Quem assiste ao seriado da tv Mistérios do Detetive Murdoch levante a mão.
Bem, para os que a mantiveram baixada conto que as histórias se passam na virada do século 19 para o 20, em Toronto, Canadá, e Murdoch é um misto de atilado, embora discreto, investigador de polícia e curioso em novas tecnologias que marcaram esse período da história ocidental.
Seu chefe, porém, é um inglês típico da era vitoriana, conservador, um tanto pasmo diante das novidades do raiar do século 20, que adora o nascente futebol de sua época e, por isso mesmo, acaba sendo testemunha de um crime durante os treinos de uma equipe que disputará ás Olimpíadas de 1908 nos EUA.
Pouco antes, preocupado com a falta de jeito dos seus atletas em distribuir carrinhos, tenta dar-lhes amostras de como deveriam agir, em vão. Desesperado pela falta de jeito de sua defesa, sobretudo nos tiros diretos, vai lá no meio do campo e orienta seus defensores a formar uma até então desconhecida barreira.
Enquanto Murdoch tenta desvendar o assassinato de um dos jogadores, o comissário vai ao quadro negro e desenvolve uma teoria repleta de números e flechas indicativas. Diante do quadro negro, Murdoch questiona seu chefe:
-O que é isso?
O comissário explica:
– Esse é o desenho de uma nova tática de jogo. Até hoje, jogamos no tradicional 2-3-5. Desse jeito, tomamos muitos gols. Então, bolei este sistema, o 4-4-2. Assim, não tomamos gols.
Murdoch, sem alterar a expressão, conclui:
-Mas, em contrapartida, não farão gols. E fazer gols não é o objetivo do jogo?
Bem, os diálogos aqui expostos não são exatamente os do filme, mas o sentido, sim.
Quer dizer, Murdoch, o detetive ligado nas modernas tecnologias, desvendava o mistério de um crime do futuro, lesa futebol.
Sim, porque ainda há pouco, assistia na tv os amigos da Espn tentando desvendar o mistério que cerca o fato de, no atual campeonato paulista,. a média dos resultados dos jogos ser de 1 a 1.
Para uns, o fato deprimente se explica pela ausência de atacantes de qualidade. Para outros, é a síndrome do contragolpe que se abateu sobre nosso futebol nas últimas décadas.
Ambos me parecem certos, pois trata-se da soma dos dois fatores.
Mas, e a origem disso?
A origem está na escolha medrosa de nossos treinadores, jovens ou veteranos, que preferem seguir os conselhos do vitoriano comissário, chefe de Murdoch. Apostando mais na defesa do que no ataque, reduzem a produção de atacantes de alta classe, ainda mais quando eles nos são resgatados desde cedo pelos centros mais avançados da Europa.
Forma-se, então, um círculo vicioso: os sistemas de jogo prejudicando a projeção de atacantes, o que enfeia o espetáculo, consequentemente reduz o poder de captação de recursos pelos clubes, mal geridos, diga-se, que não resistem um milímetro diante da investida dos outros centros.
Estará a estas alturas se perguntando o amigo: o que esse velhote está dizendo, que devemos voltar aos primórdios do futebol readotando o esquema 2-3-5?
Não sou eu quem o diz. É ninguém menos do que Guardiola quem o demonstra em campo, na prática. Se o amigo observar como jogava o Barça e o Bayern e como joga o atual City verá que seus times se postam com dois zagueiros no meio de campo, os laterais e o único volante formando a chamada linha média dos velhos tempos e cinco atacantes (dois pontas, dois meias de ligação e um centroavante).
Assim, não só ganham quase tudo, sem tomar muitos gols, como oferecem um agradável espetáculo feito de muita graça e emoção, quase sempre goleando os adversários escondidos sob as mais poderosas retrancas.

Mas, então, como Guardiola (e seus seguidores) resolveu o mistério do quadro negro do comissário do seriado?
Simples: esse 2-3-5 dele não é aquele do início do século passado, quando os atletas não tinham um décimo da habilidade, da velocidade e da força física dos atuais. Estes têm condições de, se bem distribuídas as tarefas, cumprir a tripla função de marcar, armar e concluir a gol. Ainda mais com o campo reduzido à sua metade, onde a retranca adversária é montada.
Nada é como antes amanhã, já dizia a canção.
Mas, o que é o tempo se não uma abstração na matemática exposta no quadro negro do gênio?
PS: Vale lembrar que Tite, um técnico conservador mas inteligente, ainda outro dia declarava estar encantado com o tal 2-3-5 de Guardiola. Menos mal que o futuro possa estar batendo às portas da nossa até agora vitoriosa Seleção, nem que seja apenas na retórica.
Boa tarde.
Estou bravo com o Senhor.
Pouco tem escrito sobre o Santos. E depois de uma bela Vitória como a de ontem, tinha a certeza que, aqui, desfrutaria de suas belas palavras sobre o jogo e os feitos de mais um Menino da Vila.
Me enganei. Me desfrutei de mais um belo texto, é verdade, como é de praxe e tal e cousa e lousa e maripousa, mas não sobre o meu peixe.
Foi ótimo, mas teria sido ainda melhor se tivesse tecido algumas linhas sobre o clube praiano.
Fica a dica.
Brincadeiras a parte, tens, aqui, um grande fã, Helena.
Abraços
Meu caro, obrigado pelo apoio.
E me desculpe pela ausência do Peixe nesta praia. É que não pude ver o jogo. Portanto, não poderia escrever a respeito.
Um abração
Helena , estamos sempre vendo o novo do velho! a mesmiçe de sempre! O cara pindura a chuteira e vira “Técnico de futebol” e logo aplica o que aprendeu sem ousadia e sem criatividade!E todos falam a mesma lingua o “técnico da nova geração”que geração ? do 7×1? futebol é simples como tantas coisas simples do seculo passado,mas é preciso ousadia ,criatividade e claro talento, mas futebol se desenvolve! até os medilcres jogam!
Comentário lúcido e inteligente. Só tem um pequeno problema. Tite se esconde atrás de números Tite é muito mais teórico do que prático. O problema de Tite não é a tática que ele desenha para o seu time, e sim, quem ele escala para cumprir esse papel. Tite age como aquele arquiteto que faz um desenho maravilhoso de uma obra, entretanto, confia ela a operários sem a devida competência para executá-la. No fim, ou a construção desaba ou a obra resultante não tem nada haver com o que foi planejado e desenhado. É um fracasso. Guardiola é como Tite planeja bem, monta esquemas inteligentes e bem pensados, porém, diferente de Tite seus operários são altamente qualificados não são bitolados numa única função, são flexíveis e o resultado é sempre uma obra prima de se ver.