. Boêmio inveterado, dizia-se que costumava girar a bola no dedo, ao pegar um pênalti, e que tinha o hábito de, ao defender bola cara a cara com o atacante, devolver-lhe a bichinha para praticar outra intervenção no fio da navalha.

Morreu cedo o Jaguaré, na casa dos 40 anos, vítima dos excessos e, dizem, por desejo dos anjos de reforçar a meta do time do céu.

E isso me remete a outra personagem lendário do nosso futebol: o centroavante Heleno de Freitas, mineiro, advogado de anel no dedo, galã das praias cariocas, frequentador da alta sociedade carioca, boêmio, entronizado nas crônicas do nosso inesquecível Armando Nogueira, que também morreu cedo – aos 39 anos, num hospício de Barbacena, vítima de uma sífilis mal curada.

Aliás, a única imagem que tenho de Heleno é quando, já em fase de sandice progressiva, nos anos 50, mal entrou em campo com a camisa do Santos, num jogo à tarde de meio de semana, contra o América, foi expulso, e saiu de campo baixando o calção e balançando seus parangolés para a torcida.

Heleno (Foto: Acervo/Gazeta Press)

Mas, no auge de sua carreira, no Botafogo, acabou se transferindo para o Boca, justamente quando os craques argentinos promoviam uma greve geral que resultou na debandada dos seus principais nomes para a tal Liga Pirata da Colômbia (dentre eles, o nosso maior aventureiro, Ieso Amalfi, que vale um tópico próprio).

Pois Heleno de Freitas desembarcou na Colômbia e nos dois primeiros jogos foi mal. Dizia-se que por causa da dificuldade em entender e falar o espanhol.

E aqui, se me permita o amigo, passo a palavra a ninguém menos do que o grande escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, reproduzindo um trecho de sua crônica intitulada O doutor De Freitas, extraída de um calhamaço que redescobri na minha estante depois de um longo tempo ali esquecido – Textos Caribenhos. A crônica é datada de abril de 1950.

… E, já em sua nova apresentação em Barranquilla, de volta de Cali, o dr. De Freitas mostrava-se capaz de conjugar perfeitamente os tempos do verbo “fazer”. “Farei milagres”, declarou à imprensa, ao dar-se conta de que o público queria exatamente isso. Que fizesse milagres. E, segundo me contam alguns que estiveram nesse dia no Estádio Municipal, o que o brasileiro fez foi uma milagrosa atuação. Praticamente, disseram, o dr. Freitas – que deve ser um bom advogado – redigiu nesta tarde, com os pés, memoriais e sentenças judiciais não apenas em português e espanhol alternadamente, mas também citações de Justiniano no mais puro latim clássico.

Agora, ninguém mais discute que o abril foi o mês definitivo para o dr. De Freitas, e isso porque ele aprendeu a traduzir para o espanhol toda essa gíria esportiva que tanto prestígio lhe deu em seu país de origem. Como diz um grande contista nosso: “O importante é a gramática”.

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