Nosso futebol: o fio e os rastros

Foto: CBF

O fio de Ariadne conduziu Teseu pelo labirinto até o Minotauro, segundo a lenda grega. Mas, e os rastros deixados por Teseu no sombrio e enigmático labirinto? É atrás desses rastros ocultos da história que o fino investigador Carlo Ginzberg vai atrás no seu sedutor livro O Fio e os Rastros, tecendo instigante trama entre fatos e versões da história, da filosofia e da literatura.

Proponho aqui, no modesto nível de compreensão deste velho escrevinhador, fazermos o caminho contrário: dos rastros ao fio do labirinto em que o nosso futebol se meteu.

Os rastros estão aí à vista de todos, restos da nossa história se deteriorando a cada ano, na passagem devoradora do Minotauro em direção aos nossos campos de futebol.

Cadê o fio?

O fio da meada, imagino, está na derrota da Seleção de Telê, em 82, na Copa da Espanha, em 82.

Estava lá desde o início da nossa preparação e testemunhei o deslumbramento que aquele time provocava nos estrangeiros – ingleses, escoceses, franceses, espanhóis, argentinos, gregos e troianos.

Era a fina flor da escola brasileira, aquela que conseguiu unir a eficiência à mais inventiva arte.

Mas, perdeu para a Itália,que passou a vida cultivando a retranca que eles chamam de catenaccio (cadeado), embora aquele time, especificamente, tivesse jogadores de altíssimo nível técnico, como Bruno Conti, Tardelli, Antognoni e Rossi.

A derrota inesperada – portanto, ainda mais chocante – semeou nos nossos campos a reação, em todos os sentidos, inclusive político-ideológico.

E, aos poucos, começamos a negar nossa história, em nome do tal resultado. Foi quando o Minotauro invadiu os nossos campos, a partir, sobretudo, dos anos 90, devorando qualquer resquício.

É quando começa a fase gloriosa de Felipão, um gaúcho tosco mas carismático, como bem o define seu biógrafo, imenso comentarista, professor de Filosofia e meu eterno e querido amigo, Ruy Carlos Ostermann.

Difusor de um estilo de jogo defensivo, cinzento, cujo único objetivo era o resultado a qualquer custo, Felipão liderou uma legião de treinadores que seguiram o seu cortejo até hoje. E assim rompeu-se aos poucos e definitivamente o fio que nos ligava às nossas mais caras e sempre renováveis tradições.

E isso estava claramente expresso nas suas declarações do tipo de que futebol-espetáculo era dos “tempos em que se amarrava cachorro com linguiça”, coisas assim.

É bom dizer que, se não fosse Felipão, teria sido outro a liderar esse movimento, nascido da Tragédia de Sarriá, pois a história é feita dessas ondas que vão e vêm: ora, o respiro de um período de criatividade, liberdade, avanço; ora, o recuo ao império do atraso, com os caudilhos de plantão, o reinado de um falso moralismo, o aqui e agora, o cala-boca, essas coisas a que o amigo está acostumado a ver – traduzindo: ordem e progresso.

Em geral, nossos exemplos são importados dos países mais desenvolvidos economicamente.

O diabo é que não tem sido assim nas duas últimas décadas, no que toca o futebol.

Lá, nos grandes centros futebolísticos da Europa, o futebol caminhou no sentido contrário às tradições daqueles países: a Fúria passou a ser La Gracia; os ingleses trocaram o sóbrio blazer de tweed por uma roupagem alegre e divertida; os alemães saíram do bunker em que se meteram desde o início dos tempos para buscar um jogo arejado e ofensivo; os franceses escancararam suas portas aos antigos dominados da África e deram cores e molejo novo ao seu futebol, e assim vai.

O mundo do futebol evomluiu rapidamente nestes anos em que nos confinamos a um isolamento feito de grades e muros, como os ingleses nas primeiras décadas  do século XX. Inventores do futebol moderno, eles simplesmente não saíam da Ilha, nem davam bola ao resto do mundo, até que na metade do século levassem aquela memorável goleada da Hungria de Puskas e cia., em pleno templo de Wembley.

Demoraram, porém pra cair na real. E só o fizeram nestas últimas duas décadas, apesar da conquista da Copa de 66.

Mas, uma coisa é a Seleção de um país e outra a disputa entre clubes nos campeonatos nacionais e continentais, sobretudo nesta era de globalização, em que a grana fala mais alto e fala primeiro.

Por exemplo: nós temos uma Seleção de Primeiro Mundo, praticamente toda ela jogando por lá. Mas, o jogo aqui jogado é uma tristeza só.

Não porque deixamos de produzir craques. Nada disso. Ao contrário. Mas, porque, enquanto eles estão aqui ou mesmo quando surgem outros novos talentos, seguimos jogando a la Felipão, sob o signo do medo e condenando a criatividade individual, nosso maior atributo histórico.

Enfim, nossa tarefa é matar o Minotauro e resgatar o Saci Pererê. Pra tanto, precisamos reatar o nosso Fio de Ariadne.

14 comentários

  1. Brilhante a sua exposição. Muito abrangente e, ao mesmo tempo, profunda.
    Acrescentaria, discordando de seu histórico posicionamento (como já o fiz anteriormente), que outra das causas é a mudança da importância (e da ordem cronológica) dos nossos campeonatos, A partir da década de 1980, o Nacional matou os Estaduais. Até então, o Nacional era disputado no 1º semestre (substituindo os antigos Rio-SP e Roberto Gomes Pedrosa) e os Estaduais no 2º semestre. Com essa inversão, nosso futebol foi praticamente “extinto”, pois o Interior deixou de ser formador (boa vitrine!) para ser receptor de jogadores em fim de carreira. Pior: ninguém pensou em fazer os Estaduais serem classificatórios para o Nacional (como este é para a Libertadores e esta, para o Mundial de Clubes), o que seguiria a ordem natural, valorizando os Estaduais.
    Sugestões para melhorar nosso futebol (hoje):
    1) empate em pontos corridos: desempate no saldo de gols e não no nº de vitórias (assim, os times irão em busca de gols em todos os jogos e deixam de cair na defesa para segurar o 1 x 0, que vale uma vitória) ;
    2) nos pontos corridos, somente dar o 3º ponto para quem ganhar por diferença de 3 ou mais gols (idem);
    3) quanto mais gols tiver o jogo, menor a influência do erro de arbitragem no resultado: hoje, a média é de 2 a 3 gols por jogo; logo, um erro do árbitro representa 50% ou 33% do placar;
    4) jogador “machucado” que sair do campo por seus próprios meios (caminhando, engatinhando, rolando etc) sem paralisar o andamento do jogo, volta logo que for atendido; se houver necessidade de sair de maca, deve ser atendido por no mínimo 5 minutos (já que seu caso é grave);
    5) o tempo de jogo, informação essencial para todos, deveria ser informado no placar, devendo o árbitro indicar os minutos complementares ao longo do jogo, penalizando o time que provoca cera. Assim, a cada paralisação anormal (expulsão, substituição, atendimento médico etc), o árbitro indica de imediato o tempo adicional à mesa, que o mostra a todos no cronômetro do placar eletrônico.

  2. O futebol do Brasil a nível de clubes não se pode comparar com o velho continente, devido ao poder económico, está correctíssimo.
    A nível interno contratam jogadores com 37, 38 anos para andar pelo campo em vez de apostarem em novos.
    Bem, mas a nível de selecções estamos ou poderíamos estar ao nível do velho continente, mas não, infelizmente não estamos, porque os nossos técnicos estão desactualizados.
    Onde está um bom técnico brasileiro a dirigir uma equipa no velho continente……..?
    Não vale a China, o Japão ou África, na Europa nenhum.
    O problema das selecções do Brasil, desde 1982, foi que montamos a nossa selecção na seguinte base…..defender com 2 trincos e mais 2 médios defensivos e mandá-mos a bola para a frente e que os dois “craques resolvam o jogo”.
    Isso deu certo quando havia Romário e Bebeto e depois Ronaldo e Rivaldo, mas hoje os craques da frente tirando Neymar é igual ao melhores da Europa.
    Além disso na Europa joga-se colectivamente e no Brasil joga-se individualmente.
    Na Europa corre-se, marca-se, e os jogadores estão acostumados a isso, no Brasil interno joga-se a “caracol”.
    Lá fora os brasileiros craques jogam mais rapido, mas não se esqueçam que os outros 10 correm, marcam em cima.
    A diferença está aí. A cultura futebolística no Brasil é a do malandro que com um drible a mais marca golo, mas esta cultura a muito deixou de ser a mais eficaz.
    Pois é quando apanharmos Alemanha, França, Espanha, Itália, Inglaterra (com a equipa titular, não a reserva), Suiça, Noruega, Portugal…….bem acho que vai ser complicado, porque eles correm, marcam em cima, não param e não sei, mas temo o pior.
    A única vantagem que o Brasil sempre teve, foi que o período da Copa do Mundo é no fim da época na Europa, ou seja os jogadores europeus, terminaram a sua época ( acabou as suas ligas, Liga Europa e a Liga dos Campeões) e assim eles não correm tanto, nem marcam, mas mesmo não correndo tanto e marcando tanto se calhar ainda ganham por 5, 4 ou 3 do Brasil.
    Vamos ver, mas o futebol do Brasil está muito atrasado em relação ao futebol mundial, infelizmente.

  3. Que viagem desse rapaz que comentou sobre esse post. Ele acha que com isso irá melhorar o futebol brasileiro, o futebol brasileiro está em queda livre há tempos, sem previsão de aterrizagem, e esse tipo de criatividade não contribuirá em nada com o futebol, pelo contrário o excesso de criatividade só prejudica ainda mais, basta fazer um pequeno comparativo entre o futebol europeu e o sul-americano, sem colocar em questão o nível técnico dos jogadores, você perceberá sem muito esforço que o problema é outro, é estrutural, logo para melhorar o futebol por aqui são outras coisas que devem ser melhoradas.

      1. Caro Wash
        Aguardo sua resposta. Que outras coisas devem ser melhoradas? Por que essa “criatividade” não contribuirá em nada com o futebol? Qual é o “esforço” para resolver o problema estrutural?

  4. O MAIOR CULPADO DISSO TUDO É O MAIOR PREJUDICADO TAMBÉM, SEU NOME É “TORCEDOR” ESSA ÂNSIA DE VITORIA A QUALQUER CUSTO HOJE É POR CULPA DO TORCEDOR E SUA TRUCULÊNCIA PRA NÃO DIZER VIOLÊNCIA E IMPACIÊNCIA FENOMENAL COM QUALQUER DERROTA, FAZENDO COM QUE CADA DIA MAIS OS CLUBES E TREINADORES TRABALHEM EM CIMA DE RESULTADOS E NADA MAIS !!!!!!

    1. Silvio, me desculpe mas voce nao captou a ESSENCIA do futebol e esta completamente influenciado pela midia atual. (que logicamente tambem nao captou ) abs

  5. O Alberto Helena é como um bom vinho: quanto mais velho melhor!! Ele sabe ler qualquer jogo!! diferentemente
    desses desses torcedores apelidados de “comentaristas esportivos”Diante de um Brasil falido, “diga-se de passagem” como diria o “baita” craque Neto..que jogsava “trocentas” vezes melhor que o Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar juntos.. Tenho 80 anos e não lembro desse brilhantismo..lembro dando gusparadas na cara de um jjuiz..Os “donos da bola” estão acabando com o futerbol: em 74 Ademir da Guia de fora..Jairzinho jogando com a 9
    do “Cesar Vavá”..Por que o Telê não levou o Leão, Edinho e Renato Gaucho em 82?? Por que mandou o Zico bater o pênalti ao invés do Careca em 86?? Por que Julio Cesar, Paulinho e Fred no 7×1? Por que um Diego Souza na seleção?? Por que não convoca o “comedor de grama Dudu?? Só falta convocar o Jô para Russia..

  6. Acabo de ouvir a propaganda da gazeta FM e não posso me furtar a comparar o nível dos “artistas” e “músicos” de hoje com os do tempo em que o Brasil era palco de Tom, Vinícius, Chico, Caetano, Gil, Milton etc. E se fizermos um paralelo com o futebol tenho a impressão que a conclusão é a mesma. Nos meus tempos de inicio na escola sempre ouvia os adultos que deveria ler jornais e revistas para aprender bom Português. Hoje se o fizermos, corremos o risco de nos tornarmos analfabetos funcionais pois , à exceção de uns poucos(Mestre Helena sendo um deles) a maioria assassina diariamente a nossa já moribunda “última flor do Lácio inculta e bela” Não se consegue conjugar os verbos nem nos tempos do indicativo que dirá no subjuntivo, e semântica para a maioria parece ser uma caixinha de sementes. No meio das Media faladas esta quase que insuportável ouvir jornalistas e comentaristas que, provavelmente adestrados pelo cretinismo do tuiter, não conseguem expressar pensamentos com mais de 140 caracteres sem usarem a bengala do “ai” Fica aqui um alerta para os desavisados que diuturnamente se deixam levar pelo fascismo do momento e pedindo novo golpe militar, que ninguém pode esquecer foi o motivo da derrocada do país nas últimas décadas.

  7. Nos anos 70 toda midia resmungava que nosso futebol estava defensivo demais, isso com todos nossos craques jogando aqui, ja era assim naqueles tempos tambem, tanto que a media de gols era baixissima, só pesquisar!! Lembro de um encontro entre Pelé e Garrincha inicio anos 80, pouco antes do Garrincha morrer, os dois diziam que o futebol esta muito feio e defensivo, isso ja nos anos 80 tambem e com o Flamengo e seleçao apenas destoando positivamente, ou seja de novo a mesma historia, sempre foi assim, e se o futebom europeu joga um futebol bonito hoje em dia, qualquer bobinho sabe que é por causa de Messis e Neymares da vida que jogam por la, futebol brasileiro argentino a seviço daqueles canelas duras que sempre foram os europeus…

  8. No dia que a Globo parar de convocar e escalar a seleção o futebol brasileiro voltará a ser grande. A influência dessa emissora via CBF e anunciantes claramente minam qualquer possibilidade de um técnico fazer um trabalho independente, formando um time que seja o melhor sob o seu ponto de vista. Todos sabemos a influência exercida pelos anunciantes da Globo para que seus jogadores propaganda estejam nas convocações e daí em diante escalados como titulares. Isso tira de qualquer técnico a possibilidade de formar um time que jogue conforme as nossas tradições. Tem mais, a própria escolha do técnico é feita sob a ótica do mercado, ou seja, do futebol de resultados. É o caso do Tite. O mercado via anunciantes jamais iria permitir que a seleção voltasse a jogar o futebol de risco como era no passado, como por exemplo a de 82, sob pena de colocar em risco seus grandes investimentos. Jamais iria permitir um técnico convocar jogadores extra classe acostumados a um futebol ofensivo, tipo tomar 2 mais fazer 3 ou 4 gols. Por isso que Tite joga com o Casemiro, Fernandinho, Paulinho, Renato Augusto. Essa é a resposta de Tite aos patrocinadores, jogadores claramente adaptados a esquemas fechados. Essa na minha opinião é o cerne da questão.

  9. Alberto Helena Jr.

    Meu amigo Alberto é um dos maiores jornalistas deste Brasil, sem sombra de duvidas, texto digno de ser tese de mestrado em qualquer faculdade de jornalismo que se preze, não vou me alongar só fico na salva de palmas para esse “escrevinhador”. Saudações palmeirenses.

  10. Duas correções no meu comentário acima: 1-” Não se consegueM conjugar os verbos nem “”
    2-“……Nos meus tempos de inicio na escola sempre ouvia os adultos DIZEREM que deveria ler j…”

  11. Gerson Nunes de Oliveira o Pagaio foi um dos maiores meias do futebol brasileiro de todos os tempos, quiçá o melhor .Numa entrevista recente para o Portal UOL o jornalista pergunta para ele “se essa seleção do Tite não poderia ser eleita como a melhor de todos os tempos”. Gerson meio sem jeito tentou desconversar. Se no lugar do Gerson estivesse o Nelson Piquet certamente esse repórter teria levado uma esculhambação na hora e caído fora. Um cara que faz uma pergunta dessas para um ídolo como foi Gerson e jogar na seleção que jogou pode ser chamado de jornalista esportivo?

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